saude adolecentes
235 pág.

saude adolecentes


DisciplinaLivros16.988 materiais92.288 seguidores
Pré-visualização50 páginas
regras disciplinares próprias desse sistema.
Inscrevendo-se como uma das estratégias de sobrevivência econômica das famílias 
mais pobres, o trabalho de crianças e adolescentes acaba por impor-lhes um custo social 
elevado: a renúncia a um grau de escolarização maior, capaz de garantir-lhes, no futuro, melhor 
colocação no mercado de trabalho e/ou uma sobrecarga de tarefas de que resulta considerável 
desgaste físico e mental.
O mais preocupante é que, em geral, se tratando deste grupo etário, as sequelas 
deixadas por esse processo se manifestam mais frequentemente na idade adulta, mascarando 
as estatísticas referentes às doenças do trabalho em crianças e adolescentes, dificultando a 
criação de políticas públicas que os protejam em sua entrada no mercado de trabalho.
11.1 O trabalho do adolescente
Na história da humanidade constata-se a exploração do trabalho juvenil. Nas sociedades 
contemporâneas, o labor infantojuvenil, em especial nas atividades que envolvem toda a família, 
está presente tanto no meio rural quanto nos domicílios do meio urbano. Mesmo havendo 
avanços na regulamentação trabalhista, esse fato ainda é bastante relevante e as equipes da 
Estratégia de Saúde da Família (ESF) devem estar bastante atentas a ele.
A atenção primária, por meio das Unidades Básicas de Saúde (UBS), da ESF e do 
Programa de Agentes Comunitários (PAC), é um setor fundamental para identificar, acolher, 
atender e encaminhar adequadamente a criança ou o adolescente em situação de trabalho, para 
11Saúde, trabalho e adolescência
61
Ministério da Saúde
fomentar a rede intersetorial de proteção e de garantia de direitos, bem como para contribuir 
com as ações de vigilância em saúde.
Tendo em vista a perspectiva de circunscrição de território, a Atenção Primária em 
Saúde pode acompanhar a saúde da população local, fomentando o conhecimento das 
atividades produtivas desenvolvidas nos domicílios, nas comunidades, nos territórios, assim 
como identificar crianças e adolescentes em situação de trabalho.
A Constituição Federal de 1988, em seu art. 7°, XXXIII, elevou para 14 anos a idade 
mínima para o trabalho, abrindo exceção para os aprendizes (12 anos); e o trabalho noturno, 
perigoso ou insalubre foi proibido para menores de 18 anos. Em 1998, a Emenda Constitucional 
n° 20 alterou o referido inciso, e a idade mínima para o trabalho passou de 14 para 16 anos e a 
do aprendiz, de 12 para 14 anos.
O ECA, de 1990, regulamentou direitos e garantias assegurados às crianças e 
adolescentes pela Constituição (art. 227) e revogou todas as disposições legais contrárias, 
inclusive os dispositivos da CLT que contrariavam seus princípios. Tem como princípio a 
formação integral da criança e adolescente, sendo assegurado o direito à saúde, à alimentação, 
à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à 
convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, 
discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.
As jornadas de trabalho dos adolescentes, por exemplo, devem guiar-se por esses 
princípios \u2013 art. 7°, XIII, CF/88: \u201cduração do trabalho não superior a oito horas diárias e não 
superior a quarenta e quatro semanais\u201d.
11.2 Referência de adolescentes com vulnerabilidades ocupacionais
Os serviços de saúde no nível primário deverão:
\u2022 Estar integrados aos: (1) sistema de referência com os conselhos de direitos e tutelares; 
(2) centros de referência em saúde do trabalhador; (3) programas de transferência de 
renda; (4) organismos responsáveis pela inspeção do trabalho; (5) locais de trabalho 
e programas sociais e de educação que atendam a população adolescente.
\u2022 Incluir, em suas fichas e prontuários, perguntas que identifiquem a situação de 
trabalho do adolescente e que possam servir como uma anamnese ocupacional 
(especialmente a descrição de como é o dia de trabalho do adolescente ou jovem).
\u2022 Desenvolver atividades educativas que informem sobre as situações de risco à saúde 
no trabalho, tanto de acidente como de morbidade, bem como sobre os direitos do 
adolescente trabalhador.
\u2022 Desenvolver e divulgar estudos multidisciplinares sobre a temática.
 62
Proteger e cuidar da saúde de adolescentes na atenção básica
\u2022 Participar do sistema de vigilância em saúde do trabalhador desenvolvido pelos 
municípios, notificando os casos previstos na Portaria nº 104, de 25 de janeiro de 2011 
do MS ao Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan).
Atenção: Convém ressaltar que a notificação de agravos à saúde oriundos do trabalho 
de crianças e adolescentes e/ou do trabalho abaixo da idade mínima é compulsória. Além disso, 
os profissionais de saúde devem notificar ao Sistema de Informação de Agravos de Notificação 
(Sinan) tanto os casos de agravos à saúde quanto os casos de trabalho infantil e de trabalho 
ilegal do adolescente. Quando comprovada a situação de trabalho envolvendo crianças e 
adolescentes até 13 anos ou de adolescentes entre 14 e 15 que não estejam em um programa 
de aprendizagem, sem que haja, naquele momento, algum agravo à saúde, a notificação deve 
ser realizada na ficha de notificação/investigação individual, violência doméstica, sexual e/
ou outras violências. No entanto, quando há agravos à saúde desse grupo populacional devido 
ao trabalho a notificação deve ser realizada na ficha de investigação de acidente de trabalho 
grave ou nas demais fichas específicas para cada tipo de agravo. A suspeita também deve 
ser notificada.
11.3 Rotina do atendimento
Tendo em vista as implicações biológicas, cognitivas, afetivas e sociais do trabalho na 
adolescência, o atendimento desta população deverá ser realizado em equipe multidisciplinar 
onde possam ser identificados: exposição a agentes físicos, biológicos e químicos nocivos à 
saúde; fatores ergonômicos relacionados às limitações e à capacidade de trabalho; situações 
relativas à organização de processos de trabalho geradores de sofrimento psíquico; fatores 
sociais relacionados à condição de trabalhadores e sua relação com a convivência familiar, a 
frequência escolar, o acesso à cultura, ao lazer e à convivência com seus pares; violação dos 
direitos trabalhistas dos adolescentes.
O levantamento da hipótese do nexo causal, ou seja, o motivo ligado ao trabalho que está 
provocando a doença, deverá sempre levar em consideração os dados da história clínica (física, 
emocional e social), o exame clínico e o mapeamento dos riscos ambientais.
É fundamental lembrar que as situações de exploração pelo trabalho e as irregularidades 
trabalhistas devem também ser verificadas e notificadas ao Conselho Tutelar da região. Além 
disso, o adolescente deverá ser referido, de acordo com a complexidade da questão encontrada, 
para as seguintes instituições:
11.4 Orientações
\u2022 Ajudar no planejamento dentro e fora do horário escolar, para a inclusão de atividades 
recreativas saudáveis.
63
Ministério da Saúde
\u2022 Ensinar ao adolescente a identificar os riscos em que se envolve em suas atividades 
diárias.
\u2022 Identificar a presença de um adulto de referência positiva para o adolescente, que o 
ajude no estabelecimento de um projeto de vida.
\u2022 Promover a organização de grupos juvenis com objetivos claros, comprometidos com 
a saúde física e mental.
\u2022 Envolver a família na responsabilidade de compartilhar o tempo livre com o 
adolescente.
\u2022 Propiciar a preparação adequada para atividades que impliquem em algum risco 
(dirigir, praticar esportes radicais).
1. Centros de referência em saúde do trabalhador
Os Centros de Saúde do Trabalhador (Cerest) são instituições públicas de saúde 
responsáveis por promover a Saúde do Trabalhador no âmbito do SUS. Possuem abrangência 
estadual e regional, tendo como principais atribuições, conforme Manual da Rede Nacional de 
Atenção Integral à Saúde