A escola perdeu sua função social no Brasil forum
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A escola perdeu sua função social no Brasil forum


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O professor Taurio faz a seguinte colocação ao se referir à 
escola como instância reprodutora/transformadora: 
 
\u201cAcredito que o papel da escola é duplo. Ou ela 
exerce um papel reprodutor do sistema social vigente, ou ela 
assume o papel de ser uma instância de transformação de uma 
sociedade injusta, excludente para uma sociedade justa e 
solidária\u201d. 
 
 
A escola, ao se postar como empresa, calando-se para não 
desagradar o \u2018aluno-cliente\u2019 que pode pagar pela escolaridade, atendendo suas 
exigências e fechando os olhos para os aspectos negativos que podem influenciar 
na sua formação, perde elementos essenciais para as práticas educativas dos 
sujeitos. 
 
Penso que hoje a escola vive um abismo entre as 
necessidades, a realidade e os objetivos delegados às instituições de ensino. Ela 
não consegue lidar com as contradições inerentes à estrutura social, dificultando, 
com isso, uma tomada de posição clara que possibilite assumir o compromisso 
legítimo a que se propõe em seus projetos educativos que falam em transformação. 
Contudo, a escola procura camuflar, fazer-se de desentendida, interpretando os 
problemas que nela ocorrem como situações individuais ou familiares, mantendo 
uma visão reducionista dos fenômenos, raramente os compreendendo na sua 
relação com o sistema global da sociedade. 
Percebo, com isso, que a escola necessita repensar o seu 
fazer de forma que a liberdade, o respeito, a autonomia e a autoridade sejam 
elementos essenciais para nutrir uma educação que trabalhe a subjetividade do 
\u2018ser\u2019, capaz de enfrentar situações difíceis, assumindo riscos, com a tenacidade de 
ler os acontecimentos que ocorrem no seu bojo, buscando entendê-los, vinculando-
os com a realidade que acontece fora de seus limites, perseguindo soluções não 
punitivas, segregadoras e excludentes, mas trilhando caminhos que sejam realmente 
formadores de sujeitos conscientes de sues direitos e deveres, impulsionando-os 
como protagonistas na construção de um projeto responsável de sociedade. 
Freire nos fala da existência do risco na busca de novos 
caminhos na educação, mas também da necessidade que temos de corrê-los se 
descordamos do modelo estabelecido: 
\u201cPosso não saber agora que riscos corro, mas sei 
que, como presença no mundo, corro risco. É que o risco é um 
ingrediente necessário à mobilidade sem a qual não há cultura 
sem história. Daí a importância de uma educação que, em lugar 
de procurar negar o risco, estimule mulheres e homens a 
assumi-lo. É assumindo o risco, sua inevitabilidade, que me 
desafia agora e a que devo responder\u201d (Freire, 2000, p. 30). 
 
 
Entendo que em uma perspectiva libertadora a disciplina é um 
agir consciente e interativo oriundo de um processo de construção de valores 
centrados no bem coletivo, visando a uma auto-regulação do sujeito ou do grupo no 
qual, na interação social, exista um tecido organizativo onde a adaptação não seja 
passiva, mas buscando uma inserção no movimento de busca pela transformação, 
buscando atingir conscientemente objetivos definidos coletivamente. Portanto se o 
objetivo da escola é a \u201cformação integral\u201d dos sujeitos e a \u201cconstrução de estruturas 
mais justas na sociedade\u201d, considero como importante o corpo escolar refletir a 
respeito das síndromes que assolam as medidas disciplinares. 
 Ao evidenciar a problemática das medidas coercitivas na 
questão disciplinar, dá-se um grande passo no sentido de assumir o compromisso 
consciente da mudança, superando os mecanismos intimidadores pouco educativos 
e sem coerência com projeto que visa à verdadeira liberdade e emancipação. 
Vejo que cada situação da vida escolar que se apresenta no 
cotidiano é um ventre fértil e problematizador para nos colocar na escuta e no 
pensar a educação no sentido de defender valores centrados nos direitos 
fundamentais da pessoa humana. Uma educação que, empenhando-se na formação 
integral de seus educandos, colabore na construção de um meio social capaz de 
vencer a mentira, a ambição e a falsidade, colocando cada um como testemunha de 
autenticidade e a fazer de sua vida uma mensagem de esperança e de luta contra 
todas as formas de convívio humano que sejam intimidadores e que gere o 
sofrimento, a violência, o egoísmo, a corrupção, a desonestidade, o autoritarismo e a 
dominação. 
Para Freire, é preciso a tenção dialética das relações como 
aprendizado, e afirmando: 
 
 
\u201cQuanto mais e mais autenticamente tenhamos 
vivido a tensão dialética nas relações entre autoridade e 
liberdade tanto melhor nos teremos capacitado para superar 
razoavelmente crises de difícil solução para quem tenha se 
entregue aos exageros licenciosos ou para quem tenha estado 
submetido aos rigores de autoridade despótica\u201d (Freire, 2000, 
p. 35). 
 
Acredito que mesmo a escola sendo motivo de críticas, 
denúncias e desilusões, é também um espaço de contradições que desafia o 
educador a trabalhar com questões reais, instalar o desequilíbrio e interrogar, 
tornando necessária à discussão, a revisão, o exame mais atento das relações que 
compõem o cenário escolar. A resistência à injusta ordem social e sua 
transformação erguem-se sobre a capacidade de homens e mulheres de 
aprenderem maneiras novas de observar o mundo e atuarem sobre ele. É 
necessário atuar na escola. 
Freire nos fala a respeito do novo: 
 
\u201cContraditórios entre si estes modos, o autoritário ou 
o licencioso, trabalham contra a urgente formação e contra o 
não menos urgente desenvolvimento da mentalidade 
democrática entre nós. Estou convencido de que a primeira 
condição para aceitar ou recusar esta ou aquela mudança que 
se anuncia é estar aberto à novidade, ao diferente, à inovação, 
à dúvida\u201d (Freire, 2000, p. 37). 
 
Assim, a escola enquanto um dos espaços do próprio sistema, 
pode ajudar os sujeitos a compreender os fatores que historicamente contribuíram e 
contribuem para a desumanização da grande maioria das pessoas, expropriada dos 
bens necessários à vida digna, reagindo aos mecanismos injustos de coerção. 
Isso exige que nos engajemos taticamente enquanto 
educadores libertadores na lógica do sistema, buscando sobreviver em seu cerne 
para sermos capazes de minar suas bases, tentando de dentro avançar para um 
 
modelo transformador. Isso implica num movimento e um viver sob tensão 
constante, acreditando com convicção que a escola é um dos espaços onde a luta 
contra as formas sistemáticas, estruturais e simbólicas de opressão de pensamentos 
e práticas, pode se instalar, desafiando o próprio espaço condicionado conforme 
interesses das instituições dominantes que as mantém. 
Faz-se necessário repensar a escola e seu compromisso com a 
educação para que esse espaço se torne um lugar, não só de resistência, mas 
também de superação das condições injustas da sociedade e das formas impostas 
de organização que coordenam o sistema educativo no Brasil o qual sujeita a 
socialização das crianças e dos jovens à (de)formação de homens e mulheres, à 
lógica \u2018dócil\u2019(coercitiva) do sistema. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 3.4 Escola e a massificação da cultura 
 
 
 
 
 
 
 
O Brasil está vivendo um grande flagelo: a fome, cujas 
conseqüências são mais permissivas e matam mais que uma guerra. Mesmo sendo 
um dos países mais ricos em recursos naturais da Terra, com muita água e terras 
cultiváveis, a distribuição de renda é uma das mais perversas do planeta. Enquanto 
uns esbanjam no consumismo, milhões de brasileiros passam fome todos os dias. 
A submissão do país ao processo de globalização neoliberal 
aprofunda as desigualdades, aumentando