A escola perdeu sua função social no Brasil forum
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A escola perdeu sua função social no Brasil forum


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radical da realidade brasileira a fim de trabalhar com os alunos os 
instrumentos capazes de decodificar esta realidade e suas relações com o 
panorama mundial. 
 
A forma como coordenam a prática escolar demonstra 
insegurança em relação ao caminho proposto. Percebo que falta um corpo de 
educadores, que ocupem os setores do ensino, capazes de colocar em prática uma 
educação problematizadora que assuma desafios de enfrentar antigas concepções 
educacionais que se sustentam pela ideologia que a condiciona. 
 Direcionando o olhar para pontos estratégicos de escolas que 
professam a educação católica, pude constatar que as mesmas são extremamente 
avançadas em seus projetos, mas percebo, através das indagações, que grande 
parte dos profissionais que as compõe possuem dificuldades em realizar, na prática, 
uma educação que seja a expressão da proposta evangelizadora, conforme seus 
projetos educativos. Apresenta-se, portanto, um tensionamento no qual esses 
campos ocupados por alguns educadores com visões liberais e conservadoras 
acabam entrando em contradição com a proposta do projeto. Percebe-se uma 
reação contrária que agi no sentido de dificultar propostas ousadas e coerentes com 
a teoria dos marcos doutrinais destes colégios. 
Certa vez escutei de uma professora a seguinte afirmativa: 
-\u201cFalar dos excluídos é cansativo; é preciso abordar 
outras coisas que sejam atrativas para os alunos. Fica muito 
repetitivo\u201d( Profª Rosa). 
 
Esta referência foi feita no período correspondente à Semana 
da Pátria, quando, no dia 7 de setembro, há uma manifestação a nível nacional que 
se denomina \u201cGrito dos Excluídos\u201d. Tal colocação foi feita como crítica a um trabalho 
desenvolvido por uma professora e que estava sendo realizado em sintonia com a 
manifestação popular citada. O exemplo demonstra o quanto é difícil trabalhar com 
temas problematizadores, mesmo nos campos educacionais que optaram, na teoria, 
pela \u2018mudança das estruturas sociais injustas\u2019. 
 
Muitos educadores, ao ingressarem na escola, não possuem 
clareza do marco doutrinal que alimenta os ideais da instituição. Penso que isto 
demonstra a dificuldade, dos setores e direção, em formar um grupo coeso que 
possa engajar-se no esforço da luta por um fazer diferente e optar por uma trajetória 
educacional que esteja à luz de um projeto emancipatório. 
Um projeto político-pedagógico busca um rumo, uma direção. 
Nas palavras de Gadotti: 
 
\u201cTodo projeto supõe rupturas com o presente e 
promessas para o futuro. Projeto significa tentar quebrar um 
estado confortável para arriscar-se, atravessar um período de 
instabilidade e buscar uma nova estabilidade em função da 
promessa que cada projeto contém de estado melhor do que o 
presente. Um projeto educativo pode ser tomado como 
promessa frente a determinadas rupturas. As promessas 
tornam visíveis os campos de ação possíveis, comprometendo 
seus atores e autores\u201d (Gadotti, 1994, p. 57). 
 
 
Na colocação de Gadotti, os projetos pedagógicos, apontam 
para um horizonte que quebre o estado de coisas do presente, buscando a 
superação das contradições que se apresentam na realidade atual. 
Pelas manifestações de suas práticas se evidência uma 
dissociação daquilo que se propõem às congregações de ensino. Embora existam 
tentativas, no caminho da inovação, que não podem ser desprezadas, as mesmas 
apresentam dificuldades de evoluírem e avançarem na prática constante da escola. 
 Este dilema apresenta-se também em relação às famílias que 
procuram as instituições católicas para educarem seus filhos, onde grande parte, 
dos pais e mães, desconhecem ou não levam em conta o teor do projeto político-
pedagógico da escola que escolheram para ajudar a educar seus filhos. Muitos 
justificam suas escolhas pela segurança que a escola oferece ou por a mesma 
localizar-se próximo ao local de moradia das famílias ou também pelo número de 
 
aprovações que o colégio obtém no vestibular das diferentes universidades, sendo 
as federais, padrão de qualidade para aquelas instituições de ensino que 
conseguem fazer com que um maior número de alunos ingressem em seu campo. 
Camufla-se, com isto, a verdade na qual o sistema de ensino universitário é 
excludente, veiculando a falsa idéia que, somente os mais \u2018inteligentes\u2019 e aptos 
conseguirão ingressar nos cursos de graduação. Estes pensamentos alinham-se 
principalmente a aqueles pais e mães de melhor poder aquisitivo, cujos filhos estão 
em escolas particulares. 
Todas estas problemáticas que se apresentam no seio escolar, 
se constituem em empecilhos para colocar em prática uma educação 
libertadora/transformadora. 
O Brasil, por ser o maior país católico do mundo, apregoa o 
discurso da solidariedade. Este valor que possui muitos méritos é defendido nas 
escolas católicas e públicas. 
A opção preferencial pelos pobres e por um modelo de 
educação que se expressa por uma pedagogia libertadora, se constitui em matriz 
teórica que alimenta os ideais educativos de grande parte das escolas católicas do 
Brasil. São elementos desta opção de educação que nutrem o texto que se propõe a 
ser a utopia que ilumina as referidas escolas. 
Mergulhadas em um contexto conservador e ideologizado, tais 
escolas acabam por se acomodar ao pensamento dominante, não conseguindo 
colocar em prática os avanços de seus projetos educativos, cujos textos estão 
recheados de valores humanitários. 
A escola, ao postar-se como um \u2018forte\u2019 fechando-se em si 
mesmo, acaba por reforçar os mecanismos geradores e reprodutores das diferenças 
sociais, distanciando-se da prática, cujo intuito é o de ajudar a construir uma 
 
sociedade utopicamente almejada. Com isto, perde-se a essência do referencial 
fundamentado no humano com vista para o universo da utopia que impulsiona a 
buscar saídas e possibilidades, em meio aos limites e obstáculos que a realidade, 
como um todo, impõe. 
Freire, ao falar do educador transformador, expressa a seguinte 
idéia: 
\u201cSe a educação sozinha não transforma a sociedade, 
sem ela tampouco a sociedade muda. Se a nossa opção é 
progressista, se estamos a favor da vida e não da morte, da 
eqüidade e não da injustiça, do direito e não do arbítrio, da 
convivência com o diferente e não da negação, não temos 
outro caminho senão viver plenamente a nossa opção. 
Encarná-la, diminuindo assim a distância entre o que fizemos e 
o que fazemos\u201d (Freire, 2000, p. 67). 
 
 
O compromisso com a transformação está associado ao 
comprometimento com o conhecimento da realidade, na medida em que o sujeito vai 
se tornando consciente dos mecanismos que engendram a sociedade, gerando a 
miséria. Estes mecanismos são a força motriz do capitalismo, que lucra as custa da 
fome, que mata e que atrofia gerações no mundo. Com isso se pode entender o 
porque este sistema tenta impedir uma escola que persiga uma educação realmente 
crítica e radical, capaz de interpretar esses fenômenos expondo demasiadamente 
pontos nevrálgicos do capitalismo, desocultando seu funcionamento e escancarando 
suas contradições. 
Acredito que é fundamental fomentar uma visão que seja capaz 
de ganhar força e voz nas escolas para estimular novas práticas educativas 
coerentes com um projeto de sociedade nova. 
Penso que um projeto político-pedagógico libertador supõe o 
engajamento e a participação coletiva dos professores comprometidos em uma linha 
de ação que tenha como objetivo a transformação social. Para isso, a leitura crítica 
 
da realidade depende da visão de mundo do educador e do projeto de sociedade 
que a instituição escolar pretende ajudar a construir. Para tanto, a união em torno de 
uma meta é essencial na busca da articulação entre a teoria