Direitos do Consumidor
655 pág.

Direitos do Consumidor


DisciplinaConsumidor665 materiais5.450 seguidores
Pré-visualização50 páginas
93).
In casu, o autor alicerça sua pretensão indenizatória no fato de ter a Souza 
Cruz S/A veiculado propaganda enganosa de seu produto, omitindo dado relevante 
capaz de induzi-lo a erro, de modo a incentivá-lo a comportar-se de forma preju-
dicial à sua saúde. 
Pois bem. 
Ab initio, importa ponderar que a prejudicialidade do fumo à saúde é fato 
público e notório, inclusive tendo o Governo Federal reconhecido por meio da 
Portaria n. 695, de 01.06.1999, o poder viciante e maléfico da nicotina presente na 
química do cigarro. 
Parte II \u2022 Cap. IV \u2013 Dano Moral | 139
Contudo, não obstante o cigarro seja, de fato, um produto naturalmente asso-
ciado a riscos para a saúde \u2013 periculosidade inerente, sua fabricação e comerciali-
zação são lícitas em todo o território nacional, não se podendo, portanto, concluir 
que a fabricação e a comercialização do produto tenham consequências no mundo 
jurídico. O mesmo ocorre com as bebidas alcoólicas. 
Vale dizer, observadas pelos fabricante e comerciante as regulamentações so-
bre a matéria, notadamente o disposto no art. 220, § 4.º, da CF/1988, bem como na 
Lei n. 9.294/1996, não há como reconhecer qualquer ilicitude da suplicada em suas 
atividades empresariais. 
Isso visto, importa-nos, agora, a analisar a tese de propaganda enganosa. 
Neste ponto, cumpre-me registrar inicialmente serem inaplicáveis ao presente 
caso as regras de propaganda enganosa inseridas no Código de Defesa do Consu-
midor (Lei n. 8.078, de 1990), visto que os fatos narrados na peça de ingresso ocor-
reram no período anterior à vigência de tal comando legal, ou seja, já que o autor 
supostamente começou a fumar em 1940 e não parou mais. 
Ainda em relação à propaganda veiculada pela empresa ré, deve ser consi-
derado ter ela cumprido seu dever de informação ao consumidor, a partir do mo-
mento em que foi a tanto compelida, o que se deu no ano de 1988, com a promul-
gação da Constituição Federal e o advento da primeira portaria do Ministério de 
Saúde sobre o tema (n. 490), disposições que culminaram na confecção da Lei n. 
9.294/1996, que regula \u201cas restrições ao uso de propaganda de produtos fumeiros, 
bebidas alcoólicas, medicamentos, terapias e defensivos agrícolas\u201d. 
Ressalte-se que, sem existência de lei anterior, não se pode falar em descum-
primento de dever jurídico preexistente, visto que ninguém é obrigado a fazer ou 
deixar de fazer algo senão em virtude de lei (Princípio da Legalidade \u2013 art. 5.º, II, 
da Constituição Federal). 
Nesse sentido: 
\u201cSó se cogita, destarte, de responsabilidade civil onde houver violação de um dever ju-
rídico e dano. Em outras palavras, responsável é a pessoa que deve ressarcir o prejuízo 
decorrente da violação de um precedente dever jurídico. E assim é porque a respon-
sabilidade pressupõe um dever jurídico preexistente, uma obrigação descumprida\u201d 
(CAVALIERI FILHO, Sergio. Programa de Responsabilidade Civil. Rio de Janeiro: 
Malheiros Editores, 1996. p. 20).
Destarte disso, verifica-se que, embora tenham sido trazidos aos autos do-
cumentos médicos comprobatórios das patologias suportadas pela parte autora, 
não há prova contundente de que estas teriam sido desenvolvidas em razão do uso 
contínuo e ininterrupto do produto fabricado pela ré.
140 | Direitos do Consumidor \u2022 Humberto Theodoro Júnior
Assentadas tais premissas, inalteráveis as conclusões do juízo a quo: 
\u201cAnalisando a prova colhida durante a regular instrução processual, notadamente pela 
perícia realizada, vislumbra-se a impossibilidade de obter-se uma segura conclusão 
no sentido de que a enfermidade contraída pelo autor estaria exclusiva e diretamente 
ligada ao consumo de cigarros\u201d (fl. 2.095).
Ademais, a experiência ordinária, prevista no art. 335 do CPC, nos ensina que 
nem todos os fumantes transformam-se em seres absolutamente dominados pelo 
tabagismo. Isso porque a motivação e a disciplina pessoais são instrumentos rele-
vantes para que o fumante deixe de ostentar essa condição, havendo notícia de que 
pessoas que fumaram por longos anos conseguiram afastar-se do vício. 
Assim sendo, a constatação genérica de que a nicotina produz dependência de 
nada valeria como prova judicial, porque é sabido que uma infinidade de fumantes 
abandona o cigarro sem grande esforço, de modo que a proposição científica que 
concluísse positivamente, informando que a nicotina é capaz de criar dependência, 
não provaria que o autor, mesmo tendo fumado durante vários anos, ficou depen-
dente dessa substância. 
Mais uma vez é de se ressaltar que a atividade desenvolvida pela empresa ré é lí-
cita, amplamente regulada pelo poder público, sendo certo que o simples fato de fa-
bricar e comercializar o produto de periculosidade inerente não induz à ilegalidade 
de sua conduta. Se prevalecesse tal entendimento, como dito, a indústria de bebidas 
alcoólicas teria que indenizar a todos aqueles que desenvolvessem cirrose hepática. 
Embora se verifique nos autos a existência de patologias suportadas pela parte 
autora, não há prova contundente de que elas tenham sido desenvolvidas em razão 
exclusiva ou precípua do uso contínuo do produto fabricado pela ré. 
De mais a mais, o próprio perito, em seu laudo de fls.1.541-1.546, chegou à 
conclusão de que \u201cNão é possível estabelecer nexo de causalidade estrito entre o 
fumo e a patologia que acometeu o Autor, pois é patologia multifatorial. No en-
tanto, é possível afirmar que o fumo é um fato patogênico importante na DPOC 
\u2013 Enfisema, tendo nela um papel significativo. [...] Fatores ocupacionais, fatores 
ambientais, características genéticas, hiperatividade das vias aéreas, história de 
alergia, doenças respiratórias agudas recorrentes, deficiência nutricional e consu-
mo de álcool estão incluídos entre os fatores associados à DPOC? Sim\u201d.
Lembre-se, inclusive, que no laudo ainda consta que o autor trabalhou em um 
depósito de materiais de construção, em uma empresa que lidava com galvanoplas-
tia (operação essa que libera no ar partículas sólidas de vapores metálicos), portan-
to, exposto a vários dos fatores acima elencados como sendo possíveis causas da 
lesão que acometia o autor, não apenas ao cigarro. 
Em resumo, não é possível estabelecer nexo causal entre a doença que aco-
meteu o autor e o uso de cigarros de forma exclusiva. E mesmo que tal nexo cau-
Parte II \u2022 Cap. IV \u2013 Dano Moral | 141
sal \u2013 entre o alegado dano e o consumo de tabaco \u2013 restasse demonstrado, ainda 
seria necessária a comprovação de que o autor sempre e exclusivamente consumiu 
cigarros fabricados pela requerida, o que definitivamente não restou comprovado 
nos autos. 
Conclui-se, pois, pela impossibilidade de responsabilização da apelada pelos 
danos reclamados pela autora, ante a inexistência de qualquer conduta ilícita pas-
sível de indenização, praticada pela ora recorrida, principalmente por não haver 
prova suficiente nos autos de que os males suportados pela autora advieram exclu-
sivamente do uso do cigarro. 
A propósito: 
\u201cINDENIZAÇÃO. TABAGISMO. AUSÊNCIA. NEXO CAUSAL. É necessário que se 
estabeleça uma relação de causalidade entre as doenças alegadas e o tabagismo, para a 
configuração do dever de indenizar\u201d (TAMG, Apelação Cível n. 360.841-5, 5.ª Câma-
ra Cível, Rel.ª Juíza Eulina do Carmo Almeida, j. em 25.05.2002).
\u201cEMENTA: RESPONSABILIDADE CIVIL \u2013 DANO MATERIAL E MORAL \u2013 USO 
DE CIGARROS \u2013 PRESCRIÇÃO (ART. 27 DO CDC) \u2013 NÃO INCIDÊNCIA \u2013 IN-
VERSÃO DO ÔNUS DA PROVA \u2013 REQUISITOS. Não sendo o defeito do produto 
referido na lei consumerista a causa principal da indenizatória, mas tratando-se de 
ação de responsabilidade civil regulada pelo Código Civil de 1916, não tem aplicação 
no caso a prescrição quinquenal no art. 27 do CDC. Como é cediço, a inversão do 
ônus da prova, de que trata o art. 6.º, VIII, do CDC, não ocorre automaticamente; 
necessário se torna que o magistrado se convença da verossimilhança