A escola perdeu sua função social no Brasil forum
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A escola perdeu sua função social no Brasil forum


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centrado no bem coletivo do povo. 
Transformar a escola em um espaço formador de posturas 
rebelde-indagadoras e de inserção social é o grande desafio2 de uma outra 
educação que, juntamente com as demais forças transformadoras, possa intervir na 
construção de um projeto de sociedade com a possibilidade de colocar a escola a 
serviço da valorização da vida e da dignidade. 
Assim, penso o papel da escola e da organização do trabalho 
escolar, pois entendo que a leitura e a interpretação da totalidade do contexto 
educacional do Brasil, aliados a um outro fazer educativo, sejam instrumentos de 
resistência e de luta contra uma visão autoritária de um modelo escolar, sem sintonia 
com a realidade social da criança brasileira. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
2 Desafio: Entendo por desafio possibilidades que impulsionem o educador a uma prática educativa diferente, ousada e crítica, 
que auxilie no movimento de transformação social. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 2. A APRENDENTE, TRABALHADORA DA EDUCAÇÃO E DA ESCOLA: 
 UMA RELAÇÃO NECESSÁRIA 
 
 
 2.1 Despertar da aprendente em educação 
 
 
Este trabalho tem como objetivo abordar uma temática que 
muito tem me inquietado durante minha trajetória como aprendente na área de 
educação. 
Constantemente, tenho me questionado a respeito do papel da 
escola e de como fazer uma educação transformadora inserida em um contexto no 
qual grande parte das forças do sistema educacional insiste em se manter e resiste 
à mudança desse modelo. Minha caminhada na educação já completa dezenove 
anos e, durante este tempo,.em que fui (e sou)1 aprendente, indaguei os fazeres 
 
 
1 Utilizo os verbos no item 2.1 no tempo passado por estar narrando meu despertar na área da Educação. Muitas colocações 
enquadram-se também no presente, na medida em que continuo como aprendente e indagadora da forma como se descortina 
o papel da escola. 
 
 
da escola e a forma como o sistema de ensino se apresentava no cotidiano escolar. 
Nos caminhos que trilhei fui fazendo observações e 
participando ativamente do cenário2 , integrada ao meio no qual passei a contestar a 
forma e a prática que iam se descortinando no contexto da escola. 
Este processo, onde fui construindo minha visão e meu 
pensamento como educadora, associado à idéia de que uma outra educação é 
necessária, não foi algo simples, mas decorrente do percurso que trilhei, dos erros 
que eu própria cometi, reproduzindo velhas práticas do fazer docente e, dos 
obstáculos que tive que transpor para vencer a alienação do trabalho escolar. 
Meu percurso profissional iniciou em 1985, quando me formei 
no curso de Bacharelado em Ciências Sociais, e, no ano posterior, em Licenciatura 
Plena na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Em 1986, 
ao concluir meus cursos de graduação, ingressei no mercado de trabalho 
começando minha carreira profissional na área de Licenciatura. No ano de 1995 
voltei à PUCRS, no curso de Especialização em Ciência Política, o que contribuiu 
muito para meu aprendizado. 
Comecei a lecionar no Colégio São Judas Tadeu, escola que 
serviu para meu grande aprendizado, pois trabalhei em diversas séries, com 
diferentes faixas etárias, proporcionando-me uma experiência enriquecedora dentro 
do Magistério, aprendendo muito com meus alunos. Trabalhei, também, na mesma 
escola no curso Supletivo, onde muitos dos discentes eram adultos que haviam 
retornado aos estudos. Para mim, essa foi a mais rica das experiências em meu 
início de carreira. 
 
 
2 Ao longo do texto utilizo as palavras cenário e/ou espaço por considerar o lugar onde a trama social e política é desenvolvida 
pelas relações dos sujeitos que a compõem. 
 
 
No final do ano de 1987, fui chamada pelo Colégio Nossa 
Senhora do Rosário para substituir pelo período de três meses, uma professora em 
licença gestante. Em 1988, iniciei como professora no Colégio Nossa Senhora da 
Glória onde leciono até hoje, no Ensino Fundamental, trabalhando com as 
disciplinas de História/Geografia (sextas e oitavas séries) e Sociologia (segundos 
anos), no Ensino Médio. 
Atualmente, além do exercício da minha profissão na escola, 
faço parte do setor de assessoria pedagógica da Associação de Educação Católica 
do Rio Grande do Sul (AEC-RS), auxiliando, também, com publicações de artigos no 
Boletim Trimestral desta instituição. 
 Ao longo de minha vida, atuando como professora, participei 
de seminários, fóruns e congressos ligados à educação, procurando, através destes 
espaços, pensar e analisar a realidade educacional e refletir sobre momentos 
históricos significativos. Em fevereiro de 2001, participei do Congresso de 
Pedagogia, em Cuba, que reuniu seis mil educadores de vários países do mundo, o 
instigando, ainda mais, minha reflexão a respeito da educação no Brasil. 
Nos primeiros anos em que exerci minha profissão, senti-me 
decepcionada em muitos aspectos que observava em meu ambiente de trabalho e, 
muitas vezes, eu mesma acabava aplicando em minhas aulas uma educação 
tradicional, preocupada em cumprir o programa (compromisso ingênuo), pensando 
ser bom para o aluno e passando elementos da cultura, acumulados 
historicamente. 
Essa situação frustrou-me a ponto de eu mesma questionar a 
respeito de minha vocação. Custei a perceber que estava apenas reproduzindo a 
educação predominantemente tradicional3 recebida e que também era colocada em 
prática por muitos de meus colegas de trabalho. Comecei a criticar aquela situação e 
 
a nossa conduta como educadores. Parte dessa conscientização deveu-se às 
minhas leituras a respeito do assunto, mas principalmente as leituras de Paulo 
Freire, a quem devo meu amadurecimento e aprendizado no campo da educação. 
Inserida no contexto escolar, aprendendo com minhas 
vivências e com meus alunos, fui detectando problemáticas e fazendo descobertas 
que me inquietaram e aguçaram minha busca por novas respostas. As observações 
que fiz e os problemas que percebi me aproximaram da obra de Freire na tentativa 
de compreender o universo da educação. Quanto mais fui compreendendo suas 
idéias, mais fascinada ficava com minhas descobertas e minha percepção dos 
fenômenos, tornando-me uma crítica em relação à educação conservadora e elitista 
que atende aos interesses das classes dominantes, no sentido da não elevação do 
nível de consciência crítica do aluno. Estou convencida de que o grande educador 
Paulo Freire deixou a todos os trabalhadores da educação um legado muito 
importante: colocar o \u2018ser humano como centro\u2019 do processo educativo, exaltando 
sua capacidade de \u2018educar-se como sujeito histórico\u2019. 
Tendo consciência dos próprios erros que cometi, fazendo uma 
análise crítica e buscando a superação dos mesmos, comecei a perseguir uma outra 
educação que extrapole os muros da escola e que se aproxime dos problemas reais 
e das decisões políticas e econômicas importantes para o Brasil e para o mundo. 
Comecei a contestar o foco de atenção do professor e dos 
alunos: o que é mais importante, o programa ou a prática social? 
 
 
 
3 Estudei até a 8ª série em uma escola católica de freiras. Nessa época, em plena ditadura militar, vivenciei momentos que me 
instigaram a pensar e criticar situações que se apresentavam no cotidiano escolar. As mesmas me inquietaram, levando-me a 
insistir com meus pais para trocar de escola. Fui a única, dentre três irmãs, que não concluiu o ensino naquele 
estabelecimento, cursando o \u2018segundo grau\u2019 em uma instituição de irmãos, mais aberta, onde as práticas discriminatórias eram 
menos constantes.