saude adolecentes
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saude adolecentes


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traz pessoas parecidas com eles, com quem podem dividir seus valores, 
atitudes e comportamentos. As relações iguais e recíprocas, influenciando-se mutuamente, 
favorecem a exploração de diferentes comportamentos e, consequentemente, o desenvolvimento 
desses adolescentes.
Ressalta-se, então, a importância do campo interpessoal no desenvolvimento da 
identidade que, entretanto, não é reconhecido como tal, porque os adolescentes não recebem 
atenção diferenciada, não recebem orientação e se desenvolvem sozinhos nesse campo, ao 
contrário da preocupação que se tem com as atitudes deles frente às orientações ideológicas 
e ocupacionais. Nesse campo é importante a atenção e a orientação que a escola pode dar 
às relações interpessoais dentro da comunidade escolar, educando com valores comuns, 
universais, que considerem a dignidade humana.
Finalmente, no desenvolvimento da identidade é necessária a presença de valores 
claros que possam ser questionados \u2013 fase da exploração \u2013 e, então, aceitos ou não, o que 
gera o comprometimento \u2013 fase do compromisso. Sendo assim, os diferentes contextos de 
desenvolvimento, família, comunidade, escola, clubes e unidades de saúde podem auxiliar as 
fases da exploração e do compromisso, favorecendo a firmeza no processo de escolhas, para 
que os adolescentes adquiram competências e valores fundamentais para suas vidas.
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É um fenômeno complexo, polissêmico e multideterminado, cujos fatores predisponentes, 
agravantes e consequências extrapolam o campo da Saúde. Talvez isso explique a dificuldade 
sentida por profissionais de Saúde em encararem essa problemática, muitos dos quais adotam 
posturas de negação, minimização ou omissão.
A violência pode ser conceituada como o evento representado por ações ou omissões 
realizadas por indivíduos, grupos, classes, governos ou nações, que ocasionam danos físicos, 
emocionais, morais e/ou espirituais a si próprio ou a outros. Ela pode expressar-se sob diversas 
modalidades: agressão física; violência sexual; violências psicológica, institucional e estrutural, 
entre outras.
16.1 Reconhecendo diferenças e especificidades
Para analisar o quadro da violência no Brasil, é necessário reconhecer e lidar com 
as especificidades que se ocultam por detrás das estatísticas gerais \u2013 diferenças entre 
as faixas etárias, entre os gêneros, raça/cor, etnia, classes sociais, entre zonas urbana e 
rural, entre os bairros de uma mesma cidade, etc. Tais diferenças implicam na necessidade 
de distintas estratégias de prevenção e assistência, visando às especificidades de cada 
segmento populacional.
Em geral, as vítimas são adolescentes e jovens do sexo masculino, sendo evidenciado 
pelos elevados índices de mortalidade por causas externas deste grupo. As adolescentes do 
sexo feminino também são as maiores vítimas da violência que permanece \u201cinvisível\u201d porque é 
cometida por um conhecido \u2013 pai, padrasto, parceiro ou parente próximo \u2013, em seus próprios 
lares, por exemplo, nos casos de incesto, estupro, agressões físicas e verbais. São modalidades 
de violência que raramente evoluem a óbito, mas podem causar severos danos à saúde física 
e mental.
16Violência
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Ministério da Saúde
É importante salientar que a violência interpessoal, incluindo a violência doméstica, não 
é um fenômeno característico de alguma classe socioeconômica. Pelo contrário, a violência 
se faz presente em todas as classes, etnias, credos religiosos, posicionamentos políticos etc. 
Adolescentes e jovens das classes pobres e marginalizadas podem ser duplamente vitimizados: 
tanto por essas modalidades de violência que ocorrem em todos os segmentos sociais quanto 
pelas expressões da violência estrutural.
16.2 Violência no lar
Embora já tenha se passado 25 anos da publicação do Estatuto da Criança e do 
Adolescente, a violência doméstica contra este grupo é mantida sob o manto do silêncio e da 
omissão. A violência psicológica é a mais difícil de ser detectada, pois as feridas que provoca 
não se manifestam no corpo, mas na psiquê.
Diversos estudos demonstram a existência de um ciclo de perpetuação intergeracional: 
vítimas de violência na infância têm maiores possibilidades de tornarem-se agressores, aspecto 
que demonstra a importância de se trabalhar com esse grupo no âmbito das diversas políticas 
públicas. Por outro lado, programas para o aprimoramento da paternidade e maternidade e 
para a melhoria da qualidade de vida familiar oferecem a maior esperança na prevenção da 
violência contra e entre crianças e jovens (MCALISTER, 1998).
16.3 Violência sexual
A forma pela qual aparece a relação entre a busca de prazer, a cultura ou as convenções 
sociais depende de cada sociedade. Os valores, modelos e padrões de comportamento são 
dados, ou seja, preexiste aos sujeitos. É preciso pensar a sexualidade dentro de uma determinada 
cultura/sociedade.
Ter a noção de que as relações de poder hierárquicas estão presentes em todas as etapas 
da vida é um dado importante que se deve ter em mente para se prevenir a violência sexual, 
frequente em nosso meio. As crianças e adolescentes são mais vulneráveis às violências sexuais 
e, às vezes, se submetem porque existe medo ou relações afetivas e emocionais importantes 
com os agressores, impedindo-as de discernir as suas reais possibilidades de escolha, inclusive 
de poder dizer não. Nessa situação, as crianças e adolescentes não se sentem em condições de 
buscar ajuda, na medida em que sentimentos contraditórios estão envolvidos.
É importante que os profissionais envolvidos estejam atentos ao contexto em que 
crianças e adolescentes em situação de violência sexual estão inseridos, propiciando um 
diálogo amplo, tanto no campo individual quanto coletivo. As famílias e os adolescentes devem 
ser incentivados a procurar ajuda nos casos em que houver suspeita ou violência confirmada. 
É fundamental orientá-los sobre as diferentes fases do desenvolvimento do adolescente e 
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Proteger e cuidar da saúde de adolescentes na atenção básica
quanto a aspectos dos relacionamentos afetivos, respondendo suas dúvidas sobre sexualidade 
e encaminhando para serviços especializados quando necessário.
Nas situações de violência sexual é fundamental que adolescentes e suas famílias sejam 
orientados sobre os órgãos de proteção a serem acionados e serviços de atendimento existentes. 
Na Saúde, é importante que sejam direcionados ao serviço de referência para atenção integral 
a pessoas em situação de violência sexual, onde poderão acessar ao conjunto de procedimentos 
necessários (atendimento multiprofissional, realização de exames, profilaxias indicadas, 
acompanhamento ambulatorial, entre outros)1.
Quando da situação de violência sexual resultar gravidez, é preciso garantir à adolescente 
o acesso ao serviço de referência para interrupção de gravidez nos casos previstos em lei. A 
atenção nessas situações deverá levar em consideração o conjunto de procedimentos previsto 
nas normativas em vigor, o contexto em que a adolescente está inserida, assim como a sua 
autonomia e decisão2.
16.4 Papel da equipe de saúde
Na maioria das vezes, adolescentes não tomam a iniciativa de relatar ao profissional 
de Saúde que foi ou está sendo vítima de algum tipo de violência. Sentimentos de vergonha, 
culpa, medo e impotência mesclam-se com tentativas de \u201cesquecer o que passou\u201d, dúvidas 
sobre a possível reação do profissional e as consequências que tal denúncia poderá acarretar. 
Quase sempre a vítima recebe as mais variadas ameaças para que não delate. Nos casos de 
vitimização doméstica é comum a existência de um pacto de silêncio. Cabe ao profissional 
de Saúde uma postura acolhedora, proativa, consciente, sensível e sempre alerta frente às 
violências que podem atingir adolescentes, em articulação com as redes de proteção social, de 
garantias de direitos e outros setores. Entre as iniciativas do profissional,