A escola perdeu sua função social no Brasil forum
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A escola perdeu sua função social no Brasil forum


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manutenção e 
reprodução do modelo. Rapidamente, ao se mascarar para a continuidade de sua 
 
dominação, ele incorpora termos que acabam por fazer parte de um modismo que 
penetra na pedagogia da escola. 
É interessante perceber como o capitalismo, através de suas 
artimanhas, adapta-se aos \u2018novos paradigmas\u2019 educacionais, posicionando-se como 
se fosse algo inovador no campo da educação. Trata-se de uma roupagem que 
encobre as verdadeiras intenções, no sentido de continuar sucumbindo o sistema 
escolar aos seus interesses. Com aparência do novo, esconde-se o velho interesse 
mercantil que assombra o campo da educação. 
Ao ler uma revista, do ano de 2003, de uma escola católica 
paulista que falava do seu projeto educativo, pude evidenciar as mensagens do 
modelo veiculadas em seu texto: 
 
\u201cProjeto político pedagógico, instrumento que, 
inspirado no carisma da congregação, busca o compromisso e 
o empenho de toda a comunidade educativa com o próprio 
crescimento e o crescimento comum, sendo o projeto fruto do 
diálogo e da reflexão coletiva permanente\u201d. 
 
Na página seguinte da mesma revista, encontrei a seguinte 
colocação: 
\u201cO bem capital mais importante que uma empresa 
possui são as idéias. E como encontramos este tesouro? Este 
tesouro é encontrado nas pessoas, pois elas fazem a 
diferença\u201d. 
 
O discurso libertador é mesclado com um discurso liberal. Ao 
se postar como empresa, a escola alinha-se perfeitamente à noção capitalista, 
enquadrando seus alunos como clientes. As idéias de uma empresa são marcadas 
por valores que estão centrados no mercado. Tais idéias, ao serem comparadas 
com o corpo imaginário da escola, demonstram o quanto ocorre a penetração da 
 
mentalidade capitalista no seio da escola que apregoa o compromisso com a 
libertação dos oprimidos. 
Penso que tais atitudes entre o discurso libertador e a prática 
colonizadora se constituem num verdadeiro escândalo a uma proposta realmente 
unificadora para a educação humana integral. O próprio discurso por competências 
se esvazia ao falar do sucesso, na medida em que não abarca situações concretas 
nas quais fazem parte famílias e crianças empobrecidas. Como perseguir uma 
educação humana integral e educar ao mesmo tempo por competências 
específicas? 
Encontro em Arroyo uma análise adequada acerca dos efeitos 
às gerações futuras, dessa prática colonialista do sistema escolar brasileiro. 
 
 \u201cO discurso das elites promete à infância popular 
que a escolarização lhes trará inexoravelmente o progresso, o 
emprego, uma vida melhor, etc. Entretanto, apenas voltando 
seu olhar infantil e juvenil para seu entorno familiar e social, 
perceberão que seu(s) irmão(ãs) e primo(as) que, com tanto 
sacrifício chegaram a uma formatura, não progrediram tanto 
quanto a escola lhes prometia. Estão no subemprego, na 
sobrevivência a qualquer custo, ainda que escolarizados\u201d 
(Arroyo, 2000, p. 239). 
 
 
Nas palavras de Arroyo, a escola constitui-se num instrumento 
de despersonalização e desumanização do indivíduo e, mesmo assim, faz parte do 
seu discurso repetitivo, a ideologia do progresso e do futuro promissor. 
Esse tipo de instituição, que se apropria do conhecimento, 
entitulando-se dona do mesmo, não leva em conta a totalidade e o pleno 
desenvolvimento humano em todas as suas dimensões. A ideologia arcaica não 
considera questões imprescindíveis como quem são nossas crianças e nossos 
 
jovens e quais são suas possibilidades e seus horizontes, nem com que tempo de 
vida estamos lidando e em que contexto. 
Marilena Chauí afirma que: 
 
 \u201cÉ no campo da ideologia que os sujeitos sociais e 
políticos explicam a origem da sociedade e do poder político; 
explicam as formas de suas relações sociais, econômicas e 
políticas; explicam as formas \u2018corretas\u2019 ou \u2018verdadeiras\u2019 de 
conhecimento e de ação; justificam, através de idéias gerais, as 
formas reais da desigualdade, dos conflitos, da exploração e da 
dominação como sendo, ao mesmo tempo, \u2018naturais\u2019 e \u2018justas 
ou injustas\u2019 \u201d (Chauí, 1982, p.19, 22). 
 
Sendo assim, é no campo ideológico, no campo imaginário, 
que tais situações da realidade passam a ser explicadas e justificadas conforme os 
interesses da elite, na qual o aspecto exterior superficial oculta os mecanismos que 
produzem as desigualdades e ao mesmo tempo conservam a sociedade. 
O discurso ideológico, ao explicar o real, constrói um conjunto 
de normas aparentemente coerentes para orientar a prática. Ele é feito de lacunas, 
de espaços em branco, e se mantém pelo vazio que cria, impossibilitando um 
entendimento crítico dos fenômenos, condicionando a leitura dos fatos apenas à 
aparência. Chauí afirma que \u201cporque não diz tudo, e não pode dizer tudo, que o 
discurso ideológico é coerente e poderoso\u201d. Esse conjunto ordenado de idéias oculta 
o fato de que tudo é transitório, isto é, histórico, e que existe o negativo, no qual tudo 
o que existe é precário, desmistificando a idéia absolutizada, que apregoa a 
impossibilidade da mudança. 
Para Chaui, \u201co discurso ideológico se sustenta justamente 
porque não pode dizer até o fim aquilo que pretende dizer\u201d. Contudo, ao preencher 
as lacunas que produz, corre o risco de autodestruir-se como discurso ideológico. 
Olhando a educação através de um enfoque crítico, numa outra 
cosmovisão, que preencha os espaços vazios criados para camuflar o modelo, 
 
podemos perceber que o sistema capitalista, por se basear na exploração da grande 
maioria por um pequeno grupo e por fazer do dinheiro a mola propulsora do seu 
funcionamento, exclui a população pobre dos benefícios da educação. 
Percebe-se, portanto, um desenvolvimento seletivo, no qual se 
beneficia a classe mais favorecida. A educação, que deveria ser um direito de todos, 
transforma-se em privilégio de poucos. A classe pobre se vê relegada no sistema de 
ensino. Frente a isso, o discurso comum veiculado nos bancos escolares, de que \u201cas 
pessoas pobres é que não se esforçam\u201d ou que \u201csó aqueles que se esforçaram 
enriquecem\u201d, não é verdadeiro. A análise da essência do capitalismo mostra que a 
verdade não é essa. Chegar à universidade é coisa incomum às camadas pobres. É 
pequena a possibilidade de um filho de operário cursar uma faculdade. A educação 
formal no Brasil exclui aqueles que não têm condições financeiras e perfil adequado 
ao sistema de ensino imposto. 
As próprias relações que se estabelecem no meio escolar e os 
termos designados para se referir às pessoas pobres carregam uma carga de 
ideologia. Analisando discursos proferidos se evidenciam maneiras de explicar que 
escondem a essência dos fatos. Termos como \u201cexclusão\u201d e \u201ccarentes\u201d são 
constantemente usados para indicar aqueles que estão à margem do sistema e que 
assim se encontram por não terem conseguido se incluir. Isso sugere uma auto-
exclusão dos bens materiais e das condições criadas pelo sistema, apresentando os 
problemas decorrentes da estrutura social como problemas de caráter individual. O 
que ocorre, visto através de uma perspectiva crítica, são relações de expropriação 
nas quais os indivíduos são espoliados dos bens necessários à vida, ocultando as 
causas profundas daquilo que lhes é evidenciado como verdadeiro. 
 
Silva, ao falar das desigualdades e das injustiças da estrutura 
existente de poder, afirma que as mesmas são reproduzidas cotidianamente em 
nossas salas de aula e acrescenta que: 
 
\u201cQuando as identidades pessoais e sociais de 
nossos/as estudantes são forjadas diariamente no interior de 
relações assimétricas de poder, um discurso que tende a 
obscurecer precisamente a existência dessas relações só vai 
tornar mais provável que estas relações sejam reforçadas e 
reproduzidas.