Direitos do Consumidor
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dano e da autoria até a propositura da ação de indenização, deve ser reconhecida 
a prescrição da pretensão deduzida em juízo. V.v. O prazo de cinco anos atingirá a 
pretensão do consumidor com base no CDC, mas não o impedirá de ajuizar outra 
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ação, desde que não prescrita a prevista no art. 159 do CC, todavia não possuirá as 
inúmeras benesses do CDC. 
APELAÇÃO CÍVEL N. 1.0596.04.019580-9/001 \u2013 COMARCA DE SANTA 
RITA DO SAPUCAÍ 
Apelante(s): Souza Cruz S/A 
Apelado(a)(s): Celso Adami Medeiros
Relator: Exmo. Sr. Des. Bitencourt Marcondes 
ACÓRDÃO
Vistos etc., acorda, em Turma, a 15.ª CÂMARA CÍVEL do Tribunal de Justiça 
do Estado de Minas Gerais, na conformidade da ata dos julgamentos e das notas 
taquigráficas, EM DAR PROVIMENTO, VENCIDO O VOGAL. 
Belo Horizonte, 26 de junho de 2008
DES. BITENCOURT MARCONDES, Relator 
NOTAS TAQUIGRÁFICAS
Produziram sustentação oral: pela apelante, o Dr. Paulo Rogério Brandão e, 
pelo apelado, o Dr. Luiz Roberto Capistrano. Assistiu ao julgamento, pela apelante, 
o Dr. Tiago da Silveira Rabelo. 
Sessão do dia 12.06.2008 
O SR. DES. BITENCOURT MARCONDES:
VOTO
Trata-se de recurso de apelação interposto por SOUZA CRUZ S/A em face da 
sentença proferida pelo MM. Juiz de Direito Romário Silva Junqueira, da 1.ª Vara 
Cível da Comarca de Santa Rita do Sapucaí, que julgou parcialmente procedente a 
ação ordinária ajuizada por CELSO ADAMI MEDEIROS, para condenar a ré ao 
pagamento da quantia de R$ 1.000.000,00 (um milhão de reais), a título de indeni-
zação por danos morais. 
Pleiteia a reforma da sentença, aduzindo as seguintes alegações: 
\u2013 prescrição da pretensão, nos termos do art. 27, do Código de Defesa do 
Consumidor, porquanto a ação foi ajuizada mais de cinco anos após o conhecimen-
to do dano e da autoria; 
\u2013 o apelado não se desincumbiu do ônus de comprovar os fatos constitutivos 
de seu direito, porquanto não há, nos autos, prova: (i) do consumo de produtos 
fabricados pela apelante; (ii) dos danos alegados; (iii) do nexo causal direto e ime-
diato entre os danos supostamente sofridos e o consumo de cigarros; (iv) de que 
começou a fumar aos 12 anos e consumia 5 maços de cigarros por dia; (v) de que foi 
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enganado pela publicidade; (vi) de que não sabia que o consumo de cigarros estava 
associado a riscos; (vii) de que é \u201cviciado\u201d; 
\u2013 inexiste fundamento legal para lhe imputar a responsabilidade pelo ressar-
cimento dos danos alegados, porquanto o art. 12, do Código de Defesa do Con-
sumidor, estabelece a responsabilidade do fabricante pela existência de defeito no 
produto, o que não se verifica no caso em tela, já que o cigarro não pode ser consi-
derado um \u201cproduto defeituoso\u201d apenas pelo fato de estar associado a conhecidos 
riscos para a saúde; 
\u2013 o cigarro é um produto de periculosidade inerente, pois os riscos associados 
ao seu consumo são por todos razoavelmente esperados; 
\u2013 a regulamentação referente às informações que os fabricantes de cigarro 
devem incluir nos maços e peças publicitárias somente foi editada em 25.08.1988; 
assim, em decorrência do princípio da legalidade, não pode ser responsabilizada 
pela omissão em informar antes dessa data; 
\u2013 não há nexo de causalidade entre a veiculação de publicidade e o fato de as 
pessoas começarem a fumar, conforme restou amplamente demonstrado; 
\u2013 o próprio apelado confessou sempre ter tido ciência dos riscos associados ao 
consumo de cigarros, o que denota a existência de excludente de responsabilidade 
(culpa exclusiva da vítima).
Requer, em decorrência do princípio da eventualidade, a redução do valor da 
indenização por danos morais para R$ 15.000,00, e da verba honorária para 10% 
sobre o valor da condenação. 
Contrarrazões às fls. 2.181/2.198. 
I \u2013 DO RECURSO DE APELAÇÃO
Conheço do recurso, porquanto presentes os pressupostos de admissibilidade. 
A) DA PRESCRIÇÃO 
Sustenta a ocorrência da prescrição, nos termos do art. 27, do Código de De-
fesa do Consumidor, porquanto a ação foi ajuizada mais de cinco anos após o co-
nhecimento do dano e da autoria. 
Argumenta que o documento acostado às fls. 1.392 \u2013 laudo elaborado por três 
médicos do Município de Santa Rita do Sapucaí \u2013 demonstra que, desde 11 de maio 
de 1999, o apelado já estava impossibilitado de exercer suas atividades laborais em 
razão das doenças alegadas na inicial. Assim, como a ação foi ajuizada somente 
em 29.07.2004, ou seja, 5 anos, 2 meses e 18 dias após a constatação do dano e sua 
alegada autoria, é evidente a ocorrência da prescrição. 
A primeira questão que se coloca diz respeito à aplicação do Código de Defesa 
do Consumidor ao caso em tela. 
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Nesse contexto, inegável a incidência da legislação consumerista, por força do 
disposto nos arts. 2.º e 3.º, do Código de Defesa do Consumidor, in verbis: 
\u201cArt. 2.º Consumidor é toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto 
ou serviço como destinatário final. 
Art. 3.º Fornecedor é toda pessoa física ou jurídica, pública ou privada, nacional ou 
estrangeira, bem como os entes despersonalizados, que desenvolvem atividades de 
produção, montagem, criação, construção, transformação, importação, exportação, 
distribuição ou comercialização de produtos ou prestações de serviços.\u201d
Com efeito, a relação jurídica travada entre as partes litigantes caracteriza-se 
como típica relação de consumo, pois, se por um lado, o apelado se apresenta como 
consumidor final, por outro, a apelante se enquadra na definição de fornecedor 
dada pelo art. 3.º, do Código de Defesa do Consumidor. 
Assim, e considerando que a presente demanda diz respeito à responsabili-
dade pelo fato do produto (indenização por danos causados em decorrência do 
consumo de cigarros fabricados pela apelante), não há dúvidas acerca da incidência 
da norma inserta no art. 27, do Código de Defesa do Consumidor, in verbis: 
\u201cArt. 27. Prescreve em 5 (cinco) anos a pretensão à reparação pelos danos causados 
por fato do produto ou do serviço prevista na Seção II deste Capítulo, iniciando-se a 
contagem do prazo a partir do conhecimento do dano e de sua autoria.\u201d
Ressalte-se que a norma acima mencionada, por ser especial em relação 
àquela que regula a prescrição das ações pessoais (art. 177, do Código Civil de 
1916; atual art. 205, do Código Civil de 2002), afasta a incidência da regra geral 
de Direito Civil. 
A propósito, vale transcrever excerto do voto do Ministro Carlos Alberto Me-
nezes Direito, proferido em caso análogo (REsp. n. 304.724/RJ):
\u201cNeste feito, especificamente, sob todas as luzes, trata-se de indenização por fato do 
produto e, se é por fato do produto, evidentemente não se pode aplicar a prescrição do 
direito comum; aplica-se a prescrição do Código de Defesa do Consumidor, no caso, 
a prescrição do art. 27.\u201d
Posto isso, cumpre analisar a ocorrência ou não da prescrição da pretensão 
deduzida em juízo. 
Pela análise detida dos autos, notadamente do laudo médico acostado às fls. 
1.392, observa-se que, em 11.05.1999, três peritos médicos do Município de Santa 
Rita do Sapucaí atestaram a incapacidade do apelado para exercer sua função pú-
blica, por ser portador de \u201cdoença crônica por enfisema pulmonar\u201d e \u201cprolapso de 
válvula mitral sintomático\u201d.
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Ademais, o próprio apelado, em seu depoimento pessoal, afirma ter sofrido 
enfisema pulmonar há, aproximadamente, quinze anos, conforme se depreende do 
excerto abaixo transcrito (fls. 1.569):
\u201c[...] faço uso de cigarros desde os doze anos de idade, a minha ideia já não ajuda, 
por isso, lembro-me que ultimamente eu fumava cigarros da marca Hollywood (sic) 
e acabei por sofrer um enfisema pulmonar há mais ou menos quinze anos passados