A escola perdeu sua função social no Brasil forum
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A escola perdeu sua função social no Brasil forum


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capacidades e potencialidades, se convertem à ideologia dominante, no qual a 
vítima, fruto do sistema, se transforma em réu e acaba construindo uma imagem, de 
sua classe e de si mesmo, bastante negativa. É difícil, nesse contexto, perceber que 
a desigualdade social é uma criação humana, fruto das condições injustas que foram 
se estabelecendo ao longo da história, marcada pela luta de classes. 
Ao falar sobre fracasso e o insucesso na vida, Freire afirma 
que: 
 
\u201cPessoas fazem parte das legiões de ofendidos que 
não percebem a razão de ser de sua dor na perversidade do 
sistema social, econômico e político em que vivem, mas na sua 
incompetência. Enquanto sentirem assim, pensarem assim e 
agirem assim, reforçam o poder do sistema. Se tornam 
coniventes com a ordem desumanizante\u201d (Freire, 2002, p.93). 
 
Os idealizadores do sistema dominante desconsideram 
características de classes ao impor sua ideologia. É a criança pobre que sofre as 
conseqüências de um ensino que não leva em conta os problemas oriundos de sua 
classe social. 
Frente a isso, temos uma escola que prega a retórica da 
homogeneidade, e seu ensino é direcionado para aqueles que \u201csabem aprender\u201d. 
Encoberta por um discurso de igualdade, esse tipo de instituição desenvolve uma 
cultura seletiva, que segrega, tornando-se um instrumento de reprodução e exclusão 
social, onde o pobre, o negro e o índio, ou seja, o diferente dos padrões impostos 
pela elite continuará à margem do sistema. Esforça-se para parecer uma instituição 
neutra em suas atividades práticas, continuando presa a métodos de ensino que 
favorecem a fragmentação da consciência e a alienação. Isso leva a um ensino 
descontextualizado, de conhecimento picoteado, dilacerado e a-histórico. 
Frigotto afirma que a dimensão social da produção da vida 
humana, traduzida em individualidade social e natureza humana social, tende a ser 
escamoteada e acrescenta que: 
\u201cCom isso transforma-se a compreensão da 
desigualdade existente na realidade social, que é fruto de 
relações de poder e de classe no modo de produção capitalista, 
resultado de meras opções e/ou esforço pessoal e individual. 
Neste sentido, passa-se a falsa idéia de que se alguém 
acumula bens e é rico, o é por mérito individual, pelo seu 
trabalho e esforço; ou se é pobre, é por falta de dedicação e 
esforço. A denominada teoria do capital humano e, mais 
recentemente, da qualidade total das competências e da 
empregabilidade constitui-se, por excelência, no credo 
 
ideológico que afirma a visão individualista e falseadora da 
efetiva realidade\u201d (Gentili, Frigotto, 2002, p.19-20). 
 
O próprio discurso do ensino por competências, tanto 
apregoado no espaço da escola, demonstra o quanto as idéias capitalistas, 
encobertas por um discurso camuflado da qualidade do ensino, penetram no 
cotidiano da escola. O discurso por competências é individualista e competitivo na 
medida em que introjeta a idéia do \u2018sucesso pessoal\u2019 como alavanca para a 
ascensão na sociedade. 
Frigotto, ao prefaciar o livro de Marise Ramos \u2018A Pedagogia 
das Competências\u2019, afirma que o ensino, ao eleger como perspectiva a pedagogia 
das competências para empregabilidade, assume o ideário particularista, 
individualista e imediatista do mercado e dos empresários. A própria Marise 
argumenta que: 
 
\u201cNo plano pedagógico testemunha-se a organização 
e a legitimação da passagem de um ensino centrado em 
saberes disciplinares a um ensino definido pela produção de 
competências verificáveis em situações e tarefas específicas. 
Essas competências devem ser definidas com referências às 
situações que os alunos deverão ser capazes de compreender 
e dominar. Em síntese, em vez de se partir de um corpo de 
conteúdos disciplinares existentes, com base no qual se 
efetuam escolhas para cobrir os conhecimentos considerados 
mais importantes, parte-se das situações concretas, 
recorrendo-se às disciplinas na medida das necessidades 
requeridas por essas situações\u201d (Ramos, 2002, p. 221). 
 
 
Certa vez, li cartazes em uma das escolas particulares com a 
seguinte frase: \u201cO estudo por competências é essencial para o sucesso\u201d. Os 
mesmos cartazes, ao posicionarem-se sobre avaliação e sobre o ensino, faziam as 
seguintes referências: \u201cA finalidade, tanto do ensino como da avaliação da 
 
aprendizagem, é criar condições para o desenvolvimento de competências do 
aluno\u201d,...\u201dAvaliar por competências é avaliar com eficiência e eficácia\u201d,...\u201dA avaliação 
é eficiente quando o objetivo proposto é relevante e o processo para alcançá-lo é 
racional, econômico e útil\u201d. 
O próprio vocabulário utilizado como referência às 
competências denuncia o campo teórico do capitalismo e seus valores. Sucesso, 
eficiência, eficácia, racional, econômico são termos tipicamente da cartilha 
capitalista. Frente a isso, ocorre todo um condicionamento que vai induzindo o 
pensamento coletivo à aceitação dos seus símbolos, imagens e também de seu 
ideário teórico. 
Ramos argumenta que a valorização da dimensão experimental 
da qualificação pela noção de competência processa-se às custas do 
enfraquecimento das dimensões conceitual e social. A autora afirma que: 
 
\u201cA validade do conhecimento assim compreendido é 
julgada, portanto, por sua viabilidade ou por sua utilidade. 
Predomina, então, uma conotação utilitária e pragmática do 
conhecimento. Sua viabilidade e utilidade, muito além de serem 
consideradas históricas, são tidas como contingentes. Ou seja, 
não existe qualquer critério de objetividade, de totalidade ou de 
universalidade para se julgar se um conhecimento, ou um 
modelo representacional é válido, viável ou útil\u201d (Ramos, 2002, 
p. 292-293). 
 
A pedagogia das competências visa projetos pessoais e seu 
comprometimento é com o conhecimento específico, compartimentado. Não há um 
compromisso do \u2018saber\u2019 com o coletivo, na medida em que escamoteia do seu corpo 
teórico a noção de educação como alavanca para a integração de forças 
transformadoras. 
 
Ao conversar com o professor Frei Betto, no Seminário de 
Educação da Associação de Educação Católica que ocorreu no mês de julho/2004, 
em Nata/RN, indaguei-lhe a respeito do ensino por competências tão em voga no 
discurso escolar. Esse intelectual respondeu que com esta prática \u2018estamos 
formando capitalistas\u2019 
A mesma pergunta direcionei a Gaudêncio Frigotto no Fórum 
Mundial de Educação ocorrido em Porto Alegre em julho de 2004. A resposta desse 
pensador não destoou da referida por Frei Betto, afirmando que \u2018as escolas que 
professam esse discurso estão incentivando a educação capitalista, negando o seu 
\u2018projeto original\u2019 fundamentado na transformação.\u2019 
O vocabulário capitalista vai penetrando sutilmente na retórica 
proferida no seio da educação escolar, muitas vezes, sem o corpo docente dar-se 
conta do poder ideológico embutido no discurso que produz, induzido pelo modelo 
cuja essência é alimentada pelo desconhecer dos professores que não possuem 
base teórica para decodificar suas mensagens. 
O sistema capitalista, através de seus recursos ideológicos, 
convence de que é o trabalhador que precisa do emprego para satisfazer suas 
necessidades básicas de sobrevivência, quando, na verdade, é esse modelo que 
precisa de mão-de-obra disponível para lucrar e continuar se impondo no mundo, 
com as constantes crises que ele próprio produz. 
As crises que o capitalismo fabrica dão a ele mecanismos que 
possibilitam uma mutação e um mascaramento da própria situação que gerou a crise 
em um determinado contexto histórico. Isso faz com que esse sistema, ao renovar-
se com as situações problemáticas que cria, recicle seus instrumentos de 
dominação, condicionando diferentes meios para aceitação,