Direitos do Consumidor
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pois só assim a prestação de serviço se torna viável. Frise-se que essa atuação es-
treita independe do status jurídico que rege a relação entre ambos, se trabalhista ou 
meramente civil. Soa, portanto, artificial traçar diferentes sistemas de responsabili-
dades, consoante o regime legal que as partes convenham adotar.
O art. 14, CDC, estabelece verdadeira regra de responsabilidade solidária en-
tre os fornecedores de uma mesma cadeia de serviços e por esta razão o Hospital e 
Maternidade São Lourenço Ltda. responde pelos danos decorrentes da conduta de 
médico autorizado a exercer a profissão dentro de seu estabelecimento. Confira-se 
a este respeito as lições de doutrina:
\u201cA cadeia de fornecimento é um fenômeno econômico de organização do modo de pro-
dução e distribuição, do modo de fornecimento de serviços complexos, envolvendo gran-
de número de atores que unem esforços e atividades para uma finalidade comum, qual 
seja a de poder oferecer no mercado produtos e serviços para os consumidores [...] O 
reflexo mais importante, o resultado mais destacável desta visualização da cadeia de 
fornecimento, do aparecimento plural de sujeitos fornecedores, é a solidariedade dentre 
os participantes da cadeia mencionada nos arts. 18 e 20 do CDC e indiciada na ex-
pressão genérica \u2018fornecedor de serviços\u2019 do art. 14, caput, do CDC [...]\u201d (Cláudia Lima 
Marques. Contratos no Código de Defesa do Consumidor. O novo regime das relações 
contratuais. São Paulo: RT, 2002, pp. 334-335).
Ressalto que a exigência da comprovação de culpa para a responsabilidade 
do profissional liberal é fato que, por si só, não ilide a aplicação das normas que 
impõem solidariedade entre os fornecedores que se situam na mesma cadeia de 
fornecimento. Culpa e solidariedade são conceitos díspares e, ao afastar a culpa, 
não se afasta necessariamente a solidariedade.
Não se trata \u2013 é importante frisar \u2013 de atribuir responsabilidade objetiva ao 
Hospital, mas, sim, de reconhecer a sua solidariedade na culpa de médico que, 
mesmo não tendo sido por si indicado, clinicou dentro de seu estabelecimento, de 
forma coordenada e em clara relação de parceria.
E, ainda, que não se discuta aqui a culpa do correquerido responsável pela 
cirurgia, vale destacar que tal fato foi plenamente reconhecido pela sentença e pelo 
acórdão, havendo notícia nos autos que este médico registra vida pessoal e patri-
monial prenhe de controvérsias, com elevada quantidade de processos pelos quais 
responde. Como se não bastasse, admitiu-se que tal médico realizasse de quarenta 
a cinquenta cirurgias por mês, durante, aproximadamente, noventa dias no estabe-
lecimento do hospital recorrente, em condições que já faziam antever riscos.
62 | Direitos do Consumidor \u2022 Humberto Theodoro Júnior
Ora, havendo culpa do médico e uma clara cadeia de fornecimento na qual se 
inclui o Hospital, este só poderia ilidir sua responsabilidade se demonstrasse, nos 
termos do art. 14, § 3.º, CDC, a inexistência de defeito no serviço, a culpa exclusiva 
de terceiro ou do próprio consumidor, bem como eventual quebra do nexo causal. 
Nenhuma dessas circunstâncias excludentes de responsabilidade foi reconhecida 
pelas instâncias ordinárias.
A solução é, por outro lado, absolutamente consentânea com as premissas 
adotadas pelo CDC para a matéria. Privilegia-se o acesso da vítima à reparação do 
dano, com o reconhecimento da solidariedade entre os agentes que compõem a 
cadeia de fornecimento de serviços.
Basta mencionar, por fim, que não se vê qualquer violação aos arts. 159 e 896, 
CC/1916, pois, como dito, aplicam-se à hipótese as normas de proteção ao consu-
midor e porque a solidariedade entre fornecedores decorre do art. 14, CDC.
Forte em tais razões, NÃO CONHEÇO do Recurso Especial.
VOTO ANTECIPADO
EXMO. SR. MINISTRO MASSAMI UYEDA:
Sr. Presidente, antecipando meu voto, com todo o respeito à Seção, acom-
panho o voto da Sra. Ministra Nancy Andrighi, não conhecendo do recurso es-
pecial.
VOTO-VISTA
O EXMO. SR. MINISTRO JOÃO OTÁVIO DE NORONHA:
Tratam os autos de ação indenizatória ajuizada por Maria de Lourdes Ma-
chado em desfavor do Hospital e Maternidade São Lourenço Ltda. e dos médicos 
Marcelino Grimm e Pedro Augusto Ramos da Silva.
Reclama indenização dos réus sob o argumento de que foi submetida a cirur-
gia de varizes, realizada pelo réu Pedro Augusto Ramos da Silva, nas dependências 
no hospital reclamado, e, ante a negligência e imperícia do cirurgião, foram lesio-
nados nervos de sua perna esquerda, de forma que perdeu movimentos, tanto da 
perna como do pé, de forma definitiva.
Na sentença, o Juiz acatou a preliminar de ilegitimidade passiva com rela-
ção ao réu Marcelino Grimm e, no mérito, sustentou o entendimento de que o 
cirurgião Pedro Augusto R. da Silva atuou com imperícia no ato cirúrgico do qual 
decorreu a lesão sofrida pela autora, e que o hospital também foi responsável, mas 
objetivamente, condenando-os ao pagamento de indenização por danos materiais 
e morais, determinando, ainda, o pagamento de pensão vitalícia à autora.
Apenas o hospital interpôs apelação da sentença, e o Tribunal de Justiça do 
Estado de Santa Catarina acolheu em parte o recurso para reduzir a pensão até que 
Parte II \u2022 Cap. II \u2013 Responsabilidade Civil na Prestação de Serviços Médicos e Hospitalares | 63
a autora completasse 65 anos. O entendimento contido no acórdão recorrido pode 
ser sintetizado no seguinte trecho da ementa:
\u201cResponde solidariamente pelos erros médicos ocorridos em suas dependências a en-
tidade hospitalar que fornece sala, equipamentos e pessoa para médicos estranhos aos 
seus quadros, diante da incontestável retribuição financeira existente.\u201d
Dessa forma, a responsabilidade do hospital foi alicerçada pelo Tribunal a quo 
como sendo objetiva.
Em razão disso, o hospital interpôs recurso especial, sustentando que não se 
trata de responsabilidade solidária com o médico-cirurgião, a qual não se presume, 
mas decorre de lei ou do contrato. Asseverou que foi-lhe imputada responsabili-
dade sem culpa e afirmou que as disposições do art. 14 do Código de Defesa do 
Consumidor não se lhe aplicam porque o dano verificado não decorreu de nenhum 
serviço por ele prestado.
No julgamento do recurso especial, a Ministra-Relatora não conheceu do re-
curso, considerando que o hospital não demonstrou nenhuma circunstância exclu-
dente de responsabilidade, e que o fato de ter admitido em seu estabelecimento a 
atividade que se revelou lesiva é suficiente para demonstrar o liame do resultado 
danoso, advindo da cirurgia, com o hospital.
Pedi vista dos autos para melhor análise da questão posta no recurso especial.
Primeiramente, esclareço, na linha do entendimento da Ministra Relatora, 
que as disposições do artigo 14 do Código de Defesa do Consumidor estão pre-
questionadas, autorizando a análise do recurso.
Sobre a responsabilidade civil, entendo que são três as vertentes que merecem 
ser mensuradas nos presentes autos. Passo a elas.
A doutrina tem se posicionado no sentido de que a responsabilidade médica 
empresarial, no caso de hospitais, é objetiva, indicando o § 1.º do art. 14 do Código 
de Defesa do Consumidor como a norma que assim o estabelece:
\u201cArt. 14. O fornecedor de serviços responde, independentemente da existência de 
culpa, pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos relativos 
à prestação dos serviços, bem como por informações insuficientes ou inadequadas 
sobre sua fruição e riscos.
§ 1.º O serviço é defeituoso quando não fornece a segurança que o consumidor 
dele pode esperar, levando-se em consideração as circunstâncias relevantes, entre 
as quais:
I \u2013 o modo de seu fornecimento;
II \u2013 o resultado e os riscos que razoavelmente dele se esperam;
III \u2013 a época em que foi fornecido.\u201d
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Com base em tal dispositivo,