saude adolecentes
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cidade e no campo (WEISSHEIMER, 2006).
A produção econômica dessas comunidades é muito pequena e não lhes dá margem de 
lucratividade. Atualmente, em muitos quilombos, para aumentar a renda familiar é praticada 
a pluriatividade, ou seja, além das atividades agrícolas fazem artesanatos (cestas, tapetes, 
brinquedos) ou vão realizar suas atividades nas cidades mais próximas (SCHNEIDER, 2003).
No sentido de melhorar o entendimento sobre os problemas biopsicossociais que envolvem 
esses grupos, considera-se prioritário o desenvolvimento de programas de capacitação que 
particularize as questões dos adolescentes e jovens quilombolas e a execução da Política 
Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN).
Essa Política \u201cé uma resposta do Ministério da Saúde às desigualdades sociais que 
acometem essa população, Essa resposta é fruto do reconhecimento dos processos que 
construíram e ainda constroem as condições de vida dessa população\u201d (BRASIL, 2010c).
Desse modo,
A Política Nacional de Saúde Integral da População Negra define os princípios, a marca, 
os objetivos, as diretrizes, as estratégias e as responsabilidades de gestão, voltados 
para a melhoria das condições de saúde desse segmento da população. Inclui ações 
de cuidado, atenção, promoção à saúde e prevenção de doenças, bem como de gestão 
participativa, participação popular e controle social, produção de conhecimento, 
formação e educação permanente para trabalhadores de saúde, visando à promoção 
da equidade em saúde da população negra (BRASIL, 2010c).
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Proteger e cuidar da saúde de adolescentes na atenção básica
Em relação à população negra adolescente e jovem, essa Política especifica como 
estratégia de gestão o
fortalecimento da atenção à saúde integral da população negra em todas as fases 
do ciclo da vida, considerando as necessidades específicas de jovens, adolescentes 
e adultos em conflito com a lei\u201d e a \u201cgarantia da implementação da Portaria 
Interministerial MS/SEDH/ SEPM nº 1.426, de 14 de julho de 2004, que aprovou as 
diretrizes para a implantação e implementação da atenção à saúde dos adolescentes 
em conflito com a lei, em regime de internação e internação provisória, no que diz 
respeito à promoção da equidade (BRASIL, 2004; 2010a).
9.5 Grupos ou clãs ciganos
Os ciganos são considerados \u201chóspedes indesejados\u201d em diferentes países, convivendo 
secularmente com o preconceito, a estigmatização e a exclusão social. Uma de suas 
peculiaridades menos compreendida é o estilo de vida nômade, na medida em que a maioria se 
recusa de maneira sistemática a residir em uma base territorial definida. Atualmente, alguns 
clãs estão optando por morar em acampamentos, localizados em terrenos comprados ou 
alugados e até mesmo em residências fixas. Devido ao estilo nômade de muitos grupos ciganos, 
a entrada no SUS é dificultada pela falta de registro territorial, uma das bases da ESF.
No Brasil existe cerca de 1 milhão de ciganos, divididos em dois importantes subgrupos: 
os ciganos Rom (oriundos do Leste Europeu) e Calom (da Península Ibérica, desde o século XVI 
no Brasil) vivendo no Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais, Goiás, 
Bahia, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, entre outros.
No sentido de conhecer e atender, no sistema de saúde, este grupo étnico, alguns aspectos 
sobre a organização devem ser assinalados. Sabe-se que a base da organização social dos 
ciganos é a família, não havendo hierarquia rígida no interior dos grupos. O comando do clã é 
exercido pelo homem mais capaz, chamado Kaku.
O Kaku representa a tribo na Krisromani, uma espécie de tribunal cigano formado pelos 
membros mais respeitados de cada comunidade, com a função de punir quem transgride a 
rígida ética cigana. O mestre de cura (ou xamã cigano) é um Kaku (homem ou mulher) que 
possui dons de grande paranormalidade. Eles usam ervas, chás e toques curativos. Em geral, os 
homens são comerciantes e mascates, negociam tudo o que conseguem para trazer melhores 
condições de vida às famílias.
As mulheres são extremamente submissas e adoram enfeitar-se com bijuterias, roupas 
coloridas e saias compridas. Para distinguir as que têm mais posses, elas usam adornos de 
ouro nos dentes. A prática de ler as mãos é devida a um dom que remonta aos ancestrais e é 
transmitida entre as gerações de mulheres.
Em geral, os povos ciganos são alegres, festeiros e gostam de comemorar com muita 
dança as festas típicas os batizados e casamentos, bem como o dia de Santa Sara, padroeira 
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Ministério da Saúde
dos ciganos. A morte tem uma série de rituais, como o de colocar uma moeda na boca do falecido 
para que ele possa negociar com o barqueiro que o levará ao mundo dos mortos.
Possuindo códigos próprios, por vezes a expressão dos sentimentos morais, a demanda 
por respeito e o brado por reconhecimento cedem lugar às rivalidades, essas são perpetuadas 
nos subgrupos sem que haja uma crítica entre eles, os gadjé (não ciganos), no entanto, não 
conseguem lidar com tranquilidade quando entram em contato com esses conflitos.
Em 2006, foi instituindo o Dia Nacional do Cigano no Brasil. O estabelecimento de uma 
data comemorativa inscrita no calendário oficial demonstra o reconhecimento, embora tardio, 
dessa minoria étnica.
Decreto de 25 de maio de 2006: Institui o Dia Nacional do Cigano.
O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, no uso da atribuição que lhe confere o art. 84, inciso II, 
da Constituição,
DECRETA:
Art. 1º Fica instituído o Dia Nacional do Cigano, a ser comemorado no dia 24 de maio de 
cada ano.
Art. 2º As Secretarias Especiais de Políticas de Promoção da Igualdade Racial e dos 
Direitos Humanos da Presidência da República apoiarão as medidas a serem adotadas 
para comemoração do Dia Nacional do Cigano.
O conhecimento sobre os ciganos no Brasil é limitado, existindo poucas informações 
disponíveis. A carência de dados qualificados sobre as características da população e sua 
distribuição no território nacional, devido à grande mobilidade dos grupos e da ausência 
documental, leva ao chamado \u201csub-registro civil\u201d. São povos que mantêm a tradição por meio 
da oralidade, havendo poucos registros em papel. Até os próprios atestados de nascimento e 
casamento não são comuns em todos os clãs.
Consultando os bancos de teses, observa-se uma produção acadêmica discreta dedicada 
aos ciganos no Brasil, seja em sua dimensão histórica, econômica, política, sociológica ou 
artístico-cultural. Esses fatos dificultam uma interlocução com os organismos governamentais 
no atendimento às demandas crescentes desses grupos, principalmente dos adolescentes 
e jovens.
9.6 Atendendo grupos vulneráveis
As crenças e ideologias do profissional de Saúde, adquiridas no âmbito da família e 
grupos sociais, são fundamentais no que se refere a sua atuação no atendimento de saúde 
e, dependendo de como ele se disponibiliza na abertura para o encontro com as diferentes 
culturas, pode ocorrer um impacto na qualidade da atenção de saúde prestada. Vale destacar 
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Proteger e cuidar da saúde de adolescentes na atenção básica
que o profissional está inserido numa sociedade pertencente a uma cultura com seus contextos 
morais, éticos, religiosos etc.
Daí o cuidado de se fazer uma reflexão sobre interculturalidade, quando está em pauta 
o atendimento de saúde de grupos com diferentes saberes e culturas. Revendo a literatura, de 
imediato um importante aspecto é constatado: existe um déficit de publicações sobre alguns 
segmentos de adolescentes e jovens, como os adolescentes e jovens infratores, os residentes 
de áreas marginais, como as favelas, os moradores de áreas rurais ribeirinhas, os clãs ciganos, 
quilombolas, indígenas, entre outros.
Nesse sentido, fica o questionamento sobre as razões que levam a esse vazio de 
informações. Se, por um lado, não existe um claro interesse na busca de dados