A escola perdeu sua função social no Brasil forum
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A escola perdeu sua função social no Brasil forum


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Desconhecer o caráter político da educação é ignorar os 
mecanismos e pressões que se exercem sobre ela, condicionando-a a reproduzir 
determinada estrutura social dominante. 
O discurso de transformação, de solidariedade, de mudança e 
de democracia se entrelaça com o discurso que visa ao mundo dos negócios, 
estabelecendo padrões de eficiência e produtividade nas práticas educacionais. 
Assim como as empresas produzem para o mercado, também as escolas acabam 
fazendo o mesmo. Elas devem produzir num \u201cmercado educacional\u201d, tendo como 
referência o mercado trabalhista, e assim ser altamente competitivo. Isso conduz a 
preocupação das escolas em formar bons alunos ordeiros para servir ao modelo e 
levar o nome da escola. Frente a isso, professores e alunos não constroem uma 
consciência de classe por desconhecerem o processo de produção, inclusive as 
relações e os interesses econômicos que perpassam esse processo. É como se 
 
existisse um vácuo, ou seja, um espaço imaginário sem recursos para a 
interpretação dos fenômenos que impede os professores de compreenderem as 
metodologias educativas em sintonia com o discurso libertador, dificultando um fazer 
coerente com a teoria defendida. Com isso a educação permanece cooptada pelos 
interesses do capitalismo. Não conseguem perceber a carga ideológica que 
influência seus discursos, condicionando também suas práticas. 
Observo que muitas das palestras direcionadas aos alunos, 
proferidas na escola, os temas estão em torno do mercado de trabalho e como o 
aluno deve fazer para se enquadrar nele e se tornar um bom empregado, ou como 
se qualificar da melhor maneira para competir lá fora e conquistar uma vaga que lhe 
garanta a empregabilidade. \u2018Aprender a empreender\u2019 é a lição corrente de grande 
parte dos palestrantes que falam aos grupos de alunos. A dificuldade de reconhecer 
que o modelo não vai abarcar a todos leva a escola a continuar formando, ou 
melhor, deformando os jovens para se enquadrarem em um sistema que não lhe 
garantirá um bom emprego com um salário digno ao sair do espaço escolar. Mesmo 
assim a escolaridade continua atrelada ao mercado, falando em mudança, 
transformação e em formação integral. 
Por mais que os projetos educativos sejam permeados de boas 
intenções; mesmo que o discurso da transformação faça parte da retórica proferida 
na escola, o que predomina é o discurso camuflado e as práticas neoliberais. São 
elas que agem no subjetivo dos sujeitos, através da forte inculcação ideológica que 
acaba por fortalecer os valores apregoados pelo capitalismo. 
Para Freire (2003) \u201co sistema escolar foi criado por forças 
políticas cujo centro de poder está distante da sala de aula\u201d. Com isso, podemos 
entender o porquê que a educação libertadora é tão difícil de ser entendida pelos 
professores de forma que a mesma passe a se evidenciar na prática. 
 
Freire (2000), ao reconhecer a dificuldade da mudança, afirma 
que \u2018mudar é difícil, mas é possível\u2019 e é aí que o esforço de trabalhar num projeto 
crítico de formação de educadores tem a sua validade prática, e argumenta que não 
podemos ficar, enquanto educador, no puro treino técnico-profissional. Isso não 
significa o não reconhecimento e a importância da capacitação técnico-científico dos 
educandos cujos conhecimentos são necessários ao exercício de sua cidadania. 
A educação se dá numa sociedade de classe conflitiva, 
movimentada por pressões e impregnadas de poder ideológico, exercendo uma 
influência na convivência social que é reproduzida no meio escolar. Por isso a 
educação faz-se partindo de uma opção política explícita ou camuflada. 
Freire (2003) ao reconhecer a politicidade da educação sugere 
que o professor indague-se a respeito do seu fazer: que tipo de política estou 
fazendo em classe? Estou sendo um professor a favor de quem? Esse autor 
argumenta que ao se perguntar a favor de quem está educando o professor 
também deve se perguntar contra quem está educando. 
As questões de classe e seus interesses permeiam o ambiente 
escolar, manifestando-se através do discurso e do embate de práticas adotadas no 
seio da escola. Isso provoca um confronto de posições que dificulta um agir coerente 
com o projeto educativo libertador. Assim, se perde a clareza do caminho a seguir 
relegando a proposta transformadora a um plano que torna obscura suas reais 
intenções. 
O ideário que os alunos trazem para a escola, os interesses 
dos pais de famílias e as próprias concepções de professores e direções no âmbito 
escolar sofrem uma maior ou menor influência ideológica dos meios de comunicação 
que os condicionam, segundo os interesses de quem defende o poder político e 
 
econômico, em nível nacional e internacional, atrelando a escola a interesses 
específicos, viciando as práticas da própria instituição educativa. 
Esses meios de comunicação formam opinião que acabam se 
tornando verdades sacramentadas que povoam a mentalidade das pessoas. Essas 
idéias se transformam em um empecilho na escola para a decodificação e o 
entendimento das falsas noções arraigadas no imaginário dos alunos, pois elas 
acabam por serem reforçadas na família e nas próprias instituições de ensino. 
Frente a isso os discentes acabam reagindo quando se deparam com um novo 
conjunto crítico de idéias políticas que faça um contraponto às suas concepções. 
Muitos acham que isso não é função da escola, pois segundo eles ela só deve se 
preocupar com o conteúdo tradicional do ensino. Essas formas de pensar são 
respaldadas pelos setores de ensino que, muitas vezes, não possuem instrumentos 
de embasamento teórico-crítico para entender a essência de um projeto libertador. 
Esses aspectos exigem do professor transformador um aprender num constante 
reaprender diante das difíceis situações que se apresentam em sua caminhada no 
campo do saber. 
Freire, ao falar das experiências dos professores, alunos e da 
politicidade do fazer escolar, argumenta que: 
 
\u201cEm alguns momentos da experiência dos 
professores e alunos, eles começam a perceber, mais do que 
antes, que a educação tem algo a ver com a política. Como 
fazer isso durante os momentos em que há resistência 
estudantil e restrições por parte das autoridades, isso é uma 
questão que exige do professor que seja tanto um artista como 
um político\u201d (Freire, Shor, 2003, p. 60). 
 
 
Ele afirma ainda que o educador transformador precisa fazer 
sua opção, aprofundar-se na política e na pedagogia de oposição. A dificuldade 
apresenta-se em conciliar a prática libertadora com o ideário que compõe a opção 
 
inovadora em um meio que resiste a posturas que indaguem e que rompam com o 
senso comum. 
Os alunos acostumados aos métodos que se consolidaram no 
ensino, aprovados e testados ao longo dos anos, reagem muitas vezes às 
metodologias criativas, abertas ao diálogo, considerando-as como perda de tempo. 
Freire, ao falar da resistência juvenil, acrescenta que: 
 
\u201c...eles estão tão acostumados a obedecer a ordens 
que não sabem como ser responsáveis pela própria formação. 
Não aprenderam como organizar sua própria leitura da 
realidade e dos livros, entendendo o que lêem criticamente. Por 
serem dependentes da autoridade para estruturar seu 
desenvolvimento, automaticamente pensam que a educação 
libertadora ou dialógica não é rigorosa, por exigir deles que 
participem da própria formação\u201d (Freire, Shor, 2003, p. 97). 
 
 
Isso provoca uma pressão sobre o educador, cuja força ideária 
do sistema o vê como pouco rigoroso, radical, ilusionário e duvidoso na medida em 
que provoca embate de posições. O educador transformador concebe seu trabalho 
partindo de um projeto libertador, que busca decodificar, junto a seus