Direitos do Consumidor
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mas, sim, escudada no art. 186, do Código Civil, 
não há que se falar em prescrição quinquenal, nos termos do art. 27, do Código de 
Defesa do Consumidor. Para surgir o dever de indenizar o dano alheio (responsa-
bilidade civil) é mister que concorram três elementos: o dano suportado pela víti-
ma, a conduta culposa do agente e o nexo causal entre os dois primeiros. Impossível 
se apresenta a pretensão do autor tendente a condenar a empresa fabricante de 
cigarros em danos materiais e morais, sob a imputação de ato ilícito, quando não 
comprovado o nexo causal entre a doença diagnosticada e o tabagismo. 
ACÓRDÃO
Vistos etc., acorda, em Turma, a 18.ª CÂMARA CÍVEL do Tribunal de Justiça 
do Estado de Minas Gerais, incorporando neste o relatório de fls., na conformidade 
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da ata dos julgamentos e das notas taquigráficas, Em rejeitar a preliminar, à unani-
midade, e negar provimento ao recurso, vencido o Des. Revisor.
Belo Horizonte, 16 de setembro de 2008
Des. UNIAS SILVA, Relator 
NOTAS TAQUIGRÁFICAS
Assistiu ao julgamento, pela apelada, o Dr. Paulo Rogério Brandão Couto. 
O SR. DES. UNIAS SILVA: 
VOTO
Presentes os pressupostos de admissibilidade, CONHEÇO DO RECURSO. 
Trata-se de Ação de Reparação de Danos Materiais e Morais ajuizada por 
WALTER LUIZ PADUAN PEREIRA em face de COMPANHIA DE CIGARROS 
SOUZA CRUZ S/A. 
Pela sentença de fls. 2.091-2.098, as preliminares erigidas no curso do pro-
cesso foram rejeitadas e, no mérito, os pedidos iniciais foram julgados improceden-
tes, extinguindo-se o feito com fulcro no art. 269, I, do CPC, condenando a parte 
autora ao pagamento das custas processuais e honorários advocatícios arbitrados 
em 10% sobre o valor da causa, suspendendo-se o cumprimento desta obrigação 
enquanto perdurarem os benefícios da gratuidade judiciária, nos termos do art. 12, 
da Lei n. 1.060/1950. 
Totalmente inconformado, recorre o autor através das razões recursais de fls. 
2.109-2.134-TJ. Almeja o suplicante seja reformada a sentença, em sua integralida-
de, e para tanto alega que ela se encontra em dissonância com as provas produzidas 
nos autos e eivada de referências estranhas ao caso. Aduz que restou devidamente 
comprovado ser usuário de cigarros fabricados e vendidos pela ré ao longo de vá-
rios anos, comprovou ainda que uso destes produtos de causaram danos graves a 
sua saúde, sendo claro o nexo causal entre o uso do produto e suas lesões, devendo 
a ré lhe indenizar pelos danos causados. 
Afirma também que a ré sequer produziu contraprova em relação ao fato de 
ser usuário/consumidor dos cigarros que fabrica e comercializa, que nada existe nos 
autos a respeito de ser fumante de cigarros de palha. Salienta o fato de ter começado 
a fumar cigarros nos idos de 1940, quando tinha apenas 12 anos de idade, por força 
das enganosas campanhas publicitárias da ré, que demonstravam um falso glamour 
e prazer, e não apenas em 1988, quando a ré foi obrigada a inserir nos maços de 
cigarros advertências sobre os males que o uso do produto poderiam causa à saúde. 
Registra ainda que não consumia cigarros por própria vontade, mas porque 
o tabagismo é um vício, já que o cigarro vicia os que dele fazem uso, sendo que 
isso já é provado cientificamente. Destaca que o cigarro mata mais de 5 milhões de 
usuários por ano. 
Parte II \u2022 Cap. IV \u2013 Dano Moral | 137
Anota que não é possível se cogitar em prescrição, já que nos autos existem 
atestados e documentos datados de 2004, demonstrando ser portador de enfisema 
pulmonar e que neste mesmo ano é que foi ajuizada a presente ação. Que também 
comprovou ter sofrido AVC. 
Destaca que o que é arrecadado com os impostos cobrados sobre a fabricação 
e comercialização de cigarros é insuficiente para custear os gastos com o tratamen-
to de usuários de tais produtos. Colaciona julgados que entende aplicáveis ao caso. 
Requer, ao final, sejam julgados procedentes os pedidos iniciais. 
Contrarrazões às fls. 2.136-2.166. 
Remetidos os autos a d. Procuradoria-Geral de Justiça, o il. representante do 
Ministério Público manifestou no sentido de ser desnecessária sua intervenção no 
feito. 
Este é o relatório necessário. PASSO A DECIDIR. 
Registro de início, resolvidas as questões preliminares e prejudiciais no bojo 
da sentença e não havendo recurso a respeito, cabe a esta Instância Revisora apenas 
apreciar o mérito do litígio. Porém, aprecio novamente a questão da prescrição, 
desta vez, erigida nas contrarrazões recursais. 
DA PRELIMINAR DE PRESCRIÇÃO
Em relação a alegada prescrição dos direitos do autor, não merece acolhida a 
assertiva de que ao caso incide a regra do art. 27 do CDC. 
Ora, extrai-se da petição inicial que a presente ação de indenização é fundada 
em responsabilidade civil de direito comum, art. 186 do Código Civil, não em de-
feito ou erro do produto no instante de sua fabricação, pelo que não incide ao caso 
a regra do art. 27 do CDC. 
Neste sentido: 
\u201cEMENTA: RESPONSABILIDADE CIVIL. INDENIZAÇÃO. DANOS MATERIAIS 
E MORAIS. USO DE CIGARROS. TABAGISMO. ÓBITO. PRESCRIÇÃO (ART. 
27 DO CDC). NÃO INCIDÊNCIA. Não sendo o defeito do produto referido na lei 
consumerista a causa principal da indenizatória, mas tratando-se de ação de respon-
sabilidade civil regulada pelo Código Civil, não tem aplicação no caso a prescrição 
quinquenal no art. 27 do CDC\u201d (TJMG, Apelação Cível n. 1.0459.05.020691 9/001, 
Comarca de Ouro Branco).
Apelante(s): Edina de Moura Pereira Rocha e outro(a)(s)
Apelado(a)(s): Souza Cruz S/A, Philip Morris Brasil Ind. Com. Ltda.
Relator: Exmo. Sr. Des. Osmando Almeida
Pelo que, sem mais delongas, rejeito a preliminar de mérito, qual seja, pres-
crição. 
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DO MÉRITO
Após cuidadosa análise dos autos, entendo que não merece prosperar a pre-
tensão recursal. 
Como cediço, a ação de indenização fundada em responsabilidade civil de di-
reito comum, de que ora se trata, encontra supedâneo no art. 186 do Código Civil: 
\u201cAquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, 
violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato 
ilícito.\u201d 
Com efeito, para surgir o dever de indenizar o dano alheio (responsabilidade 
civil) é mister que concorram três elementos: o dano suportado pela vítima, a con-
duta culposa do agente e o nexo causal entre os dois primeiros. 
A propósito, leciona Maria Helena Diniz: 
\u201cNo nosso ordenamento jurídico vigora a regra geral de que o dever ressarcitório pela 
prática de atos ilícitos decorre da culpa, ou seja, da reprovabilidade ou censurabilida-
de da conduta do agente. O comportamento do agente será reprovado ou censurado 
quando, ante circunstâncias concretas do acaso, se entende que ele poderia ou deveria 
ter agido de modo diferente. Portanto, o ato ilícito qualifica-se pela culpa. Não haven-
do culpa, não haverá, em regra, qualquer responsabilidade. O Código Civil, em seu 
art. 159, ao se referir ao ato ilícito prescreve que este ocorre quando alguém, por ação 
ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, viola direito ou causa dano a ou-
trem, em face do que será responsabilizado pela reparação dos prejuízos. Estabelece 
esse diploma legal o ilícito como fonte da obrigação de indenizar danos causados à 
vítima. Logo, a lei impõe a quem o praticar o dever de reparar o prejuízo resultante\u201d 
(Curso de direito civil brasileiro. Saraiva, 7.º v., p. 38).
Neste sentido a doutrina de Caio Mário da Silva Pereira: 
\u201cA teoria da responsabilidade civil assenta, em nosso direito codificado, em torno de 
que o dever de reparar é uma decorrência daqueles três elementos: antijuridicidade 
da conduta do agente; dano à pessoa ou coisa da vítima; relação de causalidade entre 
uma e outro\u201d (Responsabilidade Civil. 2. ed. Forense: Rio de Janeiro, 1990. p.