saude adolecentes
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que participam do atendimento de saúde desses indivíduos. 
Muitos não aprendem os métodos de atendimentos dos xamãs e não conseguem uma forma de 
comunicação com a clientela, atendendo sempre com a ajuda dos agentes de saúde indígenas.
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Ministério da Saúde
Ao contrário do que se apregoa no Brasil, no País existe uma imensa diversidade étnica e 
linguística, estando entre as maiores do mundo. São 215 sociedades indígenas, com 55 grupos 
de índios isolados, sobre os quais ainda não há informações objetivas. São faladas 180 línguas, 
pelo menos, por integrantes dessas sociedades, as quais pertencem a mais de 30 famílias 
linguísticas diferentes.
No que diz respeito ao processo de crescimento e desenvolvimento vivenciado pelos 
indígenas, para marcar a entrada de um grupo ou indivíduo de uma fase de vida para outra, 
em geral, esses povos praticam ritos de passagem. Esses ritos são realizados por ocasião da 
gestação, do nascimento, da chegada à vida adulta, do casamento, do envelhecimento e até 
da morte.
Nas sociedades indígenas, a adolescência não é uma fase social ou psicológica. O 
processo para entrada no mundo adulto inicia-se quando o sujeito está apto para a procriação 
e, em seu processo educativo, já treinou a aquisição das habilidades práticas pertinentes ao seu 
gênero sexual, pois desde a infância já observava e imitava os mais velhos em seus afazeres 
diários e aprendia suas funções, de acordo com o seu sexo. Dessa forma, para marcar essa 
passagem é realizado um ritual de iniciação que é uma das cerimônias mais importantes na 
cultura indígena.
Os rituais diferenciam-se de acordo com o gênero e com a tribo. Para as mulheres 
indígenas a primeira menstruação é o marco indicativo de que a jovem deve iniciar o ritual. 
Nele, as mulheres ficam um longo período em reclusão em um espaço reservado dentro de sua 
casa, saindo somente para a realização das necessidades fisiológicas. De acordo com relatos 
de índios guaranis, nessa ocasião as meninas têm seu cabelo cortado e mantêm resguardo 
dentro de suas casas, onde recebem alimentos e de onde raramente saem. Durante esse tempo, 
as indígenas conversam e ouvem histórias das mulheres mais velhas, aprendem a confeccionar 
objetos femininos e preparam-se para as futuras responsabilidades. Essa clausura pode durar 
de seis meses a dois anos, ou até mais. Quando saem, estão com a pele descorada e com os 
cabelos longos, cobrindo o rosto.
O ingresso na vida adulta para os homens é marcado pelo desenvolvimento corporal 
e pela mudança na voz. Por isso, dependendo da tribo e do desenvolvimento do menino, os 
cerimoniais de iniciação podem durar até cinco anos. O ritual de iniciação masculino é formado 
por um conjunto de provações físicas e emocionais, fixação de conhecimentos, valores, crenças. 
Em algumas tribos existe a casa dos solteiros para onde se dirigem os meninos, podendo 
eventualmente retornar a casa materna. Entretanto, a permanência nessa casa simboliza a 
ruptura entre mãe e filho, já o preparando para o casamento. Nessa casa só é permitida a entrada 
das mulheres para levar os alimentos. E é proibida a sua participação em diversos momentos 
do ritual. Durante esse cerimonial, o jovem é submetido a diversos testes físicos e mentais a fim 
de provar que está preparado para assumir novas responsabilidades. Ao final desse período, o 
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Proteger e cuidar da saúde de adolescentes na atenção básica
homem recebe uma espécie de marca, que pode ser uma tatuagem ou um adorno marcando o 
fim desse processo.
Tendo em vista a grande quantidade de povos indígenas com diferentes tradições e 
culturas, a ideia aqui é somente exemplificar com alguns detalhes pertinentes ao processo 
de desenvolvimento dos adolescentes e jovens, ilustrando a necessidade de ampliação dos 
conhecimentos interculturais na formação do profissional de saúde, principalmente os que 
trabalham em áreas rurais ou perto de aldeamentos indígenas.
9.4 Comunidades remanescentes quilombolas
Na área da Saúde, o grupo populacional descendente da raça negra oriunda dos países 
africanos continua pouco incluído no ensino de graduação, deixando uma brecha na formação 
dos profissionais.
No Brasil, desde a época colonial, os escravos eram enviados da África e comprados 
como mercadorias pelos donos de terra para impulsionar a produção de açúcar. As plantações 
exigiam grandes extensões de terra e funcionavam com o trabalho escravo. Dessa forma, a 
produção do açúcar deu base para a estrutura social que atravessou toda a Colônia e o Império. 
Mais tarde, com a produção de açúcar pelas Antilhas e Estados Unidos da América (EUA), os 
fazendeiros precisaram encontrar outro produto de fácil aceitação no mercado internacional, 
que seria o café. A cultura cafeeira era realizada em grandes áreas territoriais dependente de 
um grande movimento de mão de obra.
A origem das Comunidades Quilombolas data do século XVII-XVIII, chamado Século 
do Ouro. Conforme Silva (2003), grupos de escravos, principalmente devido aos maus-tratos, 
revoltavam-se nas fazendas e fugiam, formando nas florestas os famosos quilombos. Estas 
eram comunidades bem organizadas, onde os integrantes viviam em liberdade, por meio de 
uma organização comunitária aos moldes da que existia na África. No Brasil, o maior quilombo 
da história da resistência ao cativeiro foi Palmares (no atual território de Alagoas e de 
Pernambuco), comandado por Zumbi.
As Comunidades Quilombolas que vivem hoje em dia em territórios ocupados por 
pequenos agricultores rurais negros foram criadas de várias formas, tais como: invasões de 
terra por escravos fugidos, heranças, doações, terras doadas como pagamento de serviços 
prestados ao Estado, terras ocupadas no interior de grandes propriedades, bem como a compra 
de terras, tanto durante a vigência do sistema escravocrata quanto após sua abolição.
Não há um levantamento do número exato de comunidades remanescentes de quilombos. 
Segundo o Centro de Cartografia Aplicada e Informação Geográfica da Universidade de 
Brasília (UnB), existem hoje registros de 2.842 comunidades quilombolas espalhadas por todas 
as regiões do País. A Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais 
Quilombolas (Conaq) estima que haja cerca de 5 mil por todo o Brasil.
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Ministério da Saúde
Embora a criação dos quilombos já estivesse acontecendo desde os idos de 1630, a 
questão quilombola só foi inserida no debate brasileiro no ato das disposições transitórias da 
Constituição de 1988, com a inserção do artigo 68: \u201caos remanescentes das comunidades dos 
quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo 
o Estado emitir-lhes os títulos respectivos\u201d. Permanecendo ainda uma grande dificuldade para 
o reconhecimento do território, a titulação das terras quilombolas só foi regulamentada em 
2003, com o decreto nº 4.887, de 20 de novembro de 2003. O critério para a titulação da terra é 
a autodefinição, que dá início a um longo processo, que envolve identificação, reconhecimento, 
delimitação, demarcação, desintrusão, titulação e registro, que deve ser coletivo (em 
nome de uma Associação de Moradores). Os seguintes termos designam as Comunidades 
Quilombolas: \u201cterras de negros, quilombos, mocambos, comunidades negras rurais, quilombos 
contemporâneos e Comunidade Quilombola\u201d (SILVA, 1995).
Ressalte-se, no entanto, que essas comunidades negras sofrem constantemente pressão 
dos que se consideram proprietários da terra, apoiados pelos mecanismos que alimentam a 
concentração de riqueza, propriedade e poder na sociedade brasileira, o que acaba causando, 
além do desemprego, os conflitos e as desigualdades sociais. Em outras palavras, protestar 
contra a estrutura agrária do País significa contrapor um modelo de desenvolvimento que 
privilegia a grande propriedade, o mercado externo e a desregulamentação do trabalho na