A escola perdeu sua função social no Brasil forum
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A escola perdeu sua função social no Brasil forum


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Embora existam, em muitas escolas, movimentos no sentido 
de realmente despertar o senso crítico dos alunos e que não podem ser ignorados; o 
que ainda predomina é a educação tradicional e tecnicista, baseada numa 
concepção conservadora da cultura herdada e conhecimento a ser repassado pelos 
professores na forma de um conjunto de fatos e informações selecionadas do 
 
estoque cultural mais amplo da humanidade, para serem transmitidos às novas 
gerações. Nessa perspectiva, o contexto escolar é apresentado como neutro, 
inquestionável e socializado. São saberes descontextualizados, transmitidos 
disciplinarmente na lógica da educação bancária. 
A escola vive em seu bojo, contradições, na medida em que o 
discurso libertador convive com o discurso ideológico liberal, distanciando-se da 
realidade social criada por este sistema. Neste sentido, mesmo falando em 
transformação, a escola se coloca como uma ilha desvinculada do real, onde a 
essência da vida sofrida e angustiante dos homens e mulheres do nosso povo, 
pouco faz parte do campo da educação. O que vigora são noções distorcidas dos 
fenômenos sociais, impedindo que o conhecimento seja construído com o intuito de 
estabelecer relações entre as diferentes dimensões da realidade, preenchendo 
lacunas e desocultando o que o olhar normalizador encobre e não revela. 
A educação, a serviço do lucro, tende a impedir a construção 
de um conhecimento capaz de interpretar o meio social. Assim, o saber se 
transforma em um conjunto de idéias abstratas e alienantes que acabam por impedir 
o pensar reflexivo e crítico, caminho importante para uma reação ao processo de 
exploração e dominação. 
O que é vigente, na maioria das escolas, são áreas do 
conhecimento estanques, em blocos, sem relação umas com as outras, onde as 
mesmas dificilmente dialogam entre si, mascarando os mecanismos geradores da 
pobreza. Com isso, impede-se uma visão da totalidade, compartimentando o 
conhecer e mantendo uma leitura reducionista do real, reforçando e reproduzindo 
falsas idéias de que as disparidades sociais são frutos do acaso. 
A história contada e trabalhada nas salas de aula é, quase 
sempre, fragmentada e o que predomina é a exaltação dos falsos heróis, geralmente 
 
brancos e masculinos, pouco se abordando as reais lutas dos povos, ou seja, dos 
negros, dos índios, das mulheres e dos sem-terra. A instituição escolar, frente à 
história, procura fazer-se de desentendida, camuflando os mecanismos geradores 
da pobreza, mantendo em seu bojo uma interpretação ideologizada, picotada e 
linear dos acontecimentos. 
Falar em problemas sociais tais como a miséria, o desemprego, 
e injustiças é fácil e constantemente faz parte do discurso da escola, que aborda 
estes temas assumindo o compromisso de trabalhar criticamente os mesmos. O que 
se verifica na prática, é uma dificuldade de ver na história o que produziu e produz 
as desigualdades. Ir até a raiz dos fenômenos incomoda, mexe e se choca com as 
concepções que estão arraigadas ao pensamento conservador de grande parte das 
pessoas que compõem a escola. Mexer nas principais causas que produzem a 
miséria no mundo gera conflitos que a escola prefere evitar e fechar os olhos para 
não se comprometer frente ao sistema capitalista dominante que a mantém atrelada. 
A estrutura da escola cria obstáculos para a prática de métodos transformadores. 
Quanto à comunidade escolar percebo que, parcela 
significativa, é reacionária em suas ações e concepções. É difícil sustentar pontos de 
vista que destoam daqueles que são predominantes no seio escolar. Quanto às 
práticas, as ousadias são vistas como \u201ccriadoras de problemas\u201d que incomodam o 
bom funcionamento da escola. Tudo isso é relevante para entendermos o porque a 
escola acaba, muitas vezes, trabalhando em prol de uma educação que não liberta, 
mas que aliena, na medida em que serve ao modelo sistêmico do capitalismo. 
Horton, ao falar da dificuldade de se assumir uma postura 
diferenciada num meio condicionado para a reprodução afirma que: 
 
\u201c... as pessoas que se dizem neutras e nos chamam 
de propagandistas porque não somos neutros, também não são 
 
neutras. São apenas ignorantes. Não sabem que são 
defensores do status quo. Não sabem que essa é sua tarefa. 
Não sabem que a instituição é dedicada a perpetuar um 
sistema e elas estão servindo a uma instituição. Apesar disso, 
essa pessoas têm influência\u201d (Horton, 2003, p. 182). 
 
É possível perceber as colocações de Horton no espaço 
escolar, na qual um grupo significativo incluindo pais, professores e alunos, com 
forte influência no ambiente da escola, agem no sentido de se manterem como 
guardiões do sistema, reagindo frente a dinâmicas que possam ameaçar a 
estabilidade daquilo que é considerado aceito pelo pensamento dominante. 
Para Freire (2000) é importante afirmar que \u201cos que negam a 
pedagogicidade, afogada e anulada, segundo eles, no político, também são 
políticos. Só, obviamente, que em opção diferente da que apregoa a transformação\u201d. 
Na prática, o que predomina é uma rejeição a temas 
problematizadores e que instigam o pensamento e a reflexão. Falar do índio como 
figura folclórica é fácil para a escola, pois este é \u2018pacífico, acomodado, coitado\u2019. 
Falar na pobreza chega a ser nobre, porque na aparência e aos olhos menos 
críticos, a escola se apresenta cumprindo seu papel e ela própria finge que assume 
o seu compromisso de trabalhar com as questões sociais, desenvolvendo, em seu 
bojo, campanhas assistencialistas. O discurso da paz é proferido pelos sujeitos que 
compõem a escola, projetando-a na imagem da \u2018pomba branca\u2019, na paz que nega o 
conflito, a paz do silêncio. Falar em paz, enquanto justiça social, cria desconforto, 
levando os educadores a não se aprofundarem no assunto, mantendo-os na 
superficialidade do mesmo. 
Os problemas de moradia, do desemprego, do favelamento e 
da violência são vistos como obra do destino e analisados de forma compactada no 
presente, desvinculando-os de causas históricas. Tocar na questão da terra chega a 
 
ser um sacrilégio para a escola, pois mexe nas noções de propriedade, arraigadas 
pelo pensamento reacionário. Qualquer expressão de militância e luta dos 
movimentos sociais ainda é encarada, por grande parte da comunidade escolar, 
como \u201cdesestabilizadores da ordem\u201d. Quando ações ocorrem neste sentido, 
mecanismos reguladores são acionados para frear o pensamento e a prática nova, 
que possam alterar a harmonia da escola. O difícil para a escola é abordar as 
causas geradoras dos problemas sociais cujas raízes encontram-se no passado. 
Assuntos polêmicos e de grande relevância para a história do 
Brasil, muitas vezes são escamoteados e ignorados pelo corpo escolar. Momentos 
políticos como eleições, discussões sobre a ALCA, dívida externa e reforma agrária 
são relegados a planos secundários para o aprendizado, não se constituindo em 
projetos cujos objetivos possam ser assumidos pelo conjunto da escola. Ao serem 
analisadas as causas destes problemas, acaba-se mexendo em concepções que 
provocam confrontos de pensamentos gerando um tensionamento que a escola 
prefere evitar, permanecendo na aparência destes fenômenos. 
Ignorar a luta dos povos contra os mecanismos de opressão 
da classe dominante é desconhecer um continente da educação chamada história. 
Recorrer ao passado é a chave para se entender o presente e projetar um futuro 
diferente em sintonia com a humanização dos povos. 
Não encontro um empenho maior por parte dos diferentes 
setores, que integram os quadros administrativos das escolas, em comprometerem-
se com questões relevantes, para ajudar incentivar o corpo docente fazer uma leitura 
crítica