Direitos do Consumidor
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Direitos do Consumidor


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Ltda.
Advogado: Norma Teresinha Franzoni e outro(s)
Recorrido: Maria de Lourdes Amândio Machado
Advogado: João David Folador
Interes.: Marcelino Grimm
Advogado: Marco Aurélio Zandoná
Interes.: Pedro Augusto Ramos da Silva
Advogado: Sem Representação nos Autos
EMENTA
RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO. RESPONSABILIDADE 
CIVIL. ERRO MÉDICO. NEGLIGÊNCIA. INDENIZAÇÃO. RECURSO ESPECIAL.
1. A doutrina tem afirmado que a responsabilidade médica empresarial, no 
caso de hospitais, é objetiva, indicando o parágrafo primeiro do artigo 14 do Có-
digo de Defesa do Consumidor como a norma sustentadora de tal entendimento.
Contudo, a responsabilidade do hospital somente tem espaço quando o dano 
decorrer de falha de serviços cuja atribuição é afeta única e exclusivamente ao hos-
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pital. Nas hipóteses de dano decorrente de falha técnica restrita ao profissional mé-
dico, mormente quando este não tem nenhum vínculo com o hospital \u2013 seja de 
emprego ou de mera preposição \u2013, não cabe atribuir ao nosocômio a obrigação de 
indenizar.
2. Na hipótese de prestação de serviços médicos, o ajuste contratual \u2013 vínculo 
estabelecido entre médico e paciente \u2013 refere-se ao emprego da melhor técnica e 
diligência entre as possibilidades de que dispõe o profissional, no seu meio de atua-
ção, para auxiliar o paciente. Portanto, não pode o médico assumir compromisso 
com um resultado específico, fato que leva ao entendimento de que, se ocorrer 
dano ao paciente, deve-se averiguar se houve culpa do profissional \u2013 teoria da res-
ponsabilidade subjetiva.
No entanto, se, na ocorrência de dano impõe-se ao hospital que responda 
objetivamente pelos erros cometidos pelo médico, estar-se-á aceitando que o con-
trato firmado seja de resultado, pois se o médico não garante o resultado, o hospital 
garantirá. Isso leva ao seguinte absurdo: na hipótese de intervenção cirúrgica, ou o 
paciente sai curado ou será indenizado \u2013 daí um contrato de resultado firmado às 
avessas da legislação.
3. O cadastro que os hospitais normalmente mantêm de médicos que utilizam 
suas instalações para a realização de cirurgias não é suficiente para caracterizar 
relação de subordinação entre médico e hospital. Na verdade, tal procedimento 
representa um mínimo de organização empresarial.
4. Recurso especial do Hospital e Maternidade São Lourenço Ltda. provido.
ACÓRDÃO
Prosseguindo no julgamento, após o voto-vista do Sr. Ministro Sidnei Beneti, 
acompanhando o voto da Sra. Ministra Relatora, e dos votos dos Srs. Ministros 
Fernando Gonçalves e Aldir Passarinho Junior, conhecendo do recurso e dando-
-lhe provimento, acompanhando a divergência inaugurada pelo Sr. Ministro João 
Otávio de Noronha, o Sr. Ministro Ari Pargendler proferiu voto de desempate no 
mesmo sentido, e a Seção, por maioria, conheceu do recurso especial e deu-lhe 
provimento, vencida a Sra. Ministra Relatora e os Srs. Ministros Massami Uyeda e 
Sidnei Beneti.
Votaram com o Sr. Ministro João Otávio de Noronha os Srs. Ministros Ari 
Pargendler, Fernando Gonçalves e Aldir Passarinho Junior.
Não participaram do julgamento os Srs. Ministros Luis Felipe Salomão e Car-
los Fernando Mathias (Juiz convocado do TRF 1.ª Região), art. 162, § 2.º, RISTJ.
Presidiu o julgamento o Sr. Ministro Ari Pargendler.
Brasília, 27 de agosto de 2008 (data do julgamento)
MINISTRO JOÃO OTÁVIO DE NORONHA, Relator para o acórdão
Parte II \u2022 Cap. II \u2013 Responsabilidade Civil na Prestação de Serviços Médicos e Hospitalares | 57
RELATÓRIO
A EXMA. SRA. MINISTRA NANCY ANDRIGHI (Relator):
Cuida-se de recurso especial interposto por Hospital e Maternidade São Lou-
renço Ltda. (\u201cHospital\u201d), com fundamento no art. 105, inciso III, alíneas \u201ca\u201d e \u201cc\u201d, da 
Constituição Federal, contra acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça do Estado 
de Santa Catarina.
Ação: Maria de Lourdes Machado ajuizou ação de indenização por danos 
materiais e morais contra o Hospital e Maternidade São Lourenço Ltda., Marce-
lo Grimm e Pedro Augusto Ramos da Silva (fls. 2/8), alegando, em síntese, que 
foi submetida a cirurgia de varizes na perna esquerda e que, em decorrência de 
imperícia, teve seus nervos lesionados. A autora alegou ter perdido o movimento 
normal de sua perna, o que a impossibilita de mover os dedos dos pés, lhe causa 
dores e perda de equilíbrio, além de inviabilizar caminhada por mais de uma hora.
Sentença: O juízo de primeiro grau, em sentença (fls. 266/279) afastou a pre-
liminar de ilegitimidade passiva suscitada pelo Hospital por considerar que ele 
participou do faturamento e cedeu seus funcionários para o auxílio do cirurgião. 
Aceitou, entretanto, a preliminar de ilegitimidade passiva de Marcelo Grimm, con-
siderando que este \u201cnão teve nenhuma participação na cirurgia realizada na auto-
ra, nem mesmo como auxiliar, inexistindo qualquer conduta, dolosa ou culposa, por 
parte dele pessoa física\u201d(fls. 271). No mérito, considerou \u201cindubitável que do proce-
dimento cirúrgico resultou o comprometimento dos movimentos da perna, bem como 
do pé esquerdo da autora\u201d (fls. 272), que \u201co réu Pedro agiu de forma imprudente, 
negligente e imperita\u201d (fls. 273). Assim, o Hospital e Pedro Augusto Ramos da Silva 
foram condenados, solidariamente, a indenizar os danos materiais até então supor-
tados pela autora, a compensar-lhe os danos morais com a quantia de R$ 52.000,00 
e a lhe pagar pensão mensal vitalícia no valor de 1 (um) salário mínimo, incidindo 
correção monetária e juros desde a data da cirurgia.
Acórdão: Interposta apelação pelo Hospital e Maternidade São Lourenço 
Ltda. (fls. 283/289) e apresentadas as respectivas contrarrazões (fls. 295/302), o 
Tribunal de origem deu parcial provimento ao recurso, para tão somente limitar o 
prazo da pensão mensal até a data em que Maria de Lurdes Machado completar 65 
anos de idade, proferindo acórdão assim ementado (fls. 350/366):
\u201cApelação Cível. Ação de indenização por danos materiais e morais. Ilegitimidade passi-
va da entidade hospitalar. Questão que se confunde com o mérito. Erro médico. Cirurgia 
vascular. \u2018Retirada de varizes\u2019. Seção e lesão dos nervos da perna e do pé esquerdo. Da-
nos motores. Entidade Hospitalar. Cessão de equipamentos e dependências. Responsa-
bilidade solidária. Dever de indenizar. Quantum indenizatório. Critérios da razoabili-
dade e da proporcionalidade. julgamento ultra petita. Nulidade parcial. Pensão mensal 
vitalícia. Adequação da sentença aos limites do pedido. Pensionamento até os 65 anos 
de idade. Recurso parcialmente provido.
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Responde solidariamente pelos erros médicos ocorridos em suas dependências a entida-
de hospitalar que fornece sala, equipamentos e pessoal para médicos estranhos aos seus 
quadros, diante da incontestável retribuição financeira existente.
A indenização por danos morais deve ser fixada com ponderação, levando-se em conta o 
abalo experimentado, o ato que o gerou e a situação econômica do lesado; não podendo 
ser exorbitante, a ponto de gerar enriquecimento, nem irrisória, dando azo à reincidência.
A sentença ultra petita é aquela que decide além dos limites do pedido do autor, não 
sendo nula, porquanto possível o ajuste pelo Tribunal ad quem.\u201d
Recurso Especial: O Hospital e Maternidade São Lourenço Ltda. interpôs Re-
curso Especial (fls. 371/390), sustentando que não pode ser responsabilizado soli-
dariamente porque o cirurgião não pertence ao quadro clínico do hospital, tendo 
apenas locado espaço para a realização da cirurgia. Alegou haver contrariedade 
aos seguintes dispositivos da lei federal: (i) ao art. 896, CC/1916, porque lhe foi 
imputada responsabilidade solidária de forma presumida; (ii) ao art. 159, CC/1916, 
porque lhe foi imputada responsabilidade sem culpa; e (iii) ao art. 14, CDC, que 
não lhe seria aplicável porque os danos decorreram