A escola perdeu sua função social no Brasil forum
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A escola perdeu sua função social no Brasil forum


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os 
outros povos\u201d (Benjamin, Caldart, 1999, p. 35). 
 
 
A riqueza e a beleza da vida encontram-se justamente na 
diversidade e nas peculiaridades de cada cultura. Valorizar as diferenças é um 
grande aprendizado para o convívio humano. No encontro das diferenças, novos 
horizontes e perspectivas se abrem e nos apresentam desafios que nos lançam 
cada vez mais ao constante movimento do aprender, onde a educação se 
transforma no verdadeiro elo de ligação do que temos com o que sonhamos. 
Desconstruir no seio da velha edificação para reconstruir novas relações de vida em 
uma sociedade que seja verdadeiramente livre, justa e solidária. 
Como a escola pode contribuir na edificação de uma educação 
da práxis é o que pretendo abordar no próximo capítulo. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 4. O TRABALHO DOCENTE: OBSTÁCULOS E DESAFIOS 
 DE UM NOVO FAZER ESCOLAR 
 
 
4.1 O Projeto político-pedagógico: 
 conflito entre teoria e prática 
 
 
 
Muito se fala, nos dias de hoje, a respeito da importância do 
ensino na vida das pessoas. Frente a isso, apresentam-se perspectivas para a 
escola. Uma, atualmente dominante, é o enfoque neoliberal no qual a fonte de 
interesse é a formação de capital humano para o mercado. Essa perspectiva vincula 
a educação ao desenvolvimento econômico onde os indivíduos escolarizados e 
qualificados \u2018garantem\u2019 o crescimento da economia. Com isso, cresce a 
preocupação com o mercado de trabalho, em detrimento da justiça social. Assim 
como no mercado tudo precisa funcionar perfeitamente conforme a determinação do 
modelo visando à qualidade total, a escola acaba tornando-se subserviente e 
dirigindo programas com o intuito de fornecer uma força de trabalho flexível e 
 
adaptável. Esta deve ser capaz de aprender e re-aprender as competências 
requeridas para serem empregadas do capital. 
É a ideologia neoliberal que fundamenta grande parte do 
discurso a respeito da educação, levando o conjunto inerente ao processo educativo 
a pensar e operar pela lógica da estruturação capitalista. Nesse sentido, o 
neoliberalismo coloca a educação escolar à disposição e a vê como um dos 
aparelhos subservientes visando à manutenção e reprodução do sistema. Esta 
perspectiva se mantém, na medida em que produz no imaginário coletivo a idéia de 
que a escola é \u2018garantia\u2019 para o futuro e o mercado conseguiria responder às 
demandas individuais dos escolarizados, proporcionando emprego aos letrados e 
conseqüentemente um aumento geral da riqueza, beneficiando todos. Disso resulta 
o discurso \u201cinvestir em educação\u201d no sentido de reconhecer o \u201cvalor econômico do 
saber\u201d. 
A outra perspectiva defende uma educação democrática e 
crítica direcionada no sentido da luta por mudanças sociais. Essa perspectiva 
entende a qualidade da educação como um direito social no qual os educandos se 
reconhecem como sujeitos da história capazes de interferir na realidade. Ela assume 
como premissa à pessoa como um ser dotado de inteligência, vontade e dignidade, 
considerando como um todo que busca unidade em sua pluridimensionalidade. 
Fundamenta seus valores na justiça, na solidariedade, na partilha, na participação, 
no amor, no respeito e na verdade. Essa perspectiva defende que a pessoa 
humana tem capacidade de ler os acontecimentos e as causas que os produzem, 
trazendo à tona questões sociais, culturais, políticas e econômicas que fazem o 
momento histórico. É uma perspectiva que considera os homens e as mulheres 
como seres com potencialidades de construir \u2013 desconstruir - reconstruir o mundo e 
manter viva a memória através da história. 
 
A escola hoje convive com essas duas perspectivas em seu 
espaço educativo. São panoramas que se apresentam, se deparam, se mesclam e 
se contrapõem no ambiente escolar e são perspectivas que estabelecem relações 
de forças (embora desiguais) nas instituições de ensino. São esses valores 
conflitivos liberais e transformadores que passam a fundamentar situações 
vivenciadas na escola. 
O espírito capitalista está presente na retórica do ensino, 
embora nem sempre pronunciado com a consciência de quem a proferiu, 
evidenciando-se através de expressões ditas no cotidiano escolar como: 
- Déficit de atenção; 
- O ritmo do aluno é lento; 
- O aluno não está produzindo conforme o restante da turma; 
- Clientela / o aluno é um cliente; 
- O aluno está dentro do padrão; 
- Precisamos treinar nossos alunos para o vestibular; 
- O aluno é um produto; 
- O trabalho do aluno não é de qualidade; 
- O marketing é necessário para divulgar a escola; 
- O horizonte do aluno é o mercado de trabalho. 
 
Essas expressões são comuns no cenário da escola para que 
se tenha uma \u201cboa educação\u201d. Termos do vocabulário econômico são incorporados 
à retórica escolar para justificar ou diagnosticar atitudes e posturas dos alunos. 
Muitos desses termos acabam por servir de rótulos que estigmatizam crianças e 
adolescentes, que ao se sentirem inferiorizados por destoarem dos demais colegas, 
adotam posturas de indisciplina, rebelando-se ou acomodando-se, tornando-se 
apáticos e pouco criativos, deixando de explorar seu potencial. 
 
As falas citadas se professam em um espaço que apregoa 
também um outro discurso, cuja essência defende valores centrados na valorização 
e orientação dos seres humanos, no seu todo existencial, e no respeito à 
individualidade e à história pessoal de cada um. Outras falas também são 
expressas no ambiente da escola tais como: 
- Educação para a solidariedade; 
- A escola é o centro inovador de formação humana; 
- É preciso anunciar a palavra libertadora; 
- Formar agentes de transformação que contribuam para uma 
sociedade nova, justa, humana e solidária; 
- Tornar o educando sujeito da sua própria história; 
- Educação como fonte de formação humana integral; 
- Formar cidadãos críticos; 
- Educação para a cidadania; 
- Educar para a mudança; 
- Educação para a vida plena. 
 
Os valores éticos, morais, espirituais que propõe como 
essenciais à formação humana e cristã convivem dialeticamente com as idéias do 
liberalismo econômico, centradas na competência, concorrência e competição. Há 
um entrelaçamento de valores cujos ideais se fundem e confundem os sujeitos que 
acabam não conseguindo discernir e identificar a \u2018fonte\u2019 que dá fundamentação ao 
projeto político - pedagógico da escola. A opção por um modelo de educação que se 
expressa em uma pedagogia libertadora, procurando formar sujeitos que sejam 
agentes de transformação, interagindo na perseguição de uma sociedade justa, 
convive com um outro discurso e uma outra prática que, inconscientemente, acabam 
por reproduzir o que temos na sociedade. 
 
A educação é dependente, tanto em relação ao sistema político 
como ao econômico e cultural. Sendo assim, ela não é neutra e aponta em uma 
direção. 
Freire, ao falar da diretividade na educação, argumenta que: 
 
\u201cExiste uma diretividade na educação que nunca lhe 
permite ser neutra. Temos de dizer aos alunos como pensamos 
e por quê. Meu papel não é ficar em silêncio. Tenho de 
convencer meus alunos de meu sonho, mas não conquistá-los 
para meus planos pessoais. Mesmo que os alunos tenham o 
direito de ter sonhos maus, tenho ao direito de dizer que seus 
sonhos são maus, reacionários, capitalista ou autoritários\u201d 
(Freire, Shor, 2003, p. 187). 
 
 
Quando o educador desconhece a essência do seu próprio 
discurso ideologizado, acaba veiculando a idéia de utilidade ao sistema, 
determinado por ele, alinhando-se aos interesses do modelo econômico.