Direitos do Consumidor
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se há prestação de serviços defeituosos, respon-
de por eles o fornecedor.
Em se tratando de responsabilidade atribuída a hospitais, cabe impor um di-
visor para aplicação dessa teoria, ou seja, deve-se avaliar se o serviço tido por defei-
tuoso se inseria entre aqueles de atribuição da entidade hospitalar. Melhor elucido 
a seguir.
Um hospital é grande prestador de serviços, que conta com extenso corpo de 
profissionais, visando curar e salvar vidas ou torná-las mais qualitativas. Dessa for-
ma, constatado algum defeito na prestação de serviços que resulte em danos, cabe 
a responsabilização do hospital, segundo a tese ora discutida.
SERGIO CAVALIERI FILHO, em sua obra Programa de responsabilidade 
civil (fls. 383/384), cita, a título de exemplo, algumas ocorrências que poderiam 
levar à responsabilização dos hospitais, detendo-se mais às hipóteses de infecção 
hospitalar, como contaminação ou infecção em serviços de hemodiálise. Em casos 
tais, é certo que houve falha na prestação de serviços hospitalares, tendo em vista a 
falta de cuidados especiais que evitariam tais ocorrências.
Podem ser citados outros exemplos, como a aplicação de remédios equivoca-
dos por parte do corpo de enfermagem, negligência na vigilância e observação da 
qual decorram danos aos pacientes internados, instrumentação cirúrgica inade-
quada ou danificada, realização de exames etc. Nesses casos, o defeito é decorrente 
da falha na prestação do serviço cuja atribuição é afeta única e exclusivamente ao 
hospital.
Todavia, o mesmo não se pode dizer quando se está frente a uma consequên-
cia gerada por serviços de atribuição técnica restrita ao médico (mormente quando 
o profissional não tem nenhum tipo de vínculo com a entidade hospitalar), tal 
como na hipótese dos autos, em que a causa da lesão nos nervos da perna esquerda 
da autora decorreu de lesão sofrida em consequência da cirurgia de varizes reali-
zada por um dos médicos requeridos.
Inexiste falha nos serviços de incumbência do hospital, tanto que a acusação 
imposta pela autora da ação residiu na imperícia médica. Confira-se:
\u201c2. No entanto, o Dr. Pedro Ramos da Silva, naquele dia, somente chegou ao hospital 
por volta das 22:00 h, iniciando desde logo seu trabalho, que realizou com toda velo-
cidade, visto que das 22:00 h até as 3:00 h do outro dia, num período de apenas cinco 
horas, fez cirurgia em oito mulheres, inclusiva a Requerente.
3. Devido a esta precipitação ou pressa, a cirurgia efetuada na Autora não foi bem-
-sucedida. Isto porque, na extração das varizes, por imperícia ou negligência, lhe fo-
ram seccionados ou lesionados os nervos da perna, como relatam os especialistas...
[...]
4. Devido às lesões provocadas nos nervos da pena, a Autora perdeu o movimento 
normal desse membro, é o que dizem em resumo os exames\u201d (fls. 3/4).
Parte II \u2022 Cap. II \u2013 Responsabilidade Civil na Prestação de Serviços Médicos e Hospitalares | 65
Diante desses fatos, não se pode dizer que o acórdão recorrido tenha ofendido 
as disposições do § 1.º do art. 14 do Código de Defesa do Consumidor, porquanto 
inequívoco que a sequela apresentada pela autora não decorreu de nenhum serviço 
de atribuição da entidade hospitalar, razão por que não se lhe pode atribuir a con-
dição de fornecedor a fim de imputar-lhe a responsabilidade pelo dano.
Há outra vertente acerca da questão da responsabilidade objetiva que merecer 
ser analisada.
II
Data venia de entendimentos contrários, não posso entender que a responsa-
bilidade civil dos hospitais quanto às atividades desenvolvidas por médicos, inde-
pendentemente do vínculo de subordinação destes, seja objetiva, pois estar-se-ia 
abraçando a tese de que o contrato estabelecido entre médico e paciente é de resul-
tado, visto que, em última análise, o hospital estaria garantindo o resultado que o 
médico não pode assegurar.
Na hipótese de prestação de serviços médicos, o ajuste contratual \u2013 vínculo 
estabelecido entre o médico e paciente \u2013 refere-se ao emprego da melhor técnica e 
diligência, entre as possibilidades de que dispõe o profissional no seu meio de atua-
ção, em auxílio do paciente. Todavia, a cura em si mesma não constitui objeto deste 
ajuste em razão da imprevisibilidade do funcionamento do corpo humano. Não se 
sabe como ele irá reagir. As intervenções cirúrgicas, mesmo quando inevitáveis, 
podem envolver altos riscos.
Não se pode olvidar que, mesmo que os profissionais envolvidos empreguem 
toda sua diligência no ato cirúrgico, ainda assim o organismo do paciente pode 
reagir de forma inesperada. Muitas dessas reações não podem ser previstas antes 
da intervenção.
Dessa forma, não pode o médico assumir compromisso com um resultado 
específico (exceto quando se tratar de cirurgia estética), fato que leva ao entendi-
mento de que, se ocorrer dano ao paciente, outra não pode ser a teoria da responsa-
bilidade que não a subjetiva, devendo-se averiguar se houve culpa do profissional.
Contudo, se, na ocorrência de dano, tal como a que sucedeu nos presentes au-
tos, impõe-se ao hospital que responda objetivamente, em última análise, estar-se-á 
aceitando que o contrato firmado seja de resultado, pois, como afirmado acima, se 
o médico não garante o resultado, o hospital garantirá. Isso leva ao seguinte absur-
do: na hipótese de intervenção cirúrgica, ou o paciente sai curado ou será indeni-
zado \u2013 daí um contrato de resultado firmado às avessas da legislação.
E nem se diga sobre a teoria do risco empresarial, pois qualquer intervenção 
médica, por menor que seja, inclui riscos não detectáveis.
É compreensível que a teoria da responsabilidade objetiva empresarial médi-
ca venha em decorrência das efetivas mudanças que ocorreram na sociedade nas 
66 | Direitos do Consumidor \u2022 Humberto Theodoro Júnior
últimas décadas, entre elas o avanço tecnológico na área médica e o aumento da 
população assistida, seja saúde pública ou privada.
Há não muito tempo, a medicina era praticamente uma arte, a arte de curar. 
Médicos de família acompanhavam os indivíduos por toda a vida e também seus 
descendentes. Conseguiam diagnosticar uma doença tocando o corpo do paciente, 
considerando o histórico da pessoa, suas tendências e propensões. Curava-se valo-
rizando o indivíduo.
Todavia, essa realidade cedeu lugar à medicina empresarial, na qual o atendi-
mento pessoal é substituído pelo atendimento de massa, impessoal.
Mas não se pode fugir à realidade ainda vivenciada no Brasil, em que, a par da 
existência de algumas empresas médicas, nos quais os serviços médicos são apenas 
um meio de atingir o fim de obter lucros (mais atinente ao segmento de diagnós-
ticos), têm-se, em larga escala, os hospitais públicos, nos quais a intenção de lucro 
não existe e onde os médicos trabalham premidos entre a falta de tecnologia, tem-
po e a necessidade de atender a um número expressivo de pessoas. Também não se 
pode olvidar da existência de hospitais tradicionais, que, não obstante sejam orga-
nizados empresarialmente, não perdem de vista o objetivo de prestação de serviços 
médicos, o fim de melhorar a vida do paciente e, em última análise, o fim de curar.
Data venia, não é o fato de os hospitais terem um mínimo de organização que 
poderão ser inseridos \u201cnuma complexa cadeia de produção e circulação de bens e 
serviços\u201d (voto da Relatora) que atraia as disposições do Código de Defesa do Con-
sumidor, a exemplo do que ocorre com o fornecedor de produtos para o consumo de 
massa. Não há comparação entre um hospital e um fabricante, por exemplo, de sucos 
industrializados. A atividade hospitalar não é econômica e não se volta para isso.
Trata-se de atividade organizada sim, mas não vislumbro nela nenhuma rela-
ção de consumo, não há interesses econômicos imediatos em jogo. Ou se poderia 
classificar o hospital como um fornecedor do produto saúde aos consumidores 
doentes?
Também o fato de receber remuneração