A escola perdeu sua função social no Brasil forum
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A escola perdeu sua função social no Brasil forum


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Quando questões de igualdade/desigualdade e 
justiça/injustiça se traduzem em questões de qualidade/falta de 
qualidade quem sofre não são aqueles que já tem suficiente 
qualidade, mas precisamente aqueles que não a tem e que 
vêem em reduzidas suas chances de obtê-la, pelo predomínio 
de um discurso que tende a obscurecer o fato de que a sua 
falta de qualidade se deve ao excesso de qualidade de outros\u201d 
(Gentili, Silva, 2002, p. 23). 
 
A professora Gislaine e o professor Taurio fazem as seguintes 
colocações ao se referirem à escola e sua relação com a sociedade atual: 
\u201cA escola como instituição integrante da sociedade, 
tem um papel de produção do conhecimento, de transmissão 
de saberes e informações e também na formação do sujeito 
consciente, capaz de reconhecer, refletir e mudar o seu meio\u201d 
(Gislaine). 
 
\u201cA escola é uma instituição da sociedade. Em geral 
seu papel consiste em construir um imaginário coletivo 
coerente com os fins e objetivos desta sociedade\u201d (Taurio). 
 
 
Realmente, a escola é uma instituição integrante da sociedade, 
e como tal, acaba por reproduzir o pensamento dominante. Reconhecer isso é 
importante se quisermos transformar a escola em um espaço de embates de 
ideologias em busca da superação das situações de opressão. A própria 
transmissão de saberes e informações carregam em suas essências ideologias que 
dificultam a leitura crítica do real, impossibilitando um refletir que auxilie a mudança 
 
do meio social, onde a escola, enquanto instituição, é inerente ao modelo que a 
condiciona. 
Freire (2003) argumenta que \u201ca reprodução da ideologia 
dominante depende de seu poder de obscurecer a realidade\u201d. 
O desvelamento e o entendimento da realidade não é tarefa 
fácil diante do contexto em que a escola está inserida. Os mecanismos que dão 
sustentação à educação tradicional negam o novo discurso, emperrando mudanças 
que sejam transformadoras. A esfera ideológica é um poderoso instrumento de 
manutenção dos arcaicos padrões educacionais que dela se utilizam, com o intuito 
de reproduzir as relações de domínio que interessam a determinados grupos na 
preservação de seus interesses. 
O professor de pedagogia social Pedrinho Guareschi afirma: 
 
\u201cA escola seria aquela instituição superestrutural, na 
maioria das vezes imposta, obrigatória e controlada pelos que 
detêm o poder. Quando essa escola não executa a política e 
os interesses do grupo no poder, ela é censurada, mudada, 
reformada e até mesmo fechada. Escola seria, pois, o aparelho 
ideológico do capital\u201d ( Guareschi, 1999, p. 98-99). 
 
Sob esse prisma, a instituição escolar aparece como um lugar 
de reprodução e consolidação do poder, conduzindo a interpretação da realidade de 
forma ideologizada e fetichizada, impedindo que se estabeleçam relações de 
totalidade. Isso reforça a visão fatalista, como se os fenômenos existissem 
espontaneamente e guiados pelo destino. A pobreza e a miséria aparecem como 
fruto natural da existência humana e não como construção histórica. Essa visão é 
mantida pelos livros didáticos na medida em que negam as lutas do povo. 
Acredito ser preciso reconhecer que as relações na sociedade 
e, portanto, no próprio sistema de ensino reproduzem os valores estabelecidos e 
 
consagrados pela classe proprietária dos meios de produção, entendendo que os 
mesmos não são verdadeiros e inquestionáveis. 
É importante ter presente que na escola nem tudo é 
reprodução. Severino afirma que a função reprodutiva da educação não esgota sua 
significação total e argumenta que: 
 
\u201c...a educação, contraditoriamente, é também força 
de transformação objetiva das relações sociais, ou seja, a força 
da educação não tem sentido unívoco enquanto por instância 
de reprodução. Ao contrário, os processos educacionais no seu 
conjunto e no seu interior geram e desenvolvem também forças 
contraditórias, que comprometem o fatalismo da reprodução, 
quer ideológica, quer social, atuando simultaneamente no 
sentido da transformação da realidade social\u201d (Severino, 1986, 
p. 51). 
 
Por mais impregnada de ideologias que ela esteja, é possível 
construir em seu bojo um pensamento que seja capaz de desacomodar o ideário 
dominante. 
Em sua obra, Lenin afirma que \u201ca ideologia como qualquer 
concepção da realidade social ou política está vinculada aos interesses de certas 
classes sociais\u201d. Assim, penso que é possível construir uma ideologia articulada com 
os anseios da classe menos favorecida que se contraponha aos interesses 
dominantes. 
Freire, ao falar da tarefa de desmistificar a ideologia, 
acrescenta que essa não pode ser cumprida pelos que apóiam o sistema, 
argumentando que: 
 
\u201cNão pode ser cumprida por aqueles que concordam 
com o sistema. Esta é a tarefa dos educadores favoráveis a um 
processo libertador...Quem acredita na mudança da realidade, 
tem que realizar a transformação\u201d (Freire, Shor, 2003, p. 200). 
 
 
É importante que o educador-transformador reconheça o 
espaço em que está inserido e que tenha a compreensão do mundo, identificando a 
ideologia que permeia o corpo escolar. Isso, conforme Freire (2003), seria o mapa 
ideológico da instituição. Esse autor argumenta que é preciso \u2018saber com quem pode 
contar e contra quem tem que lutar\u2019. 
 
Gramsci, em sua obra, referindo-se a escola italiana afirma: 
\u201cNas escolas elementares, dois elementos 
participavam na educação e na formação das crianças: as 
primeiras noções de ciências naturais e as noções dos direitos 
e deveres dos cidadãos. As noções científicas deveriam servir 
para introduzir o menino na societas rerum, ao passo que os 
direitos e deveres para introduzi-lo na vida estatal e na 
sociedade civil. As noções científicas entravam em luta com a 
concepção mágica do mundo e da natureza, que a criança 
absorve do ambiente impregnado de folclore, do mesmo modo 
como as noções de direitos e deveres entram em luta com as 
tendências à barbárie individualista e localista que é também 
um aspecto do folclore\u201d (Gramsci apud Mochcovitch, 2001, p. 
129). 
 
No trecho citado, Gramsci faz uma análise sobre o papel da 
escola no sentido da elevação das massas, do senso comum à consciência 
filosófica, superando uma visão de mundo fantasiosa. Para esse pensador, o senso 
comum, que mesmo no cérebro de um indivíduo é fragmentário, incoerente e 
inconseqüente, mas que, destituídos de seus elementos contraditórios, pode se 
transformar em uma visão sistemática e coerente, constituindo-se em um bom 
senso, núcleo sadio do senso comum. 
Essa análise, referindo-se à elevação cultural das crianças e 
dos jovens, feita no tempo histórico de Gramsci, serve perfeitamente para a 
sociedade atual e para a realidade social na qual a escola hoje faz parte. 
 
Ao analisar as forças produtivas capitalistas, o professor-
transformador introduz no âmbito escolar um instrumento possível de alavancar um 
pensamento que, entendendo as artimanhas do sistema e desnudando seu 
funcionamento, possa servir para que, através de um olhar crítico, se fomente um 
ideário formador de gerações e lideranças capazes de prepararem os pilares para a 
edificação de uma sociedade diferente. 
Michel Löwy, ao tentar construir um instrumento conceitual que 
dê conta da categoria \u2018ideologia\u2019, afirma: 
 
\u201c...esses conjuntos orgânicos de representações, 
valores e idéias, que eu chamo de visões sociais de mundo, 
podem ser de tipo conservador, ou legitimador da ordem 
existente, ou de tipo crítico, subversivo, que proponha uma 
alternativa, ao qual eu chamo de utopia. Esta é uma proposta 
operacional de tentar entender como e que funcionam estes 
conjuntos de idéias e qual as suas relações, em última análise, 
com a posição das classes sociais\u201d (Löwy, 1998.