A escola perdeu sua função social no Brasil forum
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A escola perdeu sua função social no Brasil forum


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alunos, o 
aspecto ingênuo do senso comum, enquanto o aluno carrega expectativas para 
vencer na vida num mundo extremamente competitivo. 
 A ousadia dos educadores em avançarem em métodos pouco 
convencionais, coerentes com práticas verdadeiramente democráticas e 
transformadoras, exige do educador uma força interior e um espírito de luta que o 
impulsione a uma caminhada que destoe da maioria dos professores, cujas 
tendências é a reprodução dos velhos esquemas metodológicos. 
Freire afirma que a resistência é necessária frente ao poder e 
argumenta que: 
 
 
\u201cÉ preciso que tenhamos na resistência que nos 
preserva vivos, na compreensão do futuro como problema e na 
vocação para o ser mais como expressão da natureza humana 
em processo de estar sendo, fundamentos para a nossa 
rebeldia e não para a nossa resignação em face das ofensas 
que nos destroem o ser. Não é na resignação mas na rebeldia 
em face das injustiças que nos afirmamos. (Freire, 2000, p. 81). 
 
 
A coerência e a articulação entre o discurso e a prática, no 
processo educativo, expõe o educador a situações que testam seus limites e seu 
compromisso com o projeto de educação a que se propõe. 
Para Shor (2003) no momento que você começa a fazer 
oposição, se revela, se expõe pelo \u2018sonho\u2019 que você quer e contra o \u2018sonho\u2019 
sustentado pelas autoridades e seus seguidores. Isto implica num desafio para o 
educador que necessita de ousadia capaz de enfrentar pressões. 
Freire argumenta que o educador transformador pode até 
perder materialmente alguma coisa por ter sido coerente em sua prática com suas 
convicções e afirma que: 
 
\u201cNem sempre fácil de ser assumida, a busca da 
coerência educa a vontade, faculdade fundamental para o 
nosso mover-nos no mundo. Com a vontade enfraquecida é 
difícil decidir \u2013 sem decisão não optamos entre uma coisa e 
outra, não rompemos\u201d (Freire, 2000, p. 45). 
 
 
Neste processa existe um risco do educador perder sua 
autoridade ao propor um ensino sem sintonia com o modelo vigente, o qual é 
determinado pela classe dominante. Este problema aumenta principalmente se ele 
se encontra isolado, mergulhado em um ambiente pouco consciente e que não lhe 
dá suporte para a realização de um fazer inovador; se o mesmo está inserido em um 
contexto educacional cujos avanços políticos e pedagógicos pouco saíram do papel. 
 
Esta situação faz com que estes mestres vivam constantemente num processo de 
tensão permanente, o que o torna vulnerável no sistema escolar. 
Shor em diálogo com Freire, no livro \u2018Medo e Ousadia\u2019, afirma 
que: 
\u201cO desgaste do professor e a resistência dos alunos 
fazem com que muitos professores se perguntem porque estão 
na educação...Os que estão abertos à transformação sentem 
um apelo utópico, mas também sentem medo. São afastados 
da convicção de que a educação deveria libertar. Viram as 
costas porque compreendem os riscos da política de oposição. 
Temem ser apontados como radicais, como pessoas que 
causam confusões\u201d (Shor, 2003, p. 69). 
 
 
Shor acrescenta que o medo da punição só pode ser uma porta 
aberta para os outros medos que bloqueiam o caminho da transformação. 
Freire afirma que aqueles que se propõem a assumir a 
educação libertadora precisam ocupar as escolas com políticas também libertadoras, 
mas chama a atenção para os obstáculos impostos pelo pensamento reinante: 
 
\u201cAqueles que obscurecem a realidade através da 
ideologia dominante, disseminando, multiplicando e 
reproduzindo a ideologia dominante, estão nadando a favor da 
corrente! ... Nadar contra a corrente significa correr riscos e 
assumir riscos. Significa, também, esperar constantemente por 
uma punição. Sempre digo que os que nadam contra a corrente 
são os primeiros a ser punidos pela corrente e não podem 
esperar ganhar de presente fins de semana em praias 
tropicais!\u201d (Freire, Shor, 2003, p. 50). 
 
 
Muitos professores, imbuídos de boas intenções, acabam 
desistindo frente ao medo e a pressão que sofrem do sistema dominante, levando-os 
a engajarem-se no padrão sendo cooptados pelo mesmo, dado as dificuldades que 
se apresentam. O interessante é que isto ocorre mesmo naquelas instituições que 
apregoam uma educação transformadora, cujos projetos avançaram em suas 
intenções. 
 
 Grande parte das escolas e conseqüentemente dos sujeitos 
que a compõem, salienta a importância do compreender a realidade social, política, 
econômica e cultural do Brasil e do mundo, com o objetivo de despertar a 
consciência crítica do educador e do educando, criando condições e propostas para 
um compromisso de vida e decisão sobre que papel desempenhar na sociedade. 
Este discurso faz parte da retórica dos estabelecimentos de ensino e é proferido por 
muitos educadores e diretores de escolas. 
Ao falar sobre o espaço escolar, os professores afirmam que: 
 
\u201cO papel da escola é educar no sentido mais amplo 
do \u2018ser integral\u2019... os desafios e conflitos são intensos, mas 
realmente assim os olhares sob diversos ângulos ampliam a 
visão do homem, do mundo e da sociedade\u201d (Profª Silvia); 
 
\u201cA escola é um lugar de conhecimento, de cultura, de 
amizade, de compreender a realidade e é um lugar de família. 
O papel da escola é formar sujeitos capazes de compreender a 
realidade como um todo e de saber que é a verdade dita sobre 
o mundo, mas também de saber diferenciar a realidade vivida 
desta percebida por ela, seja qual for a sua classe social\u201d (Profª 
Marinice); 
 
\u201cA educação também cabe na escola. A educação 
ultrapassa a escola, pois ela se constitui numa prática social. A 
educação se faz presente na escola na medida em que 
constrói sujeitos coletivos que conhecem seus direitos e 
deveres e os assumem\u201d (Prof. Taurio-AEC). 
 
 
Com isso, grande parte da intencionalidade político-pedagógica 
se propõe a ser percebida como um processo no qual as questões oriundas da 
relação ensino-aprendizagem possam dar-lhe um caráter dinâmico, social e 
transformador, o que demonstra avanços em concepções teóricas. 
Se na teoria dos projetos educativos as escolas já avançaram 
no sentido de se reconhecer como um espaço de socialização e construção coletiva 
 
do conhecimento, visando a formação de sujeitos individuais e coletivos que atuem 
nos meios social, político, econômico e cultural, na prática, continua distanciada 
deste intento tanto apregoado no universo escolar. 
Vários teóricos reforçam estas idéias, sendo suas obras lidas 
por alguns educadores. 
Considero pertinente citar Freire, pois este autor argumenta, 
em sua teoria, o que pude evidenciar na prática: 
 
\u201cÉ como se os livros todos a cuja leitura dedica 
tempo farto nada devessem ter com a realidade de seu mundo. 
A realidade com que eles têm que ver é a realidade idealizada 
de uma escola que vai virando cada vez mais um dado aí, 
desconectado do concreto. Não se lê criticamente como se 
fazê-lo fosse a mesma coisa que comprar mercadoria por 
atacado. Ler vinte livros, trinta livros. A verdadeira leitura me 
compromete de imediato com o texto que a mim se dá e a que 
me dou e de cuja compreensão fundamental me vou tornando 
também sujeito. Ao ler não me acho no puro encalço da 
inteligência do texto como se fosse ela produção apenas de 
seu autor ou de sua autora. Esta forma viciada de ler não tem 
nada a ver, por isso mesmo, com o pensar certo e com o 
ensinar certo\u201d (Freire, 2002, p. 30). 
 
Percebo que os autores que dão fundamentação teórica ao 
projeto político-pedagógico são pouco lidos no ambiente escolar. Isto se traduz em 
um obstáculo para o entendimento e compreensão do texto doutrinal, dificultando 
um avanço no processo de conscientização dos docentes no sentido de trazer para 
a prática os progressos da teoria.