A escola perdeu sua função social no Brasil forum
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A escola perdeu sua função social no Brasil forum


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fenômenos, mais 
perceberão suas incompletudes e contradições, deixando de serem meros 
espectadores/ouvintes para assumirem-se como sujeitos participantes dos seus 
processos educativos. 
Atualmente, debatemo-nos em contradições no fazer 
pedagógico: entre teoria e prática, entre ciência e poder, entre o discurso dos 
detentores do saber e dos despossuídos do mesmo. Entre o discurso da mudança e 
a efetivação das ações existe um grande caminho a percorrer. A coerência do agir 
com o pensar nos apresenta um compromisso que não é fácil de assumir. A 
articulação entre teoria e prática é um desafio que exige riscos e, para isso, é 
preciso quebrar padrões e ir contra a corrente que dita e impõe princípios. 
Um trabalho docente realmente crítico mostra as possibilidades 
de fazer frente aos desafios do presente e do futuro. Os profissionais de uma 
educação transformadora necessitam ter clareza da especificidade do concreto e o 
que realmente significa uma prática política emancipatória, questionando-se 
constantemente: Qual é a sociedade a ser transformada? Qual a cultura a ser 
transmitida ou minada? A favor de que classe social colocamos nosso 
 
conhecimento? Quais são as bases filosóficas da educação transformadora e o que 
fundamenta essa educação? 
A dimensão política da educação emerge quando o sujeito 
começa a questionar suas próprias ações e a finalidade das mesmas, identificando o 
que está no cerne dos problemas. A tomada de consciência dos mestres consiste na 
captação correta e crítica dos mecanismos que regem os processos naturais e 
humanos, possibilitando transformá-la em uma metodologia capaz de perceber as 
contradições básicas de uma situação real e que oportunize a procura das causas, 
muitas vezes ocultas, que geraram as desigualdades e a pobreza no mundo, 
visando, com isso, ao engajamento dos sujeitos sociais no processo ativo de 
transformação da realidade. 
Para Freire (1979) \u201ca consciência é temporalizada. O homem é 
consciente e, na medida em que conhece, tende a se comprometer com a própria 
realidade\u201d. 
Acredito que o compromisso social do professor é significativo 
para ajudar a colocar a educação no terreno iluminado pelos grandes valores da 
formação humana, rompendo com a pedagogia dominada pelo capital, e, assim, 
trabalhar diretamente com a realidade, respeitando as necessidades e evidenciando 
as dificuldades da criança brasileira. 
A luta pela libertação exige a decodificação das artimanhas 
engendradas pelo sistema visando a sua perpetuação, procurando dar voz ao que é 
silenciado pelo pensamento dominante, para que se possa recriar organicamente 
um modelo econômico onde a liberdade se assente em bases concretas de justiça 
social. É uma permanente busca da criação e recriação de diferentes formas de 
organização cujas lutas e conquistas sejam em prol do povo. 
 
A libertação surge como uma esperança para aqueles que 
ficam à margem do sistema, sobrevivendo de migalhas desumanizantes, mas 
representa, ao mesmo tempo, uma ameaça à classe detentora do poder econômico 
e do poder político, não só no Brasil como também no mundo. 
O objetivo da educação libertadora se contrapõe aos métodos 
de preparação técnica para o mercado. O seu caráter político-pedagógico vem se 
definindo como uma prática social que, levando em conta o conhecimento, possui 
uma intencionalidade política. Portanto, é uma forma de fazer política na escola e, 
conseqüentemente, de assumir a autenticidade da educação e seu perfil 
transformador sem inibi-lo no processo educativo. 
O grande desafio do educador é lutar por alternativas 
pedagógicas que favoreçam a formação de um novo tipo de pessoa, solidária, 
preocupada em superar o individualismo. A reeducação dos educadores é possível e 
necessária para não deixar que a escola mate a capacidade de interpretação e 
compreensão crítica do mundo. 
Perceber e entender táticas ideológicas que fazem do povo 
\u201cmassa de manobra\u201d é fundamental para desmascarar quem dela se beneficia, 
buscando o enfrentamento dessa situação. O papel do mestre, enquanto educador, 
é essencial no espaço da escola para se compreender como a máquina funciona, 
desnudando-a. A educação sozinha não pode fazer a transformação, mas ela é 
parte constitutiva na luta pela mudança. 
Encontro em Gadotti (1998) uma análise adequada acerca da 
educação enquanto uma das ferramentas de mudança. Ele afirma que é equivocada 
a tese de que nada é possível fazer na educação enquanto não houver uma 
transformação da sociedade, porque a educação é dependente da sociedade. Diz 
 
ainda que se é verdade que a educação não pode fazer sozinha a transformação 
social, também é verdade que ela não se efetivará e não se consolidará sem ela. 
Uma outra pedagogia é possível mesmo num sistema 
educativo constituído para a reprodução. Na medida em que a educação mantém a 
sociedade, ela também reproduz as contradições, expondo sua precariedade. 
Penso que o \u2018educar\u2019 precisa se organizar em torno de eixos 
que não podem estar alheios a um projeto político-pedagógico: o cotidiano, a 
educação para uma cidadania efetiva, a construção de uma prática dialógica e a 
afirmação incondicional da dignidade humana. 
Na pedagogia transformadora é inerente a busca ativa e 
rigorosa dos educandos e educadores no aprofundamento analítico do real, 
reconhecendo a importância do saber gestado na prática social de classe, expondo-
o à luz interpretativa, transformando os conhecimentos em um saber crítico e 
desmistificador da realidade histórica. Para isso é desejável que haja coerência entre 
a identidade da escola e do educador com a prática escolar, ou seja, que haja uma 
afinidade entre professor e projeto-pedagógico, no sentido de que ocorra uma 
coesão na linha de ação da escola. 
Não podemos deixar de reconhecer que vivemos em uma 
sociedade de classes, onde interesses divergentes se embatem na preservação das 
estruturas de poder, e uma opção é necessária no aglutinamento de forças, para 
que o projeto educativo esteja alinhado com uma práxis escolar capaz de resistir e 
lutar no interior do sistema envelhecido. Para Nosella (2000) é no interior das lutas, 
na forma que modernamente se desenvolvem, que acontece o processo educativo 
do novo cidadão. 
A educação só pode ser estimulante e útil na medida em que 
possa mostrar concretamente os primeiros passos a dar na superação das 
 
contradições, que ela mesma põe em evidência, delineando horizontes projetados 
pelo espírito da união entre as diversas forças sociais, visando o enfrentamento 
político, forjando uma nova organização de poder, fazendo emergir outras 
possibilidades de constituição da vida social. 
Não envolver a escola na vida social é negar o caráter 
transformador dos projetos educativos fundamentados na libertação e condenar o 
corpo escolar à adaptação e ao comodismo do silêncio. O silêncio é a linguagem das 
sociedades que sucumbem ao modelo estabelecido, reforçando-o na medida em 
que desconsidera suas contradições e não as assume como ferramentas na 
construção de um modelo revolucionário capaz de alterar a situação vigente. 
Encontro no pedagogo russo Pistrak uma argumentação que 
reforça esse pensamento: 
 
\u201c... para transformar a escola e para colocá-la a 
serviço da transformação social não basta alterar os conteúdos 
nela ensinados. É preciso mudar o jeito da escola, suas 
práticas e sua estrutura de organização e funcionamento, 
tornando-a coerente com os novos objetivos de formação de 
cidadãos capazes de participar ativamente do processo de 
construção da nova sociedade\u201d (Pistrak, 2000, p. 08). 
 
Para auxiliar na nova edificação social, os protagonistas da 
educação