Direitos do Consumidor
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uma situação culposa, cuja erradicação poder-se-ia dar com o diagnóstico precoce e 
subsequente terapêutica mais eficaz. \u2013 À mingua de provas cabais, de que o desenvol-
vimento da doença foi tardio, a conclusão irrecusável é a de que, diante da evidência 
dos fatores de risco, a não realização dos necessários exames, a tempo e modo, con-
figurou a culpa dos médicos-réus. \u2013 Presente, pois, o nexo de causalidade entre o 
diagnóstico tardio da doença da menor e o considerável agravamento de seu quadro 
clínico, por não terem sido realizados os referidos exames logo após seu nascimen-
to, impõe-se a condenação dos réus, incluída a Casa de Saúde, em indenização por 
danos morais, estéticos e materiais, na proporção da prova colhida. \u2013 Se na hipótese 
de culpa de médico-preposto sobrevém simultaneamente a responsabilidade objetiva 
do hospital, em cujas dependências o ato culposo tenha ocorrido, a fortiori, quando 
ocorre a hipótese de o ato culposo ter sido cometido pelos médicos nas dependências 
do nosocâmio de que eles são sócios-quotistas, a responsabilidade objetiva do mesmo 
estabelecimento se perfaz, sobretudo quando, como no caso presente, a Casa de Saú-
de comprovadamente se inseriu na situação como elo da cadeia de fornecimento de 
serviços. \u2013 São cabíveis, ainda, os lucros cessante reclamados pela mãe da infante que, 
tal como confirmou a perícia, viu-se impedida de exercer sua profissão de psicóloga 
para acompanhar o tratamento da filha.
Opostos os embargos declaratórios, esses foram desacolhidos (fls. 2.900-2.912 
e-STJ).
Nas razões do especial (fls. 3.083-3.106, e-STJ), a ora agravante apontou, além 
de divergência jurisprudencial, violação dos artigos 535, II, do CPC/73; e 14, caput 
e § 3º, III, do CDC. Sustentou, em síntese, negativa de prestação jurisdicional e 
inexistir responsabilidade por parte do hospital, sendo esta exclusiva dos médicos.
Contrarrazões às fls. 3.016-3.3.026, 3.129-3.143 e 3.159-3.172.
Em juízo de admissibilidade, negou-se seguimento ao reclamo sob os seguin-
tes fundamentos: a) inexistir ofensa ao art. 535 do CPC; b) a análise da pretensão 
demandaria o reexame do substrato fático dos autos, com incidência da Súmula 
7 do STJ no tocante à irresignação amparada por ambas as alíneas do permissivo 
constitucional e, c) não comprovação do dissídio jurisprudencial. Irresignada, in-
Parte II \u2022 Cap. II \u2013 Responsabilidade Civil na Prestação de Serviços Médicos e Hospitalares | 87
terpôs agravo (fls. 3.238-3.254, e-STJ), no qual, buscando destrancar o processa-
mento da insurgência, lançou argumentações no sentido de refutar os óbices acima 
apontados.
Contraminuta às fls. 3.262-3.272, e-STJ.
Julgando monocraticamente o reclamo (fls. 3.306-3.310, e-STJ), este relator 
negou provimento ao agravo entendendo pela incidência da Súmula 7 do STJ no 
tocante ao afastamento da responsabilidade do hospital.
Daí, a ora insurgente interpõe agravo regimental (fls. 3.313-3.319, e-STJ), sus-
tentando, em síntese, a inaplicabilidade da Súmula 7/STJ, repisando os argumentos 
anteriormente expendidos no apelo extremo, afirmando inexistir responsabilidade 
por parte do hospital, porquanto configurada a responsabilidade exclusiva dos mé-
dicos.
Pugna, por fim, pela reconsideração da decisão agravada ou a apreciação do 
regimental pelo Colegiado.
Impugnação (fls. 3.342-3.352, 3.361-3.371, e-STJ).
É o relatório.
VOTO
O EXMO. SR. MINISTRO MARCO BUZZI (Relator): 
O agravo regimental não merece acolhida, porquanto os argumentos tecidos 
pela agravante são incapazes de infirmar a decisão impugnada, motivo pelo qual 
merece ser mantida na íntegra por seus próprios fundamentos.
1. Com efeito, o entendimento firmado na Segunda Seção deste Superior Tri-
bunal de Justiça é no sentido de ser subjetiva a responsabilidade dos hospitais pelos 
danos causados por profissionais que neles atuam sem qualquer vínculo de empre-
go ou subordinação, conforme o seguinte julgado:
RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO. RESPONSABILIDADE CIVIL. 
ERRO MÉDICO. NEGLIGÊNCIA. INDENIZAÇÃO. RECURSO ESPECIAL.
1. A doutrina tem afirmado que a responsabilidade médica empresarial, no caso de 
hospitais, é objetiva, indicando o parágrafo primeiro do artigo 14 do Código de De-
fesa do Consumidor como a norma sustentadora de tal entendimento. Contudo, a 
responsabilidade do hospital somente tem espaço quando o dano decorrer de falha de 
serviços cuja atribuição é afeta única e exclusivamente ao hospital. Nas hipóteses de 
dano decorrente de falha técnica restrita ao profissional médico, mormente quando 
este não tem nenhum vínculo com o hospital \u2013 seja de emprego ou de mera preposi-
ção \u2013, não cabe atribuir ao nosocômio a obrigação de indenizar.
2. Na hipótese de prestação de serviços médicos, o ajuste contratual \u2013 vínculo esta-
belecido entre médico e paciente \u2013 refere-se ao emprego da melhor técnica e dili-
gência entre as possibilidades de que dispõe o profissional, no seu meio de atuação, 
para auxiliar o paciente. Portanto, não pode o médico assumir compromisso com 
88 | Direitos do Consumidor \u2022 Humberto Theodoro Júnior
um resultado específico, fato que leva ao entendimento de que, se ocorrer dano ao 
paciente, deve-se averiguar se houve culpa do profissional \u2013 teoria da responsabi-
lidade subjetiva. No entanto, se, na ocorrência de dano impõe-se ao hospital que 
responda objetivamente pelos erros cometidos pelo médico, estar-se-á aceitando 
que o contrato firmado seja de resultado, pois se o médico não garante o resultado, 
o hospital garantirá. Isso leva ao seguinte absurdo: na hipótese de intervenção ci-
rúrgica, ou o paciente sai curado ou será indenizado \u2013 daí um contrato de resultado 
firmado às avessas da legislação.
3. O cadastro que os hospitais normalmente mantêm de médicos que utilizam suas 
instalações para a realização de cirurgias não é suficiente para caracterizar relação de 
subordinação entre médico e hospital. Na verdade, tal procedimento representa um 
mínimo de organização empresarial.
4. Recurso especial do Hospital e Maternidade São Lourenço Ltda. provido. (REsp 
908359/SC, Relatora Ministra Nancy Andrighi, Rel. p/ acórdão Ministro João Otávio 
de Noronha, Segunda Seção, DJe de 17/12/2008)
Todavia, nos termos do art. 14 do CDC, quando houver uma cadeia de for-
necimento para a realização de determinado serviço, ainda que o dano decorra da 
atuação de um profissional liberal, verificada culpa deste, nasce a responsabilidade 
solidária daqueles que participam da cadeia de fornecimento do serviço.
Nesse sentido:
CONSUMIDOR. RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO. RESPONSA-
BILIDADE CIVIL. MÉDICO PARTICULAR. RESPONSABILIDADE SUBJETIVA. 
HOSPITAL. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. LEGITIMIDADE PASSIVA AD 
CAUSAM.
1. Os hospitais não respondem objetivamente pela prestação de serviços defeituosos 
realizados por profissionais que nele atuam sem vínculo de emprego ou subordina-
ção. Precedentes.
2. Embora o art. 14, § 4º, do CDC afaste a responsabilidade objetiva dos médicos, não 
se exclui, uma vez comprovada a culpa desse profissional e configurada uma cadeia 
de fornecimento do serviço, a solidariedade do hospital imposta pelo caput do art. 14 
do CDC.
3. A cadeia de fornecimento de serviços se caracteriza por reunir inúmeros contratos 
numa relação de interdependência, como na hipótese dos autos, em que concorreram, 
para a realização adequada do serviço, o hospital, fornecendo centro cirúrgico, equi-
pe técnica, medicamentos, hotelaria; e o médico, realizando o procedimento técnico 
principal, ambos auferindo lucros com o procedimento.
4. Há o dever de o hospital responder qualitativamente pelos profissionais que escolhe 
para atuar nas instalações por ele oferecidas.
5. O reconhecimento da responsabilidade solidária do hospital não transforma a 
obrigação de meio do médico, em obrigação de resultado, pois a responsabilidade do 
hospital somente se configura