A escola perdeu sua função social no Brasil forum
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A escola perdeu sua função social no Brasil forum


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Freire, lutar pela humanização é a grande tarefa da 
humanidade e aí esse educador situa o fazer pedagógico. 
Penso que os educadores precisam se indignar diante das 
injustiças e incentivar o corpo discente a interpretar as condições de vida que 
deformam o ser humano, dando com isso um passo significativo na desacomodação 
diante da sociedade que gera desigualdades. A compreensão do \u2018cenário artístico\u2019 
que o capitalismo cria e alimenta é essencial para tornar possível uma educação que 
seja realmente libertadora - transformadora. 
Para Saviani (2002) \u201cnão é possível compreender radicalmente 
a história da sociedade contemporânea e, conseqüentemente, a história da 
educação contemporânea sem se compreender o movimento do capital\u201d. 
O entendimento da pedagogia liberal ficará obscurecido para 
aqueles que se aterem apenas ao campo restrito da educação institucional. É 
preciso recorrer às ciências humanas para se construir uma visão alternativa que 
possa ajudar a romper com as amarras do capital no interior do campo educacional. 
Ter o sonho de uma outra realidade igualitária não significa 
negar a importância do trabalho na vida das pessoas, mas pensar essa preparação 
sobre um prisma que leve em conta as necessidades materiais e espirituais das 
pessoas e dos grupos, condenado, com isso, os malefícios das exigências do 
capital. 
As diferentes formas de opressão em termos de classe, 
gênero, raça, etnia e sexualidade são algumas das diversas razões pelas quais 
precisamos nos empenhar, na condição educativa, no sentido de contribuir para a 
criação de um mundo, utilizando palavras de Freire, \u201cmenos feio, menos malvado, 
menos desumano\u201d. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
3.3 Disciplina escolar: limites e relações conflitivas 
 
 
 
Uma sociedade concentra-se num complexo sistema de 
relações sociais que se estabelecem entre os sujeitos que a compõem. Tais 
relações não são aleatórias, mas edificadas a partir de um conjunto de interesses 
que alimentam as classes sociais. Seguem objetivos irrigados por projetos políticos 
que buscam formar modelos, que vão compondo um imaginário condicionante que, 
orienta as ações individuais e coletivas no cotidiano. As concepções que povoam 
esses imaginários constituem-se no senso comum, tendo suas expressões práticas 
na rotina do dia-dia. 
Ao se organizarem em sociedade, os agrupamentos criam leis, 
normas, estatutos e códigos de procedimentos que guiam a conduta das pessoas. 
No âmbito da sociedade, forma-se um campo de consenso e de procedimentos à 
vida social que passa impregnar as massas da população conforme a orientação 
dada pelo grupo dominante que detém o poder de direção. Dentro desse grupo são 
 
criados ainda lendas, crenças e mitos que legitimam e fortificam determinadas 
práticas dominantes e sugestivas. 
Na análise dos diferentes instrumentos de reprodução e 
manutenção das sociedades, nos defrontamos com um conjunto de mecanismos 
impositivos criados pelo grupo que se sobrepõe na esfera de interesses específicos. 
Esse grupo, ao se constituir em classe hegemônica, busca 
manter seus interesses, utilizando diversos aparelhos que essa mesma sociedade 
cria para defender seus privilégios. Dentre esses estão os aparelhos repressivos que 
usam a força, a violência ou a coação-repressão. São claramente estruturados e 
organizados e estão a serviço de determinada \u201cordem\u201d. Por exemplo, podemos 
identificar o exército, as companhias de segurança, as polícias, as prisões, os 
tribunais. 
Os aparelhos repressivos não são difíceis de serem 
identificados, sendo utilizados quando não há a adaptação das pessoas às normas 
criadas pela sociedade. 
Na prática, esses aparelhos estão a serviço de um tipo de 
gente, de uma classe que é a dona do capital, e, na maioria das vezes, atuam contra 
a classe trabalhadora. Para comprovar isso, basta olhar o sistema carcerário 
brasileiro, onde a grande parte das pessoas condenadas é oriunda das camadas 
mais baixas da sociedade, onde são encarcerados principalmente pobres e negros. 
A Lei estabelece que todo o aparato de coibição e de 
admoestação é para proteger e defender todos os cidadãos. O verdadeiro papel 
desses aparelhos coercitivos é o de manter a ordem que interessa ao poder 
econômico, legitimando a organização social conforme a vontade da classe 
dominante. 
 
No caso do Brasil, esses interesses são procedentes do modo 
de produção capitalista, nacional e mundial, que acaba por decidir o tipo de 
organização social que melhor atende suas conveniências. Frente a isso, vai 
ocorrendo uma naturalização dos acontecimentos históricos, impedindo que se 
perceba que muitas crenças são inventadas e são significativas para a cristalização 
e reprodução de determinados modos de vida. Os grupos dominantes, ao se 
outorgarem o direito de construir códigos de conduta, o fazem conforme seus 
princípios e prerrogativas. 
Assim, ao construírem as leis e regras sociais, manifestam 
através das mesmas o leque de intenções que visam ao proveito próprio, tornando 
cativa à população que se vê envolvida pelas palavras da cartilha ditada pela elite 
que comanda o poder. 
Quando algo não funciona conforme o que pregam as leis, é 
porque existe um \u201cproblema\u201d que precisa ser resolvido a fim de enquadrar o mesmo 
às exigências do modelo. A origem social do suposto problema é encoberto pelo 
ideário das interpretações oficiais que condicionam as interpretações coletivas. Isso 
permite as disparidades sociais e as relações de dominação de uns sobre os outros 
e a exploração do trabalho humano pelos que detém o poder, através da aceitação e 
da normalização do sistema. 
O sistema escolar, enquanto parte inerente a um sistema 
maior, acaba por se atrelar a ele, transformado-se muitas vezes num campo fértil 
para a concordância das regras construídas nesse tipo de sociedade, que se 
mantém às custas da imagem que cria condicionando através de mecanismos sutis, 
mas fortemente indutivos. 
Para Antonio Severino, a educação envolve comportamentos 
que são construídos na história e argumenta: 
 
 
 \u201cA educação é um processo sócio-cultural que se dá 
na história de uma determinada sociedade, envolvendo 
comportamentos sociais, costumes, instituições, atividades 
culturais, organizações burocrático-administrativas\u201d (Severino, 
1986, p. 54). 
 
 
Para esse autor, há também um outro plano do qual se pode 
encarar o discurso pedagógico nas sociedades humanas, que é o plano legal: 
 
\u201cO processo educacional desenvolve-se na 
sociedade supostamente de acordo com normas jurídicas, 
dispositivos legais elaborados e impostos pelo poder político-
burocrático encarnado pelo estado. Como todas as demais 
atividades da sociedade, também a educação não escapa ao 
controle da superestrutura jurídica, estabelecida à nível da 
organização do poder político que domina e dirige toda a vida 
social.\u201d (Severino, 1986, p. 54). 
 
 
O sistema educacional acaba por se tornar vulnerável às 
relações que se estabelecem no corpo social, abrigando em seu bojo um conjunto 
cultural baseado nas questões de idade, gênero, status, raça, religião, etc; ou seja, 
esferas culturais e sociais onde se desenvolvem instrumentos de dominação e 
exploração. 
Conforme Cattani (2000), a educação e o trabalho conjugam-se 
num poderoso sistema de dominação elitista não mais baseado na violência ou na 
força, mas em mecanismos ao mesmo tempo seletivos, excludentes e 
condicionantes. 
Os mecanismos dos quais Cattani fala no trecho acima, são 
possíveis de se perceber nas famílias tradicionais onde a figura do pai, ou seja, a 
figura masculina representa a autoridade \u2018natural\u2019 na