A escola perdeu sua função social no Brasil forum
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A escola perdeu sua função social no Brasil forum


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inspiram-se na construção de uma pedagogia centrada na idéia do 
coletivo, rompendo com a visão individualista e segregadora, vinculando-se ao 
movimento mais amplo de transformação. Nessa caminhada alternativa de 
construção de uma outra educação, as pequenas ações contra as forças 
mantenedoras do \u2018status quo\u2019, que dificultam o câmbio, são de extrema importância 
para recriar com criatividade e rebeldia as práticas e a organização da escola. 
 
Não basta fazer algumas reformas nos currículos e conteúdos 
escolares ou repensar o processo de avaliação. Concordo que isso também é 
preciso, mas não é tudo. É necessário que o corpo docente esteja disposto a 
assumir uma postura libertadora - transformadora na qual a educação seja um 
campo onde as diferentes áreas do saber estejam interligadas por um projeto 
educativo, cúmplice das mudanças. Nesse sentido, a formação política e teórica 
consistente, é essencial para fornecer instrumentos capazes de questionar a 
realidade, que ora se apresenta, criando condições, que possibilitem interpretar as 
relações de força estabelecidas no sistema, capacitando os sujeitos a lerem 
criticamente o mundo. 
Considero significativo concluir esse capítulo com um texto 
elaborado por duas alunas do segundo ano do Ensino Médio em uma aula de 
Sociologia: Janaína Vianna e Raquel Fraga Tortelli. Estes são nomes verdadeiros e 
cito-os por reconhecer a grandiosidade do texto. 
 
\u201cDeus criou a natureza e o ser humano, mas quem 
organizou as formas de convivência ou os modos de se viver 
em sociedade, foram os próprios homens. Sendo assim, eles 
são os responsáveis pela desigualdade social existente em 
todo o mundo. Por serem egoístas, inventaram um sistema que 
divide os seres humanos em ricos e pobres, fortes e fracos, em 
que só quem tem o poder econômico é quem tem valor. No 
mundo das desigualdades sociais poucos têm muito e muitos 
têm pouco, ou quase nada. O lucro e os benefícios da 
sociedade moderna se encontram nas mãos de poucos, ao 
contrário da grande maioria, que está marginalizada. As 
conseqüências deste sistema geram a miséria, a violência, o 
desemprego e as grandes frustrações dos indivíduos e das 
massas. Portanto, as desigualdades sociais são criações 
humanas e cabe, a grande maioria, através de sua união e de 
mudança de valores, alterar este sistema discriminatório, 
formando um sistema mais igualitário e justo, em que pesem 
mais a cooperação em vez da competição, a qualidade em vez 
da quantidade, a parceria em vez da dominação\u201d. 
 
 
Assumir uma práxis estando atento às necessidades da 
sociedade que os problemas sociais põem em evidência é significativo para que o 
professor transformador pense o seu papel de mestre e sua importância, na medida 
em que tem, em suas mãos, as gerações futuras que, como o resultado de hoje, 
poderão manter ou romper com as práticas sociais injustas. 
É através de uma concepção dialética da história, na qual 
teoria e práxis humana façam surgir novas possibilidades, onde a escola possa 
voltar o olhar e se transformar em um ambiente rebelde de denúncias e de 
construção de alternativas ao modelo reprodutor. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 5. Considerações finais 
 
 
 
 
 
Todos esses obstáculos que se colocam para a escola não são 
por acaso, mas construídos pelo modelo de sociedade que se formou nos últimos 
séculos e que apregoa sua consagração nos dias atuais. 
É difícil, para o sistema de ensino, submerso em um contexto 
onde é parte inerente, construir o diferente e romper com as práticas arraigadas no 
sistema de ensino. A criatividade é limitada nesse modelo na medida em que o que 
interessa são homens e mulheres capazes de \u2018aprenderem\u2019 conforme os seus 
moldes. 
Fazer uma leitura do mundo com um olhar crítico é perigoso ao 
sistema, e, por isso, é preciso dificultar as fontes de questionamentos capazes de 
discernirem sobre as ideologias que o sustenta. Ele domina o cotidiano escolar, pois 
é do trabalho acrítico que o capitalismo precisa para seu funcionamento. 
 
A suposta camaradagem, tão apregoada nos dias de hoje pelo 
modelo, o equilíbrio emocional e o bom relacionamento entre os colegas fazem parte 
do discurso das grandes empresas nos dias atuais. Mas é uma retórica superficial, 
condicionante e aparente que, encoberta pela cordialidade e cumplicidade dos 
membros da empresa, acaba por se tornar um instrumento de manipulação que 
impede a união em torno de uma causa entre os trabalhadores. O conflito é 
escamoteado na aparente harmonia. Quem contesta ou discorda acaba por ser 
rotulado e punido, muitas vezes, com a demissão. Isso conduz grande parte dos 
trabalhadores à acomodação e à resignação frente a situações que necessitam de 
organização, resistência e luta dos homens e mulheres que vivem do trabalho. O 
sistema é reproduzido no bojo da escola, preparando os alunos para a aceitação do 
mundo competitivo e individualista. 
Esse tipo de ensino, comum nas escolas, não conduz à 
formação de uma consciência de luta pela transformação social e de novas 
condições de trabalho. A obtenção do conhecimento historicamente produzido e a 
geração do conhecimento novo totalizante ficam comprometidas nesse modelo de 
educação. 
Hoje, no Brasil, é possível perceber avanços na área do saber 
e muitas escolas de diferentes cidades estão na luta para a construção de uma 
educação realmente democrática e plural e que servem de inspiração e incentivo 
para o desafio da construção de um outro sistema de ensino. 
Embora essas experiências sejam significativas e nos sirvam 
de exemplo no sentido de que a luta e a esperança na educação não acabaram, 
considero que um diagnóstico situacional do sistema escolar é fundamental para 
percebermos as contradições que seus mecanismos colocam em evidência. 
 
A realidade de cada escola no Brasil faz parte de um contexto 
maior que é o universo da educação brasileira. As pequenas ações são importantes 
no câmbio histórico da educação, sendo significativo o espírito de luta dessas 
experiências, que precisam ser vistas como uma contribuição na área educacional, 
como semente que, se forem regadas, poderão germinar e gerar um outro sistema 
de ensino. 
Uma concepção verdadeiramente democrática de educação 
necessita partir de uma perspectiva radicalmente diferente da que defende as 
políticas neoliberais. O atual sistema de ensino nos apresenta obstáculos que 
precisam ser transpostos se realmente queremos construir um espaço escolar 
gestador de novas concepções e novas metodologias que articulem teoria e prática. 
Ir contra a corrente, assumir o espírito da luta e se contrapor ao currículo formal da 
escola, que condiciona segundo interesses de afirmação do sistema, exige o 
compromisso com o câmbio histórico. 
Penso que é importante lutar contra o princípio que se deriva 
da competição mercantilista do funcionamento social, perseguindo princípios éticos 
que abram espaços para a igualdade de oportunidades sustentando as bases de 
uma sociedade democrática. 
Entendo que não se pode defender o princípio empresarial 
produtivista da qualidade e ao mesmo tempo não aceitar as conseqüências 
discriminatórias que ele produz. A profundeza das tendências discriminadoras está 
entranhada em nosso sistema educacional; é uma conseqüência inevitável dos 
princípios que regulam o mercado onde tudo se compra e se vende, inclusive a 
educação, e onde o próprio saber se torna instrumento de barganha, fonte de lucro e 
ferramenta de poder nas mãos daqueles que se apropriam do conhecimento. 
 
Considero que algumas questões são importantes