A escola perdeu sua função social no Brasil forum
234 pág.

A escola perdeu sua função social no Brasil forum


DisciplinaFundamentos916 materiais3.120 seguidores
Pré-visualização49 páginas
tempo que seria destinado ao desenvolvimento de conteúdos tradicionais. Isso se 
evidencia, com mais força, na área das ciências exatas, valorizadas 
excessivamente, deixando, muitas vezes, obscura a praticidade da mesma. 
Nesse esquema, os conteúdos curriculares funcionam como 
mola mestra desse arcabouço escolar, tornando-se o objeto mais importante para o 
professor e para o aluno. 
A preocupação por parte dos professores e das coordenações 
com o cumprimento do programa é proveniente de um condicionamento arraigado 
ao sistema de ensino. Ocorre uma pressão dos pais, que, frutos de uma educação 
tradicional recebida, acabam por exigir da escola uma bagagem conteudista que 
traduzindo em quantidade e não em qualidade naquilo que é ensinado. Alguns 
professores, intimidados pela pressão do sistema, têm dificuldade de olhar de outra 
maneira para o fazer escolar e acabam por despejar matérias que, inúmeras vezes, 
não possuem um significado claro para o aluno. 
Ao observar algumas reuniões do corpo docente, evidencio o 
quanto essa prática está arraigada no ambiente da escola. Colocações a respeito do 
tempo escolar são feitas por professores nesse sentido: 
 
 
-\u201c... se eu der tempo para os alunos resolverem 
problemas deles, eu não consigo vencer o conteúdo\u201d (Profª 
Carla). 
 
-\u201c...as aulas não podem ser interrompidas se não o 
conteúdo acaba ficando de lado\u201d (Profª Silvana). 
 
-\u201c...as crianças que utilizem o recreio para pesquisar, 
fazer reuniões de grupo, ou para a distribuição de presentes de 
amigo-secreto. Isto não precisa ser feito dentro da sala de aula, 
atrapalhando o andamento do conteúdo. Tanta interrupção 
atrapalha as aulas\u201d (Profª Mara). 
 
-\u201c...os pais exigem o conteúdo, cobram da escola 
temas dos alunos. Nós temos que ter cuidado com os pais pois 
eles estão em cima\u201d (Profª Tânia). 
 
Rebatendo essa colocação, outra professora argumentou, 
isolada em seu posicionamento: 
-\u201c...não concordo totalmente com o teu ponto de 
vista. Acho que dar espaços para os alunos é importante pois 
cria laços afetivos com a professora\u201d (Profª. Marta); 
 
Freire, ao falar do caráter da escola, faz a seguinte afirmativa: 
 
\u201cÉ uma pena que o caráter socializante da escola, o 
que há de informal na experiência que se vive nela, de 
formação ou deformação, seja negligenciado. Fala-se quase 
exclusivamente do ensino dos conteúdos, ensino 
lamentavelmente quase sempre entendido como transferência 
do saber. Creio que uma das razões que explica este descaso 
em torno do que ocorre no espaço-tempo da escola, que não 
seja atividade ensinante, vem sendo uma compreensão estreita 
do que é educação e do que é aprender\u201d (Freire, 2002, p. 49). 
 
Penso que o rigor com o conteúdo, na construção do 
conhecimento, necessita ser uma das preocupações do papel da escola. Mas um 
questionamento crítico daquilo que estamos ensinando e sua aplicabilidade como 
instrumento para a leitura do real e de um agir fora dos limites da escola é 
 
significativo na prática escolar. Um certo grau de instrução precisa ser compartilhado 
para tornar qualquer processo educacional dialógico em um processo que produza 
conhecimento novo-transformador. A apropriação do conhecimento incluso no 
conteúdo formulado pelo pensamento dominante, precisa ser entendido e 
interpretado à luz de um olhar crítico. A decodificação da cultura e a sua 
problematização são essenciais para a construção de um novo pensar, capaz de 
explorar as possibilidades de apropriação crítica dos seus aspectos dominantes e de 
posse desses descobrimentos edificar valores centrados na existência humana, 
minando o exclusivismo da elite como dona do conhecimento. 
Gramsci, ao falar de um programa de preparação cultural de 
trabalhadores, refere-se a ele como sendo um processo envolvido na apropriação 
crítica do conhecimento: 
\u201cCriar outra cultura não significa apenas as próprias 
descobertas \u2018originais\u2019 de alguém. Significa também, e mais 
particularmente, a difusão de uma forma crítica de verdades já 
descobertas, a sua \u2018socialização\u2019 como se fosse, e mesmo 
fazendo-a, a base da ação vital, um elemento de coordenação 
e ordem moral e intelectual\u201d (Gramsci apud Mayo, 2004, p. 51). 
 
 
Freire também fala a respeito da crítica e argumenta que 
muitos professores dificilmente contribuem de forma deliberada e consciente para a 
constituição e a solidez da autonomia do \u2018ser\u2019 do educando, dificultando o estímulo à 
curiosidade crítica. Nesse sentido faz a seguinte colocação, referindo-se a alguns 
professores, quanto à criticidade do conteúdo: 
 
\u201cDe modo geral teimam em depositar nos alunos 
apassivados a descrição do perfil dos conteúdos, em lugar de 
desafiá-los a apreender a substantividade dos mesmos, 
enquanto objetos gnosiológicos, somente como os aprendem\u201d 
(Freire, 2002, p. 123-124). 
 
 
 
Acredito que a escola e seu papel não podem limitar-se a 
cumprir currículos estanques, sem mobilidade. A organização dos alunos, as trocas 
de amigo-secreto, preparações para gincanas, organização dos grêmios estudantis, 
ou seja, todas as iniciativas dos alunos no sentido da organização ou resolução de 
problemas necessitam ser encaradas como algo de grande potencial para que o 
espaço educativo persiga a autonomia do seu corpo discente. 
Rubem Alves faz a seguinte colocação: 
 
\u201cO conhecimento é uma árvore que cresce da vida. 
Sei que há escolas que têm boas intenções e que se esforçam 
para que isso aconteça. Mas as suas boas intenções são 
abortadas porque são obrigadas a cumprir o programa. 
Programas são entidades abstratas, prontas, fixas e com 
ordem certa. Ignoram a experiência que a criança está vivendo\u201d 
(Alves, 2003, p. 49 e 51). 
 
 
Ele argumenta ser necessário livrar-se dos jeitos de ser que se 
sedimentaram em nós e que nos levam a crer que as coisas devem ser do jeito 
como se apresentam. 
Percebo claramente, através do meu olhar, as colocações de 
Alves no cotidiano da escola. Muitos professores, e até coordenadores, mesmo 
imbuídos de boas intenções, embatem-se com o peso dos compromissos 
tradicionais impostos ao papel da escola, que é o de \u201cdar\u201d o conteúdo. Expressão 
muito comum da escola, como se o conhecimento fosse uma doação ou um 
presente de algo pronto e estanque. Não nego, com isso, a importância do 
conhecimento construído ao longo da história da humanidade como ferramenta que 
precisa ser apropriada pelos alunos para a edificação de um novo saber. Questiono 
apenas a excessiva preocupação com o repassamento dos conteúdos, 
escamoteando fazeres que são significativos na formação crítica dos sujeitos. O 
 
saber, como patrimônio histórico, necessita ser socializado com as novas gerações, 
e a escola tem um papel significativo nesse sentido. 
Freire, ao falar do papel do professor quando ensina o 
conteúdo, fala que a substantividade do mesmo não se restringe à sua fixação pelo 
aluno e argumenta: 
\u201c...papel fundamental, ao falar com clareza sobre o 
objeto, é incitar o aluno a fim de que ele, com os materiais que 
ofereço, produza a compreensão do objeto em lugar de recebê-
la, na íntegra, de mim. Ele precisa de se apropriar da 
inteligência do conteúdo para que a verdadeira relação de 
comunicação entre mim, como professor, e ele, como aluno, se 
estabeleça. É por isso, repito, que ensinar não é transferir 
conteúdo a ninguém, assim como aprender não é memorizar o 
perfil do conteúdo transferido no discurso vertical do professor. 
Ensinar e aprender têm que ver com esforço metodicamente do 
professor de desvelar a compreensão de algo e com o 
empenho igualmente crítico do aluno de ir entrando como 
sujeito em aprendizagem, no processo de desvelamento que o 
professor ou professora deve