Direitos do Consumidor
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do procedimento médico e não 
do serviço prestado pelo Hospital. Afirmou, por fim, haver dissídio pretoriano na 
interpretação dos mencionados artigos de lei.
Maria de Lourdes Machado apresentou contrarrazões ao Especial a fls. 
433/438.
Juízo de Admissibilidade: o Tribunal de origem admitiu o Especial, com fun-
damento na alínea \u201ca\u201d do permissivo constitucional, remetendo os autos ao STJ (fls. 
440/441).
É o relatório.
VOTO
A EXMA. SRA. MINISTRA NANCY ANDRIGHI (Relator):
Cuida-se de Recurso Especial interposto pelo Hospital e Maternidade São 
Lourenço Ltda. (\u201cHospital\u201d), sustentando que não pode ser responsabilizado soli-
dariamente porque o cirurgião não pertence ao quadro clínico do hospital, tendo 
apenas locado espaço físico para a realização da cirurgia.
A controvérsia cinge-se a três pontos: (i) ao art. 896, CC/1916, porque lhe foi 
imputada responsabilidade solidária de forma presumida; (ii) ao art. 159, CC/1916, 
porque lhe foi imputada responsabilidade sem culpa; e (iii) ao art. 14, CDC, que 
não lhe seria aplicável porque os danos decorreram do procedimento médico e não 
do serviço prestado pelo Hospital.
(i) Admissibilidade do Especial
A matéria encontra-se prequestionada uma vez que o Tribunal de origem fez 
expressa menção à aplicabilidade do art. 14, CDC, e, ainda que o mesmo fato não 
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tenha se repetido no que diz respeito aos arts. 159 e 896, CC/1916, é certo que a 
controvérsia neste ponto foi oportunamente ventilada pelas partes, tendo sido ob-
jeto de ponderação pela decisão recorrida.
Isso é quanto basta, conforme a inteligência das Súmulas 282 e 292 do STF 
e dos diversos precedentes deste STJ, para a admissibilidade do Recurso Especial 
(REsp. n. 819.238/RJ, 3.ª T., Rel. Min. Castro Filho, DJ 26.02.2007; AgRg no Ag n. 
769.722/RS, 4.ª T., Rel. Min. Aldir Passarinho Junior, DJ 11.12.2006).
(ii) A solidariedade do estabelecimento hospitalar
São conhecidos os contornos da responsabilidade subjetiva em nosso ordena-
mento jurídico. A responsabilidade com fundamento na culpa não privilegia a re-
paração do dano. Sem culpa de quaisquer da partes, o prejuízo deve ser suportado 
exclusivamente por aquele que o sofreu.
As limitações da responsabilidade subjetiva restaram evidentes e isto fez com 
que o legislador, ao largo do século XX, mudasse o paradigma da responsabilidade 
civil. Passou-se a privilegiar a reparação do dano, e não a imposição de sanções à 
conduta culposa. Com isso, inúmeras leis fizeram com que paulatinamente fossem 
ampliadas as hipóteses de responsabilidade sem culpa.
O Código de Defesa do Consumidor é certamente um marco dentre as nor-
mas que se propõem a abraçar o paradigma do ressarcimento dos danos causados. 
O CDC, em uma só tacada, impôs ao fornecedor a responsabilidade sem culpa, 
com fundamento no risco, e, além disso, procurou derrubar outras barreiras que 
historicamente impediam o acesso da vítima à reparação.
Com efeito, antes do advento do CDC, a vítima nem sempre alcançava a 
reparação dos danos sofridos porque não conseguia individualizar, na complexa 
cadeia de produção e circulação de bens e serviços, quem especificamente o 
havia lesado e sua culpa. Não possuía, ademais, meios para ajuizar demandas 
nas capitais mais distantes, sede invariável de fabricantes de produtos, e não 
conseguia demonstrar qualquer tipo de relação jurídica direta com o lesante. 
Para superar essas dificuldades, o CDC indicou que o foro do domicílio do con-
sumidor seria o competente para dirimir as questões oriundas das relações de 
consumo, adotou a inversão do ônus da prova em favor do consumidor, superou 
o relativismo contratual, assim como a divisão tradicional existente entre res-
ponsabilidade contratual e extracontratual e impôs a responsabilidade solidária 
entre os fornecedores.
Este mesmo CDC optou, no entanto, por manter a responsabilidade subjetiva 
para os profissionais liberais, conforme seu art. 14, § 4.º. A mensagem clara, passa-
da pelo ordenamento jurídico, neste ponto, foi manter o privilégio da responsabili-
dade subjetiva para os profissionais liberais como forma de incentivo ao exercício 
de sua atividade.
60 | Direitos do Consumidor \u2022 Humberto Theodoro Júnior
Ocorre que, ao manter o regime geral da responsabilidade com culpa para 
profissionais liberais, o CDC não abandonou as demais regras que procuram viabi-
lizar o acesso da vítima à justa reparação dos danos por si sofridos.
No que interessa para o deslinde do presente feito, havendo relação de con-
sumo com profissional liberal, continuam a prevalecer as regras que impõem so-
lidariedade entre os fornecedores, assim como, por exemplo, o foro competente 
continua sendo o do consumidor.
Assim como ocorre com o fornecimento de produtos, os fornecedores podem 
se organizar em uma verdadeira cadeia de fornecimento de serviços. São notórias 
as cadeias de distribuição de produtos, onde há fabricantes, distribuidores e vare-
jistas, que, atuando de forma organizada, concebem, produzem e comercializam 
um determinado bem da vida. Nada exclui a possibilidade de o fornecimento de 
serviços se dê de maneira semelhante, ou seja, com a adoção de modernos meios 
de gestão empresarial, que permitam terceirização de tarefas e a adoção de diversos 
outros modos de associação, onde, através de esforços conjugados, fornecedores 
coloquem serviços à disposição de consumidores.
Nesta ordem das coisas, é certo que a relação jurídica de consumo se esta-
belece entre dois polos distintos. De um lado, estão os consumidores, ou pessoas 
a eles equiparadas; no outro polo, podem figurar um único fornecedor ou até 
mesmo uma multiplicidade de fornecedores que, por qualquer forma de organi-
zação empresarial, integrem determinada cadeia de prestação de serviços ou de 
produção.
Na hipótese concreta, se está diante de verdadeira cadeia de fornecimento 
de serviços médicos. Há clara colaboração entre hospital e médico, que fornecem 
serviços conjuntamente e de forma coordenada. Nesta espécie de mutualismo, os 
médicos realizam determinadas cirurgias em hospitais que lhes propiciem maiores 
vantagens, e os hospitais, por sua vez, têm interesse que o maior número de médi-
cos se valham de seus serviços. O serviço hospitalar não existiria sem a prestação 
dos serviços pelo médico, e este último teria sua atuação extremamente limitada 
sem as facilidades oferecidas por um hospital. Não foi por outro motivo que, nas 
instâncias ordinárias, ficou estabelecido que o Hospital \u201cnão só cedeu as dependên-
cias para a efetivação da cirurgia, como também forneceu medicamentos e equipe de 
enfermagem, participando diretamente do faturamento\u201d (fls. 361).
Ficou claro, ademais, que o Hospital, independentemente de manter relação 
contratual ou empregatícia com o médico, admitiu o exercício, em seu estabeleci-
mento, da atividade que, de fato, se revelou lesiva. O Tribunal de origem foi claro a 
este respeito, afirmando que \u201csão atribuições do diretor clínico conforme a Resolução 
n. 011/1995 da CREMESC: \u2018a) dirigir, coordenar e orientar o Corpo Clínico da Insti-
tuição; b) supervisionar a execução das atividades de assistência médica da institui-
ção; c) zelar pela fiel observância do Código de Ética Médica; d) promover e exigir o 
exercício ético da medicina\u2019. Assim, verifica-se que a aceitabilidade dos médicos para 
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o exercício de sua profissão no interior de hospitais depende diretamente do corpo 
médico e dos diretores do estabelecimento, mesmo que inexista vínculo contratual ou 
relação de emprego\u201d (fls. 359-360).
Por onde quer que se veja a questão, deve-se concluir que há estreita coopera-
ção entre Hospital e corpo médico que é admitido a atuar em seu estabelecimento,