A escola perdeu sua função social no Brasil forum
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A escola perdeu sua função social no Brasil forum


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é um crescente descaso com a educação e com 
as escolas e universidades públicas. 
Embora a valorização da educação faça parte do discurso 
oficial e das instituições financeiras internacionais, o que se manifesta nos países 
periféricos é um afastamento da criança e dos jovens de parcela empobrecida da 
 
sociedade, da escola, gerando altos índices de analfabetismo ou baixo nível de 
escolaridade. 
Apesar da \u2018ajuda financeira\u2019 que o nosso país recebe do Banco 
Mundial, para ser investido na educação, o que se evidencia é um desmonte do 
ensino público, penalizando o ensino no Brasil. 
A falta de investimentos de recursos econômicos no âmbito 
cultural se reflete nas precárias condições e instrumentos de trabalho, bem como 
nas baixas remunerações dos professores. 
Essa precariedade não é fruto do acaso e, portanto, não é 
natural. O que se esconde nos bastidores são interesses internacionais ditados pela 
doutrina neoliberal de privatização com a justificativa de sanar os problemas do 
ensino e colocar o país nos rumos do crescimento industrial e tecnológico. É um 
crescimento que atenda aos interesses dos grandes conglomerados do capitalismo 
internacional, enquadrando as economias periféricas ao modelo que lhes convém no 
campo do lucro. 
Ao desmontar o ensino público, a elite impõe a sua tese de 
ineficiência desse serviço perante a opinião pública. A necessidade do 
convencimento em relação à desqualificação desses serviços é estratégia essencial 
para \u201cpreparar o terreno\u201d para as privatizações. Isso vai construindo no imaginário 
popular que, para se ter qualidade, é preciso pagar e que o privado é sinônimo de 
bom serviço. Portanto, tudo se compra e se vende, inclusive o trabalho, a educação, 
a saúde, a segurança e a própria vida. Tudo se torna fonte de lucro para o grande 
capital concentrar mais riqueza nas mãos da elite mundial. Frente a isso, vai-se 
trabalhando o pensamento popular para a aceitação da mercantilização de fatores 
essenciais à vida, ou seja, tornando mercadoria aquilo que é patrimônio de todos. 
 
Isso provoca um encobrimento das reais situações que 
envolvem o ensino no Brasil, desconfigurando as verdadeiras intenções dos 
bastidores do sistema, nublando o olhar no sentido de perceber que o modelo social 
e político está por trás do desmonte do serviço público. 
Frigotto, ao falar da globalização dos mercados, afirma: 
 
\u201cA mundialização do capital, especialmente o 
especulativo financeiro, efetiva-se mediante a crescente 
privatização da ciência e da tecnologia e o desmonte da esfera 
pública e dos direitos dos trabalhadores. Por isso, a insistência 
na desregulamentação, na descentralização autoritária e na 
privatização\u201d (Gentili, Frigotto, 2002, p.22). 
 
Diante disso, coloca-se a educação na ótica do capital, 
descomprometendo-a como direito das pessoas, subordinando-a a ordem das 
mercadorias. 
Olhando por uma ótica crítica, é possível entender que as 
questões da \u2018qualidade\u2019 e da \u2018eficiência\u2019 na educação estão ligadas a contendas 
políticas e econômicas, onde os recursos de um grupo podem financiar 
privadamente uma educação que atenda aos interesses das camadas mais 
privilegiadas da sociedade, mantendo e reproduzindo o capital cultural dos setores 
que podem pagar pelo ensino. 
O aluno Luan expressa, em sua entrevista, seu entendimento a 
respeito do papel desempenhado pela escola particular: 
 
\u201cHoje em dia as escolas particulares têm se 
convertido em mercado de trabalho, em estabelecimentos 
comerciais que vendem um serviço com índice de qualidade\u201d 
(Luan). 
 
Ao contrário, as escolas públicas não possuem os recursos 
necessários para um fazer educacional que tenha como objetivo a elevação cultural 
 
de seus membros. Sua clientela é oriunda da população que está em uma posição 
inferior e subordinada, necessária para estar à mercê do mercado de trabalho, 
sujeitando-se aos baixos salários. O processo de segregação acontece hoje dentro 
do próprio sistema, decorrente da desqualificação do ensino público que possui 
poucos recursos econômicos destinados à educação, repercutindo profundamente 
no social. 
Analisando o ensino brasileiro, é possível compreender por 
que as escolas privadas representam um \u201censino de qualidade\u201d e as escolas 
públicas são marginalizadas e rotuladas como ineficientes e de má qualidade. Está 
por trás a própria valorização do capital privado em difundir a idéia de que \u201ca 
qualidade é para a sociedade e, portanto, a privatização é o caminho para a 
modernidade\u201d. 
Frigotto (2002) faz uma crítica à relação entre educação básica 
e o mundo da produção quando afirma que \u201co projeto pedagógico dominante, que 
veicula a educação básica ao mercado e à pedagogia do capital, pedagogia das 
competências e da empregabilidade, trata-se da pedagogia que visa à formação do 
cidadão mínimo, fácil de manipular e explorar\u201d. 
Não interessa ao capitalismo a elevação cultural de todos na 
sociedade. O mesmo é projetado para a ascensão de poucos. Portanto, a \u201ceducação 
de qualidade\u201d é suficiente para aqueles que podem desembolsar uma quantia em 
dinheiro a fim de ocuparem os cargos que precisam de qualificação. Frente a isso, 
podemos entender o quanto a educação no Brasil reproduz as desigualdades 
sociais, e as oportunidades de trabalho dos sujeitos são sinônimo de recursos 
materiais. 
Brandão, ao falar dos interesses desiguais e antagônicos do 
modelo e sua repercussão no processo educativo, argumenta que: 
 
 
\u201cHá educações desiguais para classes desiguais, há 
interesses divergentes sobre a educação, há controladores. 
Grupos desiguais não só participam desigualmente da 
educação, como são também por ela destinados 
desigualmente ao trabalho: para dirigir, para executar, para 
produzir\u201d (Brandão, 2001, p. 103). 
 
 
A desigualdade no trabalho está presente na prática escolar, 
manifestando-se no agir e nas diferentes visões sobre educação. As camadas com 
poder e recursos continuam a lutar por uma pedagogia que compense os 
investimentos em educação no sentido da elevação do capital cultural de seus 
membros, sendo que os filhos das famílias de baixo poder aquisitivo permanecem à 
mercê de um ensino precário na base do treinamento e do condicionamento, 
mantendo-se à margem do sistema, reforçando as divisões existentes, aprofundando 
as diferenças no mundo neoliberal do trabalho. 
Antonio Cattani, ao falar em educação no modo de produção 
capitalista, faz a seguinte colocação: 
 
\u201cO capitalismo caracteriza-se, na sua essência, por 
formas mutantes de criação e recriação de desigualdades. O 
amálgama específico de educação e trabalho produz 
discriminação, alienação e opressão, não para todos e de 
forma homogênea, mas para a maioria e segundo múltiplas 
formas\u201d (Cattani, 2000, p. 144). 
 
Não há alteração na educação e nem escola de qualidade se 
não houver uma mudança significativa nas condições materiais que impeçam o 
sucateamento dos recursos necessários para um ensino que não seja privilégio de 
alguns, mas que seja um direito de todos. 
A formação educacional corporifica a imagem instrumentalista, 
particularista, utilitarista, onde homens e mulheres que produzem são separados e 
 
inferiorizados diante daqueles que pensam e concebem o trabalho intelectual, 
consagrando o preconceito com o trabalho técnico, o trabalho manual. 
Essa dicotomia reforça a idéia de que o diploma é o passaporte 
para o emprego com boa remuneração, camuflando a crise da forma capitalista de 
trabalho, que produz o desemprego, inclusive de grande parte da população 
escolarizada. 
É forte a idéia veiculada entre os alunos de que a escola tem 
que instrumentalizá-los para o mercado: