Direitos do Consumidor
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do hospital, falta de nexo 
causal de sua atuação na produção do resultado lesivo e atribuiu toda a responsabi-
lidade ao médico que realizou a cirurgia (fls. 285).
3 \u2013 O Acórdão da 3.ª Câmara de Direito Civil do Tribunal de Justiça de Santa 
Catarina, Rel. Des. FERNANDO CARIONI (fls. 344/366), por votação unânime, 
deu provimento em parte à apelação do hospital, mantendo-lhe a condenação, mas 
limitando a pensão a sessenta e cinco anos de idade.
Consta da ementa do Acórdão: \u201cResponde solidariamente pelos erros médi-
cos ocorridos em suas dependências a entidade hospitalar que fornece sala, equi-
pamentos e pessoal para médicos estranhos a seus quadros, diante da incontestável 
retribuição financeira existente.\u201d
E do corpo do Acórdão constam motivos em duas linhas de motivação, nos 
seguintes termos:
1.ª motivação \u2013 Culpa fática: \u201cO Hospital e Maternidade São Lourenço Ltda. deve ser 
responsabilizado pelos atos praticados por profissional da área médica que se utiliza de 
suas dependências para a realização de cirurgia, independentemente de haver ou não 
relação de emprego entre eles\u201d. Cita precedentes do mesmo Tribunal. E prossegue: \u201cNão 
se pode excluir a responsabilidade do estabelecimento de saúde pelo fato de o médi-
co somente utilizar as salas para a realização das cirurgias, sem vínculo empregatício, 
porquanto são poucos os profissionais que compõe o corpo clínico do hospital, além de 
que essa é uma situação comumente vista na maioria dos casos\u201d. Salientou-se que são 
atribuições do Diretor Clínico dos hospitais, segundo a Resolução n. 011/1995 do CRE-
70 | Direitos do Consumidor \u2022 Humberto Theodoro Júnior
MESC: \u2018a) dirigir, coordenar e orientar o Corpo Clínico da Instituição; b) supervisionar 
a execução das atividades de assistência médica da instituição; c) zelar pela fiel obser-
vância do Código de Ética Médica; d) promover e exigir o exercício ético da medicina\u2019 
[...] de modo que \u201cassim, verifica-se que a aceitabilidade dos médicos para o exercício de 
sua profissão no interior dos hospitais depende diretamente do corpo médico e dos dire-
tores do estabelecimento, mesmo que inexista vínculo contratual ou relação de emprego\u201d. 
E [...] \u201cverifica-se que a aceitabilidade dos médicos para o exercício de sua profissão 
no interior do estabelecimento, mesmo que inexista vínculo contratual ou relação de 
emprego\u201d. [...] \u201cNão obstante, restou incontroverso nos autos, por meio das provas teste-
munhais, que o hospital não só cedeu as dependências para efetivação da cirurgia como 
também forneceu medicamentos e equipe de enfermagem, participando diretamente do 
faturamento\u201d. O Acórdão transcreve os depoimentos de Evandro Caus, Rozelin R. Fabro 
Abati e Marli Darci Machado Coloneti. \u201cDesse modo, irrefutável a responsabilidade do 
Hospital e Maternidade São Lourenço Ltda., pela cirurgia praticada pelo médico Dr. 
Pedro Augusto Ramos da Silva, diante das evidências de ter emprestado funcionários 
para auxiliá-lo durante o procedimento e de ter participado nos lucros\u201d.
2.ª motivação \u2013 Responsabilidade objetiva segundo o CDC (Lei n. 8.078/1990, art. 14, 
caput): \u201cNão fosse isso, constata-se que os serviços prestados por entidades hospitalares 
enquadram-se naquelas abrangidas pelo Código de Defesa do Consumidor, cuja respon-
sabilidade é de natureza objetiva, a teor do art. 14, caput, da Lei n. 8.078/1990\u201d. [...] 
\u201cAssim, há de se concluir pelo dever solidário de indenizar do recorrente em vista das 
sequelas causadas pela cirurgia à recorrida, diante do reconhecimento da responsabili-
dade objetiva das entidades hospitalares.\u201d
4 \u2013 O voto da em. Relatora, Min.ª NANCY ANDRIGHI, não conhece do Re-
curso Especial, arrimando-se nas duas motivações que o Acórdão recorrido con-
tém, ou seja, a responsabilidade subjetiva e a responsabilidade objetiva, decorrente 
do Código de Defesa do Consumidor, explicitando, nesta, ser ela decorrente da 
cadeia de fornecimento de serviços médicos, concluindo que o hospital tinha, nos 
termos do art. 14, caput, e do seu § 3.º, CDC, de demonstrar a inexistência de defei-
to no serviço, a culpa exclusiva de terceiro ou do próprio consumidor e a eventual 
quebra do nexo causal, ao passo que \u201cnenhuma dessas circunstâncias excludentes 
de responsabilidade foi reconhecida pelas instâncias ordinárias\u201d.
O Voto do em. Min. JOÃO OTÁVIO DE NORONHA, divergindo, dá provi-
mento ao recurso, excluindo a responsabilidade do hospital e julgando improce-
dente a ação quanto a ele, sustentando, em síntese, que inexistente a responsabili-
dade objetiva do hospital, em se tratando de médicos sem vínculo com o hospital, 
mas, sim, a falha do médico, por imperícia, pela qual não responde o hospital ao 
qual não vinculado, sendo que o contrário implicaria atribuir caráter de obrigação 
de resultado ao contrato de prestação de serviços médicos, diferentemente do que 
ocorre em outras relações como a do fabricante \u2013 de maneira que a teoria da res-
ponsabilidade objetiva, se aplicada ao hospital, garantiria ao paciente indenização 
de qualquer forma pela qual se realizasse o serviço médico e não se podendo atri-
Parte II \u2022 Cap. II \u2013 Responsabilidade Civil na Prestação de Serviços Médicos e Hospitalares | 71
buir ao hospital a obrigação de fiscalizar a prestação do serviço por parte de cada 
médico, embora geralmente os hospitais tenham cadastros de médicos.
5 \u2013 Meu voto nega provimento ao Recurso Especial, acompanhando a con-
clusão do voto da E. Relatora, mas apenas parte de seus fundamentos, ou seja, o 
da responsabilidade subjetiva do hospital, faticamente reconhecida pelo Acórdão 
recorrido, mas não reconhecendo a responsabilidade objetiva no caso, e afastando-
-se, meu voto, da conclusão do voto divergente, admitindo, embora, a congruência 
de seus fundamentos no tocante à não configuração de responsabilidade objetiva 
no caso.
Postas de lado as profundas digressões que o caso enseja, afigura-se que o enfo-
que trazido neste voto é adequado ao caso concreto, atendendo melhor à Justiça do 
caso e garantindo forças patrimoniais solidárias na reparação dos danos produzidos 
na autora em decorrência da cirurgia realizada com já inquestionada imperícia \u2013 ga-
rantia que não há indícios de que se preservasse, caso permanecesse exclusivamente 
a responsabilidade do médico, pessoa que registra vida pessoal e patrimonial prenhe 
de controvérsias, ostentada pela quantidade de processos de diversas naturezas pelas 
quais responde (segundo enumeração de processos que vai até a letra \u201cp\u201d no rol que 
acompanhou petição de renúncia de seu Advogado, fls. 317).
6 \u2013 A culpa do hospital resulta da análise fática realizada pela sentença e pelo 
Acórdão, tomando em consideração todos os elementos de prova trazidos para o 
processo \u2013 o que se torna matéria imutável, em termos de Recurso Especial (Sú-
mula n. 7).
Relembre-se, nos termos do Relatório acima (n. 3, \u201cSegunda motivação\u201d), que foi 
reconhecida a culpa subjetiva do hospital pela atuação do médico-cirurgião do caso.
A autora, na petição inicial, referindo-se ao médico autor da cirurgia, que não 
integrante do corpo médico do hospital, alegou que \u201ceste médico foi contratado 
para a mencionada cirurgia pelo Hospital e Maternidade São Lourenço\u201d (fls. 3).
O hospital, na contestação, alegou que \u201cnão praticou o contestante nenhum 
ato cirúrgico, por nenhum de seus prepostos. Apenas cedeu suas instalações para 
tanto\u201d [...] e que \u201ca autora noticia que se submeteu a operação de varizes na perna 
esquerda com o cirurgião Pedro Augusto Ramos da Silva, afirmando que tal profis-
sional foi contratado pelo Hospital-contestante, contudo, labora em erro manifesto, 
pois nunca e em nenhum momento o referido profissional foi contratado pelo re-
querido. O referido profissional é credenciado pelo Sistema Único de Saúde, sendo 
que tais operações foram feitas a conta do SUS, que criou um programa para tanto, 
nominado de Campanha Nacional