Direitos do Consumidor
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de Mutirões de Cirurgias Eletivas, instituído 
pela Portaria n. 279, de 07.04.1999\u201d (fls. 73).
Mas a sentença e o Acórdão analisaram os fatos e concluiu pela responsabi-
lidade do hospital. Analisou os depoimentos das testemunhas, mostrando que o 
médico realizou entre quarenta e cinquenta cirurgias por mês, durante aproxima-
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damente noventa dias, no hospital, usando de equipamentos e pessoal pertencentes 
ao hospital, em condições, aliás, no dia da cirurgia a que submetida a autora, em 
condições que já faziam antever o risco \u2013 pois realizadas numerosas cirurgias por 
dia, usando duas salas de operação (depoimentos de Evandro Caus, Rozeli R. Fabro 
Abati e Alvina da Conceição de Camargo, fls. 206-207, referidos pela sentença e 
pelo Acórdão, fls. 269 e 361).
Ademais, como anotou o Acórdão, \u201cirrefutável a responsabilidade do Hospital 
e Maternidade São Lourenço Ltda., pela cirurgia praticada pelo médico Dr. Pedro 
Augusto Ramos da Silva, diante das evidências de ter emprestado funcionários para 
auxiliá-lo durante o procedimento e de ter participado nos lucros\u201d (fls. 361).
Não se sabe como é que a paciente chegou ao médico-cirurgião, mas é eviden-
te que, à frequência de atendimentos, realizados no hospital em recorrente, usando 
de pessoal e materiais deste, tem-se situação como a de alguém que fosse realmente 
contratado pelo hospital, compreensão do relacionamento médico-hospital aludi-
da pela autora na petição inicial, quando disse que o médico havia sido \u201ccontratado 
pelo hospital\u201d (fls. 3).
7 \u2013 O fundamento da culpa subjetiva, firme na análise da prova realizada e 
constante da 1.ª motivação da sentença e do Acórdão, é suficiente para o julgamen-
to consistente em negar provimento ao Recurso Especial, pelos dois fundamentos 
\u2013 seja porque não infringe os dispositivos da lei federal anotados, seja porque para-
digmas citados não têm os mesmos contornos fáticos do caso.
Não se chega, pelo meu voto, à análise da responsabilidade objetiva, à luz do 
Código de Defesa do Consumidor, no caso \u2013 que, relembre-se, atém-se ao exame 
das teses jurídicas fiel à observação do caso concreto, quiçá o maior dos nortes 
guiar as mãos da Justiça, e que, por isso, deve prevalecer, ainda quando em debate 
as grandes e apaixonantes teses jurídicas.
8 \u2013 Pelo meu voto, pois, e nos termos estritos do que nele exposto, nega-se 
provimento ao Recurso Especial.
Ministro SIDNEI BENETI:
VOTO
O EXMO. SR. MINISTRO FERNANDO GONÇALVES:
Sr. Presidente, lerei um trecho do meu voto no Recurso Especial n. 258.389/
SP, que versa sobre questão semelhante. Aliás, esse trecho foi extraído do Tratado 
de Responsabilidade Civil do Professor Rui Stoco, e tem apoio de doutrinadores 
como Aguiar Dias, Caio Mário da Silva Pereira e Ruy Rosado de Aguiar Júnior.
Destaco o seguinte:
\u201cA questão mais polêmica que surge é a que pertine à seguinte indagação: 
quando a responsabilidade deve ser carreada ao médico, pessoalmente, e quando 
se deve atribuí-la ao hospital? A nós parece que se impõe examinar primeiro se o 
Parte II \u2022 Cap. II \u2013 Responsabilidade Civil na Prestação de Serviços Médicos e Hospitalares | 73
médico é contratado do hospital, de modo a ser considerado como seu empregado 
ou preposto.
Se tal ocorrer, aplica-se a surrada e vetusta regra de que o empregador respon-
de pelos atos de seus empregados, serviçais ou prepostos (Código Civil, art. 932, III).
Aliás, Aguiar Dias demonstrou o alcance e largueza desse conceito de prepos-
to em atividades que tais ao afirmar:
\u2018O médico responde também por fato de terceiro. Este é o caso dos proprietá-
rios e dos diretores das casas de saúde, responsáveis pelos médicos, enfermeiros e 
auxiliares. Considera-se incluído nessa espécie de responsabilidade também o pro-
prietário não médico dos hospitais e clínicas, explicando que essa responsabilidade 
é nitidamente contratual, e advertindo que a noção de preposto, neste domínio, não 
se confunde com a que se lhe empresta no terreno extracontratual, porque, no caso 
em apreciação, é em virtude de uma garantia convencional implícita que o contra-
tante responde pelos fatos de seus auxiliares. E tal garantia é devida pelo proprietá-
rio da casa de saúde, pelo fato danoso do médico assalariado\u2019 (ob. cit., p. 292-293).
Se o médico atuar no respectivo hospital mediante vínculo empregatício, 
será empregado submetido às ordens da sociedade hospitalar. Se com ela mantiver 
contrato de prestação de serviços, deve ser considerado seu preposto e, nas duas 
hipóteses, aquela sociedade responderá pelos atos culposos daquele profissional. 
O hospital, contudo, terá direito de reaver o que pagar através de ação regressiva 
contra o causador direto do dano.
Mas se o médico não for preposto, mas profissional independente que tenha 
usado as dependências do nosocômio por interesse ou conveniência do paciente ou 
dele próprio, em razão de aparelhagem ou qualidade das acomodações, ter-se-á de 
apurar, individualmente, a responsabilidade de cada qual.
Desse modo, se o paciente sofreu danos em razão do atuar culposo exclusivo 
do profissional que o pensou, atuando como prestador de serviços autônomo, ape-
nas este poderá ser responsabilizado.\u201d
E o Sr. Ministro Ruy Rosado de Aguiar, no IV Congresso Internacional sobre 
Danos, realizado em Buenos Aires, enfaticamente disse:
\u201cO hospital não responde objetivamente, mesmo depois da vigência do Código de Defesa 
do Consumidor, quando se trata de indenizar danos produzidos por médico integrante 
de seus quadros, pois é preciso provar a culpa deste para somente depois ter como presu-
mida a culpa do hospital.\u201d
E digo:
\u201cNeste contexto, a conclusão única é de que na responsabilização do hospital por ato pra-
ticado por médico não tem aplicabilidade a teoria objetiva, pois o que se põe em exame 
é o trabalho do facultativo, com incidência, inclusive, da norma do § 4.º do art. 14 do 
Código de Defesa do Consumidor.
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Significa isso dizer que, no caso específico dos hospitais, será objetiva a responsabilidade 
apenas no que toca aos serviços única e exclusivamente relacionados com o estabeleci-
mento empresarial propriamente dito, ou seja, aqueles que digam respeito à estadia do 
paciente (internação), instalações físicas, equipamentos, serviços auxiliares (enferma-
gem, exames, radiologia) etc. e não aos serviços técnico-profissionais dos médicos que 
ali atuam ou que tenham alguma relação com o nosocômio (convênio, por exemplo), 
permanecendo estes na relação subjetiva de preposição (culpa) já iterativamente men-
cionada.\u201d
E diz o acórdão do Tribunal de Santa Catarina:
\u201cNão se pode excluir a responsabilidade do estabelecimento de saúde pelo fato de um 
médico somente utilizar as salas para a realização de cirurgia sem vínculos empregatí-
cios; são poucos os profissionais que compõem o corpo clínico do hospital, além do que 
essa é uma situação comumente vista na maioria dos casos.\u201d
Com a devida vênia do Sr. Ministro Sidnei Beneti, da Sra. Ministra Relatora 
e do Sr. Ministro Massami Uyeda, acompanho o voto do Sr. Ministro João Otávio, 
conhecendo do recurso especial do hospital e dando-lhe provimento.
VOTO
EXMO. SR. MINISTRO ALDIR PASSARINHO JUNIOR:
Sr. Presidente, tenho ponto de vista manifestado, já em precedentes, inclusive, 
em que fiz considerações a respeito das hipóteses em que identifico quando há 
responsabilidade do hospital.
Entendo que ela não é objetiva, tem que ser provada especificamente a res-
ponsabilidade do hospital em relação a algum ato vinculado ao nosocômio, na li-
nha, aliás, do precedente que me parece que definiu bem essa questão no âmbito da 
Quarta Turma, do eminente Ministro Fernando Gonçalves, em que Sua Excelência, 
no Recurso Especial n. 258.389/SP, destacou no item 3 da ementa do acórdão, verbis: