A escola perdeu sua função social no Brasil forum
234 pág.

A escola perdeu sua função social no Brasil forum


DisciplinaFundamentos864 materiais3.093 seguidores
Pré-visualização49 páginas
que 
 
uma das razões da necessidade da ousadia de quem se quer 
fazer professora, educadora, é a disposição pela briga justa e 
lúcida em defesa de seus direitos como no sentido da criação 
das condições para a alegria da escola\u201d (Freire, 1997, p. 81). 
 
É necessário compreender as questões fundamentais que se 
colocam no contexto da existência humana, assim como a capacidade de perceber 
as ligações entre as várias dimensões da realidade. Com isso, entendo que num 
processo educativo o conhecimento não pode ser um mero encadeamento formal de 
conceitos, mas um instrumento indispensável para a compreensão crítica dos 
problemas que despontam no mundo. O conhecimento a que me refiro visa entender 
os dilemas que emergem em nossa vivência como seres sociais, compreendê-los e 
vislumbrar as possibilidades de agir e encaminhar soluções. 
 O grande desafio que se coloca à escola, hoje, é desenvolver 
um saber onde teoria e prática se articulem organicamente. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 4.3 Obstáculos e Desafios do \u2018ser\u2019 professor 
 
 
 
 
Muitos são os obstáculos e desafios a serem enfrentados pelos 
educadores frente ao contexto em que a escola e a educação estão inseridas no 
Brasil. 
A educação reproduz modelos e condiciona a uma prática 
imitativa burocratizada. O que predomina é a razão técnica. Por isso, diz-se que o 
sistema é tecnicista. 
O caráter básico do sistema de educação formal impõe normas 
conservadoras e incrementa a unificação de idéias, reduzindo as possibilidades de 
participação efetiva dos indivíduos. 
Dentro dessa concepção da educação, o professor é um 
agente de controle ou de reprodução de elementos acumulados historicamente. 
Diante desse quadro, apresentam-se questionamentos a respeito do papel do 
educador frente às imposições e aos limites impostos na busca de um outro tipo de 
educação que seja dialógica, que rompa com o predomínio das aulas tradicionais 
 
expositivas, cuja essência é o repassamento de conteúdos, e de uma escola que 
conteste o sistema estabelecido. 
Segundo Vasconcellos (1992), a metodologia expositiva ainda 
é uma constante em nossa escola. Herdeira direta do paradigma positivista, essa 
metodologia caracteriza-se pelo cunho academicista, por raízes atreladas à 
\u201cpedagogia liberal e tradicional\u201d. 
Afirma ainda Vasconcellos: 
 
\u201cApesar de, no discurso, haver rejeição a essa 
postura [a tradicional], no cotidiano da escola verifica-se que é 
a mais presente..., talvez nem tanto pela vontade dos 
educadores, mas por não saber como efetivar uma prática 
diferente\u201d (Vasconcellos, 1992, p.29). 
 
 
É possível verificar a presença de métodos tradicionais através 
das falas dos sujeitos da escola: 
\u201cO que importa para os professores é dar a matéria e 
despejar o conteúdo, e depois nos ralam na prova. Acham que 
só a matéria dele que existe (Daniel)\u201d. 
 
\u201cEu dou o conteúdo. Explico a matéria, mas fazer 
trabalho é difícil para corrigir, é muito trabalho para o professor. 
Explico e faço prova\u201d (Profª Jacira). 
 
 
Na educação tradicional há um fechamento no pedagógico, 
com o cumprimento do programa, não se abrindo para o essencial que é a 
transformação da realidade, permanecendo presa aos velhos esquemas de ensino 
de transferência do conhecimento. 
Nessa educação, os professores estão distanciados dos alunos 
e são os donos do saber e da autoridade. Sua palavra é inquestionável. Ao aluno 
cabe a passividade, transformando-se em recipiente de informações. 
Shor não é contra a aula expositiva, mas a problematiza: 
 
 
\u201cUm problema sobre que devemos falar, quanto à 
aula expositiva, é o fato de os professores a considerem como 
a forma profissional correta de ensinar. Ela lhes é apresentada 
durante sua formação profissional como a pedagogia do 
profissional, do expert. Os professores assistem a tão poucas 
boas discussões em classe que evitam testar suas próprias 
habilidades como líderes de discussões\u201d (Freire, Shor, 2003, p. 
57). 
 
 
A organização da prática educativa reflete a visão que se tem 
do mundo e da compreensão das estruturas e das contradições sócio-político-
econômicas de uma sociedade concreta. A metodologia é uma forma externa da 
conscientização do educador que se manifesta no seu próprio modo de agir. 
O contato com os professores que atuam nos sistemas de 
ensino permite dizer que boa parte deles tem suas concepções ligadas a uma 
abordagem tradicional, reflexo talvez, da formação escolar e acadêmica que tiveram. 
Nesse cenário é forte a metodologia expositiva. Segundo Shor 
(2000), as escolas estão montadas para comercializar as idéias oficiais e não para 
desenvolver o pensamento crítico. 
Existe uma parcela considerável de professores que não 
estabelece nexo de relação entre sua fala, que tem criticidade, e a sua prática em 
sala de aula, geralmente conservadora. Muitos se consideram evoluídos e até 
criticam a educação reprodutivista, mas dentro da sala de aula cometem, através de 
suas práticas autoritárias, verdadeiros crimes contra os discentes. 
Isso se evidencia, principalmente, em relação a alunos com 
necessidades especiais e/ou com histórias de vidas conflituosas e que, portanto, 
trilham uma caminhada diferente dos demais. 
A expressão abaixo, proferida em um conselho de classe, 
ilustra o que quero dizer: 
 
 
\u201cEla não sabe nada; não tem condições de seguir 
nas séries seguintes; não consegue acompanhar os demais. A 
prova dela é um desastre, sem coerência\u201d. 
 
 
A dificuldade de olhar para esses alunos, aceitando o seu 
tempo e aquilo que podem oferecer, rotula-os estes discentes como incapazes de 
aprender, tornando-os vulneráveis à reprovação. 
O problema da formação de professores no seio das 
universidades é um dos empecilhos a serem encarados no sistema educacional 
brasileiro. O perfil dos novos educadores, que são lançados no sistema de ensino, 
tende a reproduzir as práticas que aprenderam ao longo de suas vivências como 
estudantes do Ensino Fundamental e Médio e que mantiveram no campo 
universitário. 
Diante desse obstáculo, é necessário questionar os cursos de 
licenciatura. Eles estão preparando os alunos para lidar com novas abordagens, 
despertando a necessidade de construção do conhecimento histórico através de 
categorias de pensar por meio de metodologias próprias? Qual o educador o sistema 
de ensino quer ou precisa formar? 
Muitos professores, formados pelo ensino superior, não sabem 
o que dizer a seus alunos senão repetir-lhes fórmulas prontas e mal compreendidas 
que ouviram na universidade. Percebo que os professores jovens e recém formados 
que ingressam na escola como prfissionais, tendem a reproduzir o que lhes foi 
ensinado no curso de licenciatura. 
A essência da afirmação está presente nas falas das 
professoras, sendo que Tereza está concluindo seu curso de graduação: 
 
 
\u201cA escola tem que manter a imagem. Os alunos 
precisam estudar. Os resultados elevam o nome da escola. Se 
o aluno não sabe, não pode ser aprovado\u201d (Profª Tereza). 
 
\u201cOs trabalhos devem ser feitos individualmente. É 
isto que é cobrado lá fora. O grupo não estará com ele para 
resolver seus problemas\u201d (Profª Soraia). 
 
 
A fragilidade da formação dos profissionais da educação, com 
forte conotação ideológica conservadora, impede a realização de uma prática 
transformadora. Impera no cotidiano escolar um discurso progressista, enquanto a 
prática demonstra posturas tecnicistas. 
As sociedades atuais encontram-se em processo de profundas 
transformações, pois não são estáticas. Os sistemas