A escola perdeu sua função social no Brasil forum
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A escola perdeu sua função social no Brasil forum


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ambiente escolar, reforçam a idéia individualista de que o capitalismo dá as mesmas 
chances a todos e que todos, no liberalismo, têm condições de ascensão social. 
Essa idéia está presente nas falas dos alunos ao serem indagados a respeito da 
importância do saber. A grande maioria dos alunos, dos segundos e terceiros anos 
do Ensino Médio, entrevistados e observados, encaram a escolaridade e o 
conhecimento como trampolim que impulsione projetos pouco comprometidos com o 
coletivo e muito mais preocupados com o status social dos indivíduos. A maior parte 
dos entrevistados encara o diploma como um meio de \u2018subir na vida\u2019 e conquistar 
bens materiais. Uma parcela ínfima, dos que abordaram o assunto, mencionou 
preocupação com o coletivo da sociedade. 
Ao indagar os alunos sobre a importância do conhecimento, 
eles respondem: 
 
\u201cAumentar meu conhecimento pra tudo em minha 
vida, meu presente e meu futuro\u201d (Marta). 
 
 
\u201cEu acredito que a escola deve proporcionar ao 
jovem o estudo a fim de formar o conhecimento de mundo e 
prepará-lo para o estudo de um curso superior, no qual as 
bases, com certeza, residem na escola e escolher bem sua 
profissão\u201d (Maurício). 
 
\u201cO conhecimento é para ter minha profissão, 
melhorando meu futuro, para que não dependa de meus pais\u201d 
(Juliano). 
 
\u201cO ensino é importante para nos virar melhor fora 
daqui (escola), quando começarmos a trabalhar. Dá dicas e nos 
alerta para o mundo lá fora \u201c(Marta). 
 
\u201cEu acredito que não precisamos ter um ensino 
somente por inteligência ou conhecimento, mas principalmente 
para podermos conseguir um bom emprego\u201d (Luciana). 
 
Shor, em diálogo com Freire, fala a respeito das raízes do 
individualismo e argumenta que: 
 
\u201c...temos uma devoção utópica por nos realizar 
sozinhos, por nos aperfeiçoar sozinhos, por subir na vida, subir 
através do nosso próprio esforço, ficar ricos através do esforço 
pessoal. Esta é uma cultura que adora os homens e as 
mulheres que se fazem por si mesmos\u201d (Freire, Shor, 2003, p. 
136). 
 
 
A incapacidade de ascender recai no próprio indivíduo, 
atribuindo a ele as causas da \u2018derrota\u2019. Esse pensamento é importante para a 
afirmação do sistema que cria no imaginário social a idéia da igualdade de 
oportunidades e planta a competição já no seio da própria educação. 
Essas idéias se evidenciam nas falas de alunos expressas no 
segundo ano do Ensino Médio: 
\u201cNa minha opinião o pobre pode crescer, mas não se 
compromete em conseguir um emprego. Ele se acomoda 
achando que nasceu pobre e vai continuar pobre\u201d (Fernando). 
 
\u201cHoje em dia as oportunidades para os estudantes 
aumentaram, não sei se é porque eu nunca tinha procurado, 
 
mas sei que quem quer, consegue. Um estágio não é difícil de 
conseguir e o horário se adequa com o da escola. A única 
coisa é que precisa tirar notas boas e não rodar que você terá 
um lugar para trabalhar. Não acho necessário largar a escola 
para ajudar a família. É clara que acho que a situação do pobre 
brasileiro não é fácil, mas com vontade ele vai conseguir\u201d 
(Maurício). 
 
\u201cAcho que o pobre não melhora de vida porque não 
quer. Todos têm acesso a uma biblioteca pública e ninguém 
usa a internet ou aluga livros. No mundo de hoje não é rico 
quem não quer\u201d (Juliane). 
 
\u201cNa sociedade que está aí, existem muitas 
oportunidades. É preciso se esforçar para ser alguém na vida\u201d 
(Julia). 
 
\u201cPobre é pobre porque não estudou, não teve um 
bom trabalho\u201d (Juliano). 
 
\u201cAs pessoas tem que ter força de vontade para 
melhorar. Se elas não aproveitarem as oportunidades fica 
difícil mudar a situação\u201d (Marina). 
 
 
As falas dos alunos demonstram o quanto perdura a idéia de 
que o indivíduo é o culpado, primeiro pelo próprio fracasso escolar e depois pelo 
fracasso no mercado de trabalho. Sobre ele recai todo o estigma de incompetência 
pela não aquisição dos meios para uma ascensão social. 
Marise Ramos argumenta o quanto é ocultada a essência do 
desemprego, da diferenciação entre as pessoas e os reais fatores que levam à 
exclusão social, afirmando que: 
 
\u201cEnquanto o problema do desemprego é um 
problema social concreto, determinado pelo conjunto de 
mudanças econômico-políticas que ocorrem a partir da 
segunda metade deste século, deslocam-se as possibilidades 
de sua superação ao aumento da escolarização e da 
qualificação ou, mais especialmente, à aquisição permanente e 
renovável de competências verificáveis na ação de trabalho. As 
competências adquirem um valor não referente à sua própria 
natureza, mas conferido pelas relações sociais dominantes, 
 
que assim buscam ocultar a essência do fenômeno do 
desemprego, da diferenciação e da exclusão social\u201d (Ramos, 
2002, p. 218-219). 
 
Nesse sentido, a ideologia veiculada corresponde ao 
desenvolvimento de competências individuais; é o caminho que possibilita a 
\u2018inclusão social\u2019, levando a uma adaptação \u2018natural\u2019 ao sistema. 
Shor argumenta que o individualismo não caiu do céu e 
acrescenta: 
\u201cO individualismo é um mito espalhafatoso do 
capitalismo que precisa de uma política de \u2018dividir para 
conquistar\u2019 contra a solidariedade das pessoas comuns que ele 
procura organizar numa cultura comercial e conformista, 
contradizendo o próprio individualismo que ele propõe\u201d (Freire, 
Shor, 2003, p. 137). 
 
Essas formas de pensar, construídas pelo ideário capitalista, 
acabam por inocentar o sistema, transformando a escola em uma fábrica que acaba 
também rotulando alunos como produtos que determinam \u2018selos de qualidade\u2019 para 
os capazes e para os não capazes, os que se enquadram nas escolas particulares e 
os que se enquadram nas públicas, os que podem ascender por suas próprias 
qualidades e competências e os que permanecerão à margem da sociedade 
tecnológica, fruto de sua própria incapacidade pessoal de progredir na vida. 
Sob esse prisma, a escola é um espaço que submete o aluno a 
uma aprendizagem padronizante, segregadora, mecânica e reprodutora, com 
alarmantes índices de reprovação e evasão, principalmente nos setores mais pobres 
da população escolar. São os alunos de baixo poder aquisitivo que apresentam 
dificuldades para se enquadrar em um padrão de ensino sem sintonia com a sua 
realidade. Esse contingente, muitas vezes expulso dos bancos escolares, 
geralmente é formado por filhos de trabalhadores, justamente os que mais precisam 
da escola. 
 
É comum buscar-se justificativas para o fracasso escolar, 
alegando tratar-se de alunos-problema, justificando que não têm condições e que 
são fracos, incapazes de aprender. A própria escola acaba adotando uma postura 
de negligencia e desinteresse por esses discentes, reprovando-os no ano letivo. 
Justamente aqueles jovens que precisavam de atenção e dedicação por parte do 
sistema de ensino. 
Freire (2002) chama a atenção dos educadores progressistas 
que \u201cé importante ter sempre claro que faz parte do poder ideológico dominante a 
inculcação, nos dominados, da responsabilidade por sua situação\u201d. 
Os alunos que resistem e permanecem na escola acabam 
fazendo a aprendizagem da submissão, diante de um conhecimento que lhes é 
passado de forma absoluta e inquestionável, submetendo-o a um verdadeiro 
processo de inoculação ideológica, comprometendo sua formação integral. Essas 
pessoas carregam, em suas histórias de vida, o sentimento do fracasso, culpando-se 
por não ter tido sucesso que possibilitaria \u2018subir na vida\u2019. 
Nesse sentido aparece como justo o fato de que determinado 
indivíduo não ascendeu socialmente porque ele não quis estudar e naturalmente sua 
condição é a de pobreza. Sendo assim, os próprios homens e mulheres que não 
tiveram acesso aos bancos escolares, ao se verem subestimados em suas