A escola perdeu sua função social no Brasil forum
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A escola perdeu sua função social no Brasil forum


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ao conviverem se 
constroem e se educam. Nesse contexto a rigidez de conteúdos pré-programados e 
de padrões avaliativos, desconsiderando as características singulares dos sujeitos, 
nivelando todos em um único modelo, não tem sentido na medida que acaba 
engessando e inibindo o criativo da prática educativa. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
3. O PAPEL DA ESCOLA: OBSTÁCULOS PARA UMA EDUCAÇÃO 
TRANSFORMADORA 
 
3.1 Ideologia e suas manifestações veiculadas no 
 discurso da escola 
 
 
As sociedades criam diversos mecanismos para sua 
reprodução e manutenção. Esses mecanismos nem sempre são visíveis e fáceis de 
serem identificados e interpretados. Sua aparente naturalidade exteriorizada 
(roupagem) apresenta-se como algo normal no sistema de ensino, encobrindo 
construções históricas que são condicionantes da educação dos seres humanos. 
Para que isso ocorra, determinados agrupamentos humanos, ao se constituírem em 
classe dominante, procuram assegurar sua permanência, fortificando-se e 
legitimando-se a fim de garantirem sua continuidade. 
Para a manutenção das relações de poder entre as classes 
sociais, instrumentos sofisticados são utilizados como forma de persuasão, pois 
usam a ideologia. 
 
São os aparelhos ideológicos que se colocam em função da 
manutenção e reprodução das relações sociais. Dentre tantos podemos citar a 
escola, a família, as igrejas, os meios de comunicação social e as entidades 
assistenciais. Essas instituições exercem um papel essencial em proveito e 
conveniência da elite dominante. A ideologia que perpassa através desses 
aparelhos é difícil de ser identificada, pois é sofisticada em sua ação, sendo 
transmitida através da linguagem, da comunicação, dos significados, das 
representações e dos valores existentes em determinados grupos. 
Segundo Marilena Chauí (1982), \u201c... através da ideologia são 
montados um imaginário e uma lógica da identificação social com a função precisa 
de escamotear o conflito, dissimular a dominação e ocultar a presença do particular, 
enquanto particular, dando-lhe a aparência de universal\u201d. 
Marx (1984), ao explorar a categoria \u2018ideologia\u2019, argumenta que 
esse é um conceito pejorativo, ilusório e que deforma a realidade, o que favorece a 
ideologia dominante na sociedade. Sendo assim, com o auxílio dos instrumentos 
ideológicos, todas as relações se apresentam e são vistas como normais e 
inevitáveis em determinado modelo de sociedade. Há um condicionamento à 
adaptação a um sistema específico dominante que aponta uma direção ideológica 
em todos os níveis da vida social e cultural. 
Dentre essas instituições, merece destaque e será foco de 
minhas considerações o papel ideológico exercido pela escola. Ao fazer parte da 
superestrutura, ela foi criada para reproduzir e garantir as relações sociais de 
produção e é necessária ao sistema para que o capital possa se manter e expandir. 
Ao analisar a influência da instituição educacional na 
transmissão da ideologia dominante, Althusser afirma ser o aparelho educativo o 
principal instrumento ideológico do Estado, sendo o responsável pela inculcação dos 
 
valores dominantes na população. É no seu entender, justamente com a família, o 
mais eficaz, pois modela o pensamento dos indivíduos desde os primeiros anos da 
infância, quando são mais vulneráveis. Em sua obra \u2018Ideologia e Aparelhos 
Ideológicos do Estado\u2019 (1985), Althusser expõe que as reproduções das relações de 
exploração capitalista são asseguradas por meio dos aparelhos ideológicos do 
Estado, bem como através dos aparelhos repressivos, essenciais para a 
manutenção do poder da classe dominante. 
O processo educativo reproduz as relações sociais e impõe a 
visão de mundo do grupo social hegemônico. Isso ocorre porque as leis que regem o 
sistema educacional estão sob o controle do Estado, que é constituído como um 
aparato da classe dominante na defesa de seus interesses políticos e econômicos. 
Ainda que estejam presentes idéias inovadoras a respeito da 
escola e conseqüentemente da educação, no discurso e na prática, temos verificado 
que o professor tende a incutir no aluno o comportamento de um empregado 
subserviente, fazendo com que o discente incorpore a mensagem capitalista do 
\u2018bom\u2019 trabalhador, ou seja, aquele que sabe obedecer e que não cria problemas ao 
sistema. 
As teorias de aprendizagem e as práticas escolares muito 
contribuíram e contribuem como fator ideológico para a formação desses 
pensamentos, com a finalidade de adestrar, tornando homens e mulheres 
repetidoras e reprodutoras do que lhes é transmitido. São os indivíduos que 
interessam ao modo de produção capitalista, necessário ao bom desempenho de 
uma fábrica ou empresa. É aquela pessoa que desempenha suas funções com 
destreza, eficiência e rapidez, não precisando pensar reflexivamente, estabelecer 
relações de totalidade, decidir ou planejar algo novo: detentores do poder o fazem. 
Esse sistema, para sua aceitação, constrói um corpo imaginário que submete o 
 
pensamento coletivo aos valores intrínsecos do capitalismo. O próprio sistema de 
ensino sucumbe aos seus interesses mercantis. 
Perpetua nas escolas e nos bancos universitários uma visão 
individualista, que visa à competição e à ascensão pessoal. A competição muitas 
vezes se estabelece no próprio espaço escolar, fazendo com que a individualismo 
predomine na execução de funções não só dos alunos como também do próprio 
corpo docente. 
Frigotto ao abordar o individualismo, presente no sistema de 
ensino, como um dos valores ideológicos do capitalismo acrescenta que: 
\u201c...a inculcação ideológica, cuja prática ocorre nas 
escolas e através dos meios de comunicação social, espaços 
que, por excelência, a exercem. Não é por acaso que na 
concepção de ser humano a ideologia capitalista tem 
historicamente enfatizado a primeira dimensão \u2013 a 
individualidade \u2013 reduzindo-a ao individualismo\u201d (Gentili, 
Frigotto, 2002, p.19). 
 
É forte a idéia de que a \u201cescola é o caminho para o sucesso\u201d ou 
que \u201cquem estuda vence na vida\u201d. São ideologias que se manifestam nas falas e nas 
posturas de alunos, professores e diretores. 
Frente às \u2018supostas boas intenções\u2019 do capital, torna-se difícil o 
desvelamento do ideário que o capitalismo esconde através do discurso da 
\u201cascensão\u201d e do \u201csucesso\u201d, como se o sistema pudesse realmente abrigar a todos 
em seus quadros de trabalho. Como se, ao saírem da escola, todos aqueles que se 
\u201cesforçarem\u201d conseguirão emprego e só ficarão desempregados os inaptos ou os 
sem condições, culpabilizando o indivíduo pelo seu fracasso. 
Certa vez ouvi de um professor que nossos alunos, frente à 
situação atual, \u201cdeveriam ser os melhores\u201d, colocação essa extremamente 
competitiva. No momento em que estamos vivendo em uma sociedade onde falta o 
 
emprego, os poucos postos que sobrarem do trabalho tradicional serão disputados 
como se fossem campos de guerra. Estimular o individualismo e a competição nas 
escolas é dividir e fragmentar a classe que vive do trabalho, favorecendo o capital. 
A visão utilitarista está a serviço do sistema que tem ao seu 
dispor um contingente de mão-de-obra, superior ao que realmente pode absorver, 
criando uma massa de desempregados que fica à mercê dos interesses do 
capitalismo. 
Outra frase constantemente expressa no espaço escolar é: 
\u201cquem trabalha mais ganha mais\u201d. Essa afirmativa se completa com outro 
pensamento reinante, que veicula a idéia de que \u201cpobre é pobre porque tem 
preguiça de trabalhar\u201d. 
Essas afirmações, presentes nos discursos veiculados no