Prevencao Trat Feridas Da Evidencia A Pratica
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Prevencao Trat Feridas Da Evidencia A Pratica


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terapêuticas adequadas que visam 
a cicatrização destas feridas. 
A avaliação e gestão de uma úlcera de pressão exige uma abordagem global e multidisciplinar (Pini & 
Alves, 2012). 
 
10. 1 Fisiopatologia das úlceras de pressão 
É do conhecimento comum que as UP são principalmente causadas pela carga mecânica prolongada 
nos tecidos moles do corpo, os efeitos na microcirculação, a sua relação entre as forças externas 
aplicadas à pele e a resistência da mesma (Romanelli, Clark, Cherry, & Defloor, 2006). 
Apesar dos mecanismos fisiopatológicos subjacentes ao desenvolvimento das UP ainda não estarem 
totalmente esclarecidos, existem diversas variáveis já descritas que podem ser consideradas (Pini & 
Alves, 2012). A definição da EPUAP & NPUAP reflete essa incerteza, evidenciando a natureza 
multifatorial que envolve a sua etiologia (EPUAP & NPUAP, 2009). 
Tudo começa na terminologia associada ao nome, úlcera de pressão (UP), sendo este o nome mais 
comum para estas lesões, no entanto, também são denominadas frequentemente por feridas de 
pressão, úlceras dos acamados e úlceras de decúbito (Dealey, 2006). 
De acordo com a definição internacional de UP de NPUAP / EPUAP (2009), uma úlcera de pressão é 
uma lesão localizada na pele e/ou tecido subjacente, normalmente sobre uma proeminência óssea, 
em resultado da pressão ou de uma combinação entre esta e forças de torção. Às UP também estão 
associados fatores contribuintes e de confusão cujo papel ainda não se encontra totalmente 
esclarecido (EPUAP & NPUAP, 2009) 
Já a Classificação Internacional para a Prática de Enfermagem (CIPE), define UP como um foco de 
atenção descrito como \u201cdano, inflamação ou ferida da pele ou estruturas subjacentes como resultado 
da compressão tecidular e perfusão inadequada\u201d (Ordem Enfermeiros, 2011). 
As UP ocorrem frequentemente em pessoas com diversas morbilidades, especialmente as que estão 
perto do fim da vida, ainda que recebam bons cuidados (Warriner & Cárter, 2011). Para Jaul (2010) a 
imobilidade, deficiência nutricional, pele idosa e doenças crónicas, aumentam a vulnerabilidade para 
o desenvolvimento destas feridas. 
As UP ocorrem por forças de pressão e deformação tecidular sobre proeminências ósseas com maior 
frequência nas regiões sacrococcígea, trocantérica, escapular, occipital, maleolar e nos calcâneos, mas 
também sobre tecidos moles que sofram pressão continua. 
A fisiopatologia de UP descreve quatro mecanismos sobre os tecidos moles em resposta a carga 
mecânica: isquemia localizada, o fluxo prejudicado do fluido intersticial e drenagem linfática, lesão de 
reperfusão e deformação celular persistente (Gefen, Gefen, & Linder-Ganz, 2005; Linder-Ganz & 
Gefen, 2007; Linder-Ganz & Gefen, 2004). 
A pressão é o principal responsável pela isquemia e necrose dos tecidos, pela aplicação desta força 
perpendicular (pressão) exercida pelo peso do indivíduo contra uma superfície de apoio (Fleck, 2012). 
\u201cA pressão é a quantidade de força aplicada perpendicularmente a uma superfície por unidade de área 
de aplicação\u201d (Review, 2010, p. 2). A relação entre a quantidade de força e a área de distribuição é 
inversamente proporcional, isto é, uma força aplicada é tanto maior quanto menor for a superfície de 
aplicação. 
 
Figura 1 - Definição de pressão (Fonte: Review, 2010). 
 
Fatores como a fricção e as forças de torção e deslizamento agravam os efeitos da pressão. 
Investigações recentes afirmam que a fricção, a torção e o microclima desempenham um papel 
importante no desenvolvimento deste tipo de lesão (APTFeridas, 2012). 
 
As forças de torção e forças tênseis constituem os denominados \u201cstresses internos\u201d. Estas forças 
surgem mesmo quando só é aplicada a pressão, causando deformação (torção) e alongamento (tênsil) 
da pele e tecidos moles, em especial junto às proeminências ósseas onde estas forças são mais 
intensas e os tecidos mais frágeis. (Review, 2010). 
 
 
Figura 2 - Forças aplicadas a uma superfície (Fonte: Review, 2010). 
 
As forças de torção são forças tangenciais e paralelas à pele que causam deformação das células. 
Encontra-se frequentemente associada à pressão. A fricção consiste no roçar de uma superfície sobre 
outra. Esta contribui para o desenvolvimento de forças de torção ao manter a pele na posição em que 
se encontrava enquanto internamente, e por ação da gravidade, as estruturas se movem. Por outro 
lado, as forças de torção também podem ser originadas pela aplicação de uma força de pressão que 
vai comprimir os tecidos e distorcê-los (Review, 2010). 
A deformação dos tecidos ocorre quando as camadas tecidulares se movem em sentidos distintos, 
levando à perda de conetividade entre elas enfraquecendo-os. 
 
Figura 3 - Efeitos da torção nas camadas tecidulares (Fonte: Review, 2010). 
 
Associadas a estas forças, estão habitualmente as forças de fricção. Associadas, alterações do estado 
da pele (como a maceração) potenciam os efeitos da fricção levando mais rapidamente à lesão. A 
fricção também pode causar torção no tecido celular subcutâneo junto às proeminências ósseas. 
(Review, 2010). 
As medidas de redução destas forças podem ser obtidas através de posicionamentos e transferências 
adequados, bem como, pelo uso de têxteis com baixo coeficiente de fricção (Review, 2010). 
Outro fator de risco contribuinte para o desenvolvimento de UP é o denominado microclima. Este é 
descrito pela influência da temperatura, humidade da pele e pela circulação do ar na interface entre 
a superfície de apoio e a pele (Review, 2010). 
São vários os autores que investigam o microclima, que só agora parece esclarecer melhor os seus 
pressupostos (humidade, temperatura e circulação do ar), como podemos verificar na figura nº 4. 
 
 
Figura 4 - Microclima e risco de UP (retirado de (Clark & Black, 2011)). 
 
 
Controlando os níveis de calor e de humidade da superfície da pele, estamos perante intervenções de 
prevenção de UP, pois impedimos o aumento da temperatura da pele, reduzindo o consumo 
metabólico, assim como, ao impedirmos a acumulação de humidade na pele aumentamos a 
resistência da mesma. 
Por último, as caraterísticas individuais dos doentes, o motivo de internamento, o número de cirurgias 
e o tipo de cuidados prestados vão ter impacto na forma como os diversos fatores de risco intrínsecos 
e extrínsecos intervêm no desenvolvimento das UP. 
 
10. 2 Epidemiologia das úlceras de pressão 
Os investigadores advogam que as UP são evitáveis, no entanto, as elevadas taxas de incidência e 
prevalência, mesmo em países desenvolvidos mantêm-se, sugerindo uma lacuna entre o 
conhecimento científico e a aplicação clínica do conhecimento (Pini & Alves, 2012). 
O primeiro estudo europeu multicêntrico de prevalência de UP, reporta-se a 2001 e foi conduzido pela 
EPUAP. Portugal foi um dos países que colaborou no estudo, tendo-se observado prevalência de 12,5% 
de UP no país. 
Existem outros estudos a nível Europeu, como o do Grupo Nacional para o Estudo e Assessoria em 
Úlceras por Pressão e Feridas Crónicas (Soldevilla, et al., 2006) no qual os resultados em Espanha 
demonstram que a prevalência em hospitais de doentes agudos é de 8,8%, nos centros sócio sanitários 
é de 7,6% e no domicílio é de 8,3%. Refere ainda que, em ambiente hospitalar, a prevalência de UP 
oscila de acordo com o tipo de unidade de cuidados com valores que variam de 4,4% nos serviços 
cirúrgicos, 9,2% nos serviços de Medicina, 10,3% nas unidades mistas de doentes médico-cirúrgicos e 
13,2% nas unidades de cuidados intensivos. 
Um estudo de revisão sistemática, realizado por Pancorbo-Hidalgo et al. (2006), refere que a 
prevalência de UP em países desenvolvidos está entre 3% a 30% e que