A escola perdeu sua função social no Brasil forum
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A escola perdeu sua função social no Brasil forum


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Acredito que a missão da escola libertadora é propiciar ao seu 
corpo discente uma visão de mundo que o ajude a entender as relações sociais, 
políticas e culturais da sociedade. Para tanto, a historicidade é significativa no 
sentido de entender a evolução das práticas dominantes que se articulam ao longo 
dos tempos para se manterem no poder. 
A decodificação e o entendimento dessas práticas são 
elementos essenciais para tornar a escola um dos campos de luta contra os valores 
ideológicos nocivos do capitalismo, minando, também, através da educação, suas 
bases de sustentação. Uma educação verdadeiramente libertadora só é possível se 
a escola abrir espaço para o diálogo crítico, aceitando o conflito que instiga o 
embate de ideologias. 
 
Quando a escola incorpora esse desafio, sem medo de se 
expor, ela está dando passos importantes e significativos para o engajamento na 
luta pela superação do sistema que só faz agravar as diferenças no mundo. Ao fazer 
brotar a reflexão, é possível reconhecer os ideais destrutivos do capitalismo 
embutidos no sistema escolar, minando o ideário do modelo no próprio campo 
reprodutivo. Assim, a educação libertadora se relaciona com a transformação política 
na sociedade como um todo, incentivando os alunos a se assumirem como sujeitos 
com potencialidades criativas e capazes de incorporar o pensamento crítico à vida 
cotidiana, tomando para si o desafio no engajamento pela mudança. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
3.2 Escola, mercado e suas relações na esfera do 
 trabalho humano 
 
 
 
O neoliberalismo constitui, hoje, uma referência política e 
econômica que orienta, através do seu receituário, as ações e as decisões que são 
tomadas por governantes em grande parte dos países. O peso dessa referência 
recai principalmente nos países cujas políticas são vulneráveis e suscetíveis às 
crises que esse modelo produz. 
O capitalismo neoliberal guia suas propostas no sentido de 
organizar as sociedades em função do mercado e dos objetivos empresariais e 
privados. Na ordenação da vida social e política, esse sistema, em suas diferentes 
configurações, vai definindo novos conceitos e noções que passam a permear não 
só o campo privado, como também contaminando o público. Daí o significado da 
privatização do público com veiculação da mensagem da \u2018eficiência do serviço\u2019. 
Uma dessas noções é a que prega a \u2018qualidade total\u2019, com a 
roupagem de se tratar de uma idéia neutra e inocente e até mesmo admitidamente 
 
atraente, na qual ninguém pode se opor sob pena de ser considerado \u201catrasado\u201d e 
contrário ao progresso. A essa idéia de qualidade está relacionada toda uma 
concepção política e social permissiva do neoliberalismo. 
Assim, valores essenciais para a valorização da vida, tais como 
solidariedade, justiça, igualdade, vão deixando de ocupar o centro das discussões 
nas diferentes esferas da sociedade para cederem lugar aos debates, nas 
instituições públicas e privadas, em torno das noções de produtividade, eficiência e 
qualidade como sinônimos de modernidade. Isso produz um corpo imaginário, no 
qual torna-se difícil pensar fora da visão do capital, enquadrando uma gama de 
aspectos da vida humana na lógica viciada desse modo de produção. 
Essa proposta tem como meta conquistar a escola e o apoio 
popular, para que os mesmos lhes dêem base de sustentação, dificultando um olhar 
que possibilite compreender os mecanismos envolvidos no modo de produção 
capitalista. Frente a esse contexto, é um obstáculo desocultar a realidade que o 
discurso neoliberal fabrica, tornando difícil um pensar que fuja dos ditames do 
mercado e do lucro. 
Frigotto, ao falar dos processos educacionais enquanto 
práticas sociais, argumenta que: 
 
\u201c...os processos educacionais, escolares ou não, 
constituem-se em práticas sociais mediadoras e formadoras da 
sociedade em que vivemos. São práticas sociais não neutras. 
Estes processos podem \u2013 e o tem realizado de forma 
imperativa \u2013 reforçar as relações sociais capitalistas que 
subordinam o trabalho, os bens da natureza, a ciência e a 
tecnologia como propriedade privada, valores de troca e a 
conseqüente alienação e exclusão de milhões de seres 
humanos da vida digna ou de sua radical transformação\u201d 
(Gentili, Frigotto, 2002, p. 23-24). 
 
 
Com a retórica da \u201cliberdade\u201d, \u201cdemocracia\u201d e \u201cparticipação\u201d, o 
capitalismo apropria-se desses conceitos, aplicando-os em seu receituário e 
expressando, no discurso dominante, seu dinamismo e sua força manipulatória, 
enquanto modo de produção, cooptando pessoas, encorajando-as a contribuírem 
com o sistema, condicionando-as a sua aceitação, sob a ilusão da igualdade de 
oportunidades apregoada pela livre iniciativa. Essas palavras passam a ser retórica 
corrente nas diferentes esferas sociais, criando um engodo traiçoeiro através da 
apropriação indébita de conceitos historicamente utilizados pela oposição a seu 
modelo. Com isso, forma-se um consenso em torno do capitalismo como único modo 
de produção capaz de gerir a sociedade e as relações por ele determinadas. Assim, 
prepara-se o terreno para a sua expansão e lucratividade. 
Os meios de comunicação social transformam-se em porta-
vozes, difusores desse vocabulário contaminando o imaginário popular com outro 
ingrediente utilizado pela estratégia capitalista, que é a roupagem do \u201cafeto\u201d e do 
\u201csentimento\u201d. A própria mensagem capitalista utiliza-se desses argumentos como 
recursos culturais e simbólicos para agir na subjetividade dos sujeitos no sentido da 
aceitação do modelo como algo inerente ao momento atual e, portanto, inevitável. 
Aí reside o seu interesse em perpetuar sua presença na escola, 
reorganizando-a com a aparência de democrática e aberta, escondendo os 
propósitos do mercado e da \u201clivre concorrência\u201d. 
Silva, ao se referir sobre neoliberalismo e a sua propagação no 
credo educacional liberal, faz a seguinte colocação: 
 
\u201c...há uma nova economia do afeto e do sentimento, 
uma forma nova e muito mais sutil de envolvimento e 
engajamento dos sujeitos e das consciências que a crítica 
tradicional, baseada em noções racionalistas e instrumentais 
 
de poder e interesse, pode ser incapaz de perceber, captar, 
penetrar e contestar\u201d (Gentili, Silva, 2002, p.17). 
 
Para Tadeu, as energias e os investimentos afetivos possuem 
finalidades políticas e estão no âmago da dinâmica cultural. O imaginário popular 
sucumbe às propostas com palavreados sentimentais. O capital sabe muito bem 
disso e utiliza os anseios e as aspirações do povo em prol da sua afirmação. Parcela 
considerável da sociedade é cooptada na representação dos interesses do 
capitalismo, passando a defendê-lo como se o mesmo pudesse beneficiar o coletivo 
social, tornando-se difícil romper com o senso comum que corporifica o ideário 
desse sistema. 
Essa proposta penetra no seio do sistema escolar colocando 
grande parte da educação como um mercado de apropriação privada, onde existe a 
eficiência e só podem ingressar aqueles que possuem meios para adquirir uma 
\u2018educação de qualidade\u2019, ou seja, uma educação que possa ser comprada. Assim 
sendo, o diploma se configura em algo que pode ser adquirido na medida em que os 
educandos e seus pais são vistos como consumidores e têm \u2018direito\u2019 à educação 
como uma mercadoria. 
Mesmo com todo o discurso de modernização da escola e da 
educação como caminhos para vencer o subdesenvolvimento e colocar o país no 
rumo do progresso, o que se verifica no Brasil, e em muitos países de economia 
atrasada ou em desenvolvimento,