A escola perdeu sua função social no Brasil forum
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A escola perdeu sua função social no Brasil forum


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as habilidades e as competências devem estar 
de acordo com os modelos estabelecidos, possuindo força para se impor. Caso isso 
não ocorra ou estejam em desacordo com tais modelos, são descartados. O ato 
criativo e a liberdade de expressão ficam comprometidos nesse contexto de ensino. 
Rubem Alves (2003), ao mencionar a educação realizada nas 
escolas, diz que \u201cos professores realizam o processo técnico-científico de 
 
acrescentar sobre os alunos os saberes/habilidades que, juntos, irão compor o 
objeto final\u201d. 
Ao se referir ao \u2018objeto final\u2019, ele faz uma alusão aos objetos 
produzidos nas fábricas, os quais deverão ser idênticos ao objeto original. Esses 
objetos originais na escola são os instrumentos de avaliação tradicionais onde as 
provas ainda ocupam lugar de destaque no processo avaliativo. O \u2018objeto original\u2019 se 
converte em gabarito do professor, conforme o qual todo aluno precisa preencher 
corretamente a prova. Caso isso não ocorra, o erro é encarado como algo negativo 
no processo, deixando de reconhecer a grande potencialidade do mesmo como 
diagnóstico e um dos meios para construção do verdadeiro conhecimento. Ao 
contrário, o que evidencio é que novas provas são realizadas com o pretexto de 
retomar o conteúdo e adaptar o aluno ao mesmo instrumento de avaliação, para 
verificar se ele está ou não enquadrado no \u2018nível de conhecimento\u2019 considerado 
ideal pelo professor que utiliza esses métodos de avaliação. 
Percebo isso em algumas falas de alunos e professores 
proferidas no ambiente escolar. Não obstante, o que importa no final do bimestre ou 
trimestre, para a avaliação, são as provas. Mesmo que o professor realize outros 
trabalhos, ele enfatizará o resultado da prova. 
São comuns as perguntas e as colocações dos alunos, do 
segundo ano do Ensino Médio, para os professores: 
 
\u201cQuantas provas faremos no trimestre?\u201d 
 (Questionamento de vários alunos) 
 
\u201cOs professores falam em trabalhos, porém muitas 
vezes ele os realiza, recolhe, mas não corrige e nem devolve 
para os alunos verem os resultados. O que importa para ele é a 
prova, é esta nota que conta para o boletim\u201d (Ricardo). 
 
 
\u201cOs professores nos enchem de provas. Tem dias 
que temos duas provas no mesmo dia\u201d (Pedro). 
 
\u201cOs professores falam, falam em trabalhos, mas não 
adianta nada a gente se matar e fazer um bom trabalho, o que 
importa pra ele no final do trimestre são as provas. É isto que 
importa, é pra ralar mesmo\u201d (Patrícia). 
 
Escuto de alguns professores afirmações que dão veracidade 
às colocações dos alunos acima citadas: 
 
\u201cDou prova sim, nada de trabalhinhos. É preciso que 
o aluno estude\u201d (Profª Jane). 
 
 \u201cEu preciso da prova para avaliar meu aluno. Como 
vou comprovar para os pais no caso de uma reprovação\u201d (Profª 
Sandra). 
 
\u201cFaço provas no trimestre. Caso o aluno não 
corresponda, retomo o conteúdo marcando uma nova data 
para outra prova\u201d (Profª Sandra). 
 
\u201cA prova é importante, é preciso premiar os alunos 
que se comportaram, se esforçaram e tiraram boas notas 
durante o ano\u201d (Profª Margareth). 
 
\u201cÉ preciso treinar nossos alunos para o vestibular e 
para isso as provas são importantes\u201d (Profª Marli). 
 
\u201cO vestibular está aí. É preciso que eles estejam 
preparados para enfrentar as provas do vestibular\u201d (Profª 
Berta). 
 
 
A supervalorização da prova como instrumento de avaliação 
não é uma prática apenas consciente do professor, mas uma reprodução dos velhos 
mecanismos da educação tradicional que, arraigados no sistema escolar, é difícil de 
ser desconstruído. O professor, por sofrer pressões por parte de um poder 
ideológico, acaba por insistir e continuar utilizando os antigos instrumentos de 
avaliação. 
 
Penso que as provas podem ser utilizadas como um dos 
instrumentos de avaliação, e não como o único ou o mais importante na caminhada 
escolar. Acredito que esse instrumento pode ser usado como um dos recursos 
capazes de estimular o pensamento reflexivo do aluno. O que questiono é o seu 
caráter normativo dos programas e metodologias de ensino, enquadrando os 
discentes a um único método importante de avaliação que desconsidera as 
peculiaridades subjetivas de cada um no processo ensino-aprendizagem. 
Shor, em diálogo com Freire, argumenta que muitos 
professores estão sempre preocupados em cumprir o programa e aplicar testes, e 
faz a seguinte referência àqueles que destoam do esquema: 
 
\u201cOs professores que se afastam desse procedimento 
temem ficar mal se seus alunos forem mal em testes 
padronizados ou nos cursos seguintes. Sua reputação poderia 
decair. Poderiam ser despedidos. A idéia de analisar uma 
quantidade pequena de material não-tradicional defronta com a 
preocupação com o currículo que angustia permanentemente o 
professor\u201d (Freire, Shor, 2003, p. 110). 
 
A ideologia que ali se esconde é extremamente favorável aos 
donos do capital, onde o aluno é visto como objeto de trabalho e deve ser treinado 
para corresponder a testes e ser colocado a serviço do mercado. Nesse sentido, o 
saber é quantificável como se fosse uma mercadoria. Portanto, a utilização das 
provas como método de avaliação não é uma prática ingênua e neutra do sistema 
de ensino, mas sua constante presença na avaliação do cotidiano escolar é algo que 
foi introjetado nos sujeitos e se tornou arraigado nas metodologias de ensino. 
Os testes avaliativos servem para \u2018medir\u2019 o conhecimento e 
verificar quem realmente aprendeu o que o professor ensinou. Ao afirmar que 
determinada questão na avaliação está errada, o professor estabelece as relações 
de dominação nas quais uma das partes se julga dona do saber. A avaliação 
 
classificatória vai ditando regras e rotulando os bons e maus alunos, fazendo com 
que se instalem grupos distintos de inteligentes e não inteligentes na sala de aula. 
Quando Freire fala da formação do ser humano e nos sistemas 
de avaliação pedagógicos, posiciona-se da seguinte maneira: 
 
\u201cA desconsideração total pela formação integral do 
ser humano e a sua redução a puro treino fortalecem a maneira 
autoritária de falar de cima para baixo. Nesse caso, falar a, 
que, na perspectiva democrática é um possível momento do 
falar com, nem sequer é ensaiado. A desconsideração total 
pela formação integral do ser humano, a sua redução a puro 
treino, fortalece a maneira autoritária de falar de cima para 
baixo a que falta, por isso mesmo, a intenção de sua 
democratização no falar com. Os sistemas de avaliação 
pedagógicos de alunos e de professores vêm se assumindo 
como discursos verticais, de cima para baixo, mas insistindo 
em passar por democráticos\u201d (Freire, 2002, p. 130-131). 
 
Essa forma de aprendizado, que determina modelos para o 
ensino, condiciona os sujeitos à sua aceitação através de forte pressão ideológica, 
utilizando-se de mecanismos que servem a determinados interesses dominantes, 
manifestando-se nos discursos e práticas do cotidiano da escola. 
Frente a essas problemáticas, percebo que não podemos 
deixar de fomentar um contraponto ao pensamento que inibe a criatividade. Vejo 
como necessário acreditar na força transformadora que defende as ciências 
humanas como essenciais à leitura e à interpretação crítica do mundo, para que as 
mesmas sejam um fermento capaz de fazer crescer um outro sentimento que eleve 
a valorização das diferenças no pensamento escolar. Mesmo no seio de um sistema 
que tenta sufocar um pensar na existência dos homens e mulheres, entendo como 
necessário, enquanto educador, fazer renascer as ciências que ficam nas sombras 
dos currículos. 
 
Uma escola é um espaço de conflitos, porque convivem em seu 
bojo pessoas com subjetividades diferentes, onde vidas humanas