A escola perdeu sua função social no Brasil forum
234 pág.

A escola perdeu sua função social no Brasil forum


DisciplinaFundamentos918 materiais3.121 seguidores
Pré-visualização49 páginas
Em 2002, ao participar de um congresso da AEC, no Paraná, encontrei a diretora (que ainda permanece no 
cargo) e relembrei parte de minha história, dos tempos educadores em que comecei a contestar o sistema de ensino. Percebi 
que não guardo mágoas. Que bom. 
 
 
Percebi que o trabalho do professor é fazer o aluno se debruçar 
sobre a realidade, tentando entendê-la. E para ajudar o aluno a entender e a se 
posicionar, o professor precisa lançar mão da cultura construída pela humanidade. 
Entendi que o papel social, enquanto educador, é ajudar a mediação aluno-
conhecimento-realidade. Comecei a pensar sobre a \u201cPrática Pedagógica\u201d e como 
vencer a alienação deste trabalho. 
A partir disso, comecei a coordenar projetos de formação 
humana e política no Colégio Glória, de educação católica. 
Assim, várias atividades foram trabalhadas, a partir de 1998, 
das quais citarei apenas duas que foram extremamente significativas e que 
marcaram história em nossa escola. A primeira delas foi à divulgação do abaixo-
assinado, liderado pela Comissão Brasileira de Justiça e Paz pela aprovação do 
Projeto de Lei, de iniciativa popular, para combater a corrupção eleitoral. Foram 
realizados debates a respeito do tema \u2018participação política\u2019, que levaram alunos e 
pais a se envolverem na campanha. A segunda, que é a razão de minha escolha 
para o curso de pós-graduação na área da educação, diz respeito à minha 
aproximação, juntamente com meus alunos, do Movimento dos Trabalhadores 
Rurais Sem-Terra (MST). Vários trabalhos foram desenvolvidos no Colégio Glória 
com a participação do MST e da Comissão Pastoral da Terra (CPT). Esta 
aproximação foi feita através de seminários, palestras, dinâmicas de aula com os 
\u201csem-terrinhas\u201d (crianças do MST), feiras e outras atividades extremamente 
significativas e enriquecedoras. O livro \u201cPara uma Melhor Distribuição da Terra\u201d, 
versão popular escrita por Frei Betto, a pedido da CPT, serviu como referencial 
teórico para os debates, com e entre alunos, a respeito do desafio de resgatar a 
terra como bem social. Este livro é a versão popular do documento lançado em 
1998, pelo Conselho de Justiça e Paz do Vaticano. Trata-se da palavra oficial da 
 
Igreja Católica a respeito da Reforma Agrária. O professor Pedrinho Guaresqui 
auxiliou-me nesta \u2018ousadia\u2019, incentivando-me e proferindo palestra pertinente aos 
movimentos sociais, a quem devo agradecimentos. 
Não foi tarefa fácil colocar em prática esse trabalho na escola. 
Por incrível que pareça, a reação maior veio por parte de alguns professores e pais 
possuidores de visões e concepções constituídas a respeito dos movimentos sociais. 
O desenvolvimento deste trabalho provocou e continua provocando reações de 
professores considerados \u201cprogressistas\u201d. Muitos respaldam suas idéias a partir de 
informações veiculadas pela mídia, o que impossibilitou a continuidade do projeto. 
Tive que recuar para continuar avançando. Não desisti, apenas mudei minhas 
estratégias de ação no cenário da escola. Continuo sonhando o \u2018sonho possível\u2019, na 
busca de uma educação emancipatória. Ir contra o pensamento reacionário e 
conservador é extremamente importante para que todos possam viver dignamente. 
É preciso ter presente que todo conflito é significativo e pode fortalecer a resistência 
e a disposição da luta, contribuindo para que algo novo surja (transformação). 
Todas estas questões e situações, que vivi como professora, 
fizeram-me buscar fundamentação teórica que respaldasse minha prática, 
perseguindo instrumentos que me ajudassem a entender e a enfrentar os constantes 
dilemas do espaço escolar. 
Com isso, voltei aos bancos universitários, ingressando em 
2002 no Curso de Mestrado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul 
(UFRGS), na linha de pesquisa \u2018Trabalho, Movimentos Sociais e Educação\u2019, por 
considerar a importância da relação das três esferas citadas no âmbito da educação. 
A realização das diferentes disciplinas que cursei, durante o 
mestrado nesta universidade, os diferentes autores que li e com quem dialoguei, os 
 
trabalhos que realizei e os debates com colegas e professores foram extremamente 
significativos para a construção do meu trabalho de dissertação. 
Concluindo esta etapa de minha vida, pretendo continuar 
minha caminhada como aprendente e educadora, defendendo a escola como um 
espaço significativo de luta por uma sociedade alternativa que respeite a vida e o 
planeta em que vivemos, buscando articular teoria e prática, vencendo obstáculos, 
ou seja, enfrentando dificuldades e assumindo os desafios da desconstrução do 
modelo reprodutor para a edificação do fazer profético de uma sociedade nova. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
2.2 Caminhos percorridos na busca de respostas e de novos 
 fazeres: procedimentos metodológicos 
 
 
 
 
Este trabalho nasceu das constantes indagações que fiz e 
continuo fazendo, como educadora, no ambiente escolar. Convivendo no espaço da 
escola, como trabalhadora da educação, percebo os obstáculos1 que fream um novo 
fazer educativo, mas que, ao mesmo tempo, instigam a desafios na busca de uma 
prática transformadora, na qual homens e mulheres se tornem \u201csujeitos de sua 
própria educação\u201d (Freire, 1999, p. 28). 
O problema de pesquisa surgiu de minha procura por 
respostas, na medida em que fui detectando conflitos e contradições nos caminhos 
que trilhei e continuo trilhando como professora. 
 
 
1 Ao longo da dissertação uso termos como \u2018dilemas\u2019, \u2018empecilhos\u2019, \u2018problemas\u2019, empregando-os num sentido semelhante ao 
que dou à palavra \u2018obstáculo\u2019, ou seja, tudo aquilo que dificulta uma prática escolar transformadora. 
 
 
 
Portanto, partindo de minha vivência, busco aprofundar o tema 
\u201cO Papel da Escola\u201d e, através da investigação, preencher algumas lacunas para 
uma compreensão mais ampla e crítica do contexto educacional e do cotidiano 
escolar. 
Devido à complexidade do objeto de estudo, busco investigar, 
através de uma pesquisa que leva em conta a interação dinâmica entre os dados da 
totalidade, perseguindo uma postura crítica e de permanente repensar, para a 
compreensão do papel que a escola desempenha na educação brasileira. 
Para focar meu olhar sobre os espaços educacionais e sobre 
os sujeitos, procuro uma metodologia cujos caminhos descrevo agora. 
Minha pesquisa se desenvolve no colégio particular Nossa 
Senhora da Glória e tem o perfil de uma investigação qualitativa para coleta e 
análise dos dados. Esta escola localiza-se no bairro Glória, em Porto Alegre, e 
pertence à Congregação do Imaculado Coração de Maria (ICM). Não estudo a 
forma e o funcionamento desta escola e, portanto, não se constitui em um 
estudo de caso. Assim, as conclusões que apresento não se restringem apenas a 
este espaço de estudo. Partindo do cenário desta instituição de ensino, busco 
entender, através de respostas que foram se evidenciando, com as indagações, os 
problemas e, sobretudo, os desafios necessários que possibilitem perseguir uma 
educação que extrapole o espaço da escola. 
É um colégio católico no qual o Projeto Educativo tem o 
compromisso com a \u201cEducação Evangélico-Libertadora fundamentada no projeto 
libertador de Jesus Cristo, em fidelidade à Igreja na América Latina e ao projeto 
pedagógico de Bárbara Maix\u201d (Projeto educativo - ICM, p. 39), documento tomado 
como referência oficial para a análise da concepção da escola sobre si mesma, em 
termos oficiais. 
 
Assim, as religiosas afirmam que se propõem a \u201cassumir uma 
educação com compromisso efetivo com a