CAB Práticas integrativas fitoterapia
154 pág.

CAB Práticas integrativas fitoterapia


DisciplinaFitoterapia591 materiais2.205 seguidores
Pré-visualização40 páginas
que atuam farmacologicamente ao mesmo tempo, seja por meio de sinergismo, antagonismo, interações farmacocinéticas ou outras; sua ação 
farmacológica costuma ser analisada \u201cem bloco\u201d, como um todo.
59
PLANTAS MEDICINAIS E FITOTERAPIA NA SAÚDE DA FAMÍLIA
isentos de toxicidade, como qualquer medicamento, e há evidências bibliográficas de reações 
adversas, precauções necessárias e interações medicamentosas. Ainda assim, a tolerância aos 
fitoterápicos é em geral maior se comparada aos fármacos (SCHULZ; HÄNSEL; TYLER, 2001, p. 21-
26; FINTELMANN; WEISS, 2010). 
Adicionalmente, Fintelmann & Weiss (2010) classificam os fitoterápicos que estariam 
disponíveis para uma prescrição em categorias terapêuticas (Quadro 1), uma interessante 
orientação para guiar a decisão clínica e que ajuda a esclarecer as possibilidades (ou não) de 
tratamento fitoterápico exclusivo ou combinado. 
Quadro 1 \u2013 Categorias terapêuticas para fitoterápicos.
Categoria 1 Indicações para as quais os fitoterápicos são a opção terapêutica de 1ª escolha e, 
para as quais, como alternativa, não existiriam medicamentos sintéticos*. Exs.: 
hepatites tóxicas, hiperplasia benigna de próstata, entre outros.
Categoria 2 Indicações para as quais os medicamentos sintéticos podem ser substituídos por 
fitoterápicos. Exs.: estados leves de ansiedade e/ou depressão reativa, dispepsia 
não ulcerosa neoplásica, infecções urinárias inespecíficas, entre outros. 
Categoria 3 Indicações nas quais os fitoterápicos podem ser usados como coadjuvantes para 
uma terapia básica. Exs.: outras doenças hepáticas e das vias respiratórias, entre 
outras. 
Categoria 4 Indicações nas quais o uso dos fitoterápicos não é adequado, caracterizando 
até mesmo erro médico, pela possibilidade de retardar ou impedir uma terapia 
racional com medicamentos sintéticos, mais adequados. Ex.: tratamento primário 
do câncer. 
Fonte: FINTELMANN; WEISS, 2010, p. 17, com adaptações.
*... ou, se existirem, não seriam tão eficientes quanto o fitoterápico.
Como se percebe, e ao contrário do que o senso comum pode vir a afirmar, prescrever 
fitoterapia não é simples. Em nossa realidade, na qual esse campo do conhecimento ainda é 
marginalizado e negligenciado no ensino médico, observamos que os médicos adeptos dela, 
ao menos a maior parte deles, obrigam-se a uma contínua atualização em novos livros e nas 
bases de dados de maneira a adaptar certo arsenal de plantas medicinais e fitoterápicos de 
domínio técnico em sua rotina de trabalho. Tal hábito lhes confere maior segurança ao propor 
(ou aceitar) escolhas terapêuticas que incluam fitoterápicos. Outro ponto a ser valorizado é na 
Saúde da Família, na qual a fitoterapia pode assumir caráter preventivo, como intervenção em 
predisposições familiares e constitucionais, e junto às condições patológicas ainda em sua fase 
incipiente (FINTELMANN; WEISS, 2010, p. 10-11).
Schulz, Hänsel & Tyler (2002, p. 24-25) nos chamam a atenção para o fato de que as doenças 
brandas ou moderadamente graves, tratadas por médicos de Família na Alemanha, respondem 
com altas frequências de cura tão somente em virtude do \u201cefeito consulta\u201d ou, como eles 
chamam, do componente psicodinâmico do efeito de qualquer tratamento, bem como do efeito 
placebo em ensaios clínicos (fenômenos frequentemente confundidos entre si), campo estudado 
60
Ministério da Saúde | Secretaria de Atenção a Saúde | Departamento de Atenção Básica
aqui no Brasil por Emerson Elias Merhy, que desenvolveu o conceito de tecnologias leves ou 
relacionais (MERHY, 2002). O efeito de uma clínica mais potente estaria, então, primordialmente 
orientado pelas tecnologias leves. A partir desse fato, Schulz, Hänsel & Tyler invertem a 
argumentação, lançando os seguintes questionamentos: o que justificaria a prescrição de um 
medicamento sintético e de maior risco à saúde como primeira opção em certos casos? Por que 
não um fitoterápico? Eis algumas questões que colocam em xeque a onipotência de decisões 
fundamentadas unicamente em evidências. 
4.1.4 A prescrição fitoterápica
Imaginemos um caso com um diagnóstico \u201cfechado\u201d, uma indicação criteriosamente definida 
para o emprego de fitoterápico, bons extratos de plantas validadas à disposição e uma consciência 
mútua (médico e pessoa a ser cuidada) a respeito do papel a ser representado pela fitoterapia no 
contexto terapêutico em questão. Fim? Ainda não, há outras decisões pela frente, e abordaremos 
sucintamente alguns tópicos essenciais, como a escolha monoterapia X associações de plantas, 
formas farmacêuticas, posologia e seguimento clínico, já que cada medicamento fitoterápico \u2013 
em cada caso singular \u2013 demandará observações igualmente singulares. 
Quanto ao primeiro ponto, recomenda-se sempre preferir a monoterapia, por tudo que 
dissemos anteriormente neste capítulo. Caso um único extrato não seja suficiente e se opte 
por associar extratos de plantas a fim de compor um único fitoterápico, preferir as chamadas 
\u201cassociações fixas\u201d ou \u201cformulações consagradas\u201d (FINTELMANN; WEISS, 2010, p. 25-26), muitas 
delas com longo tempo de uso. Isso porque é necessário profundo conhecimento de cada planta 
individualmente, tanto nos aspectos farmacodinâmicos (efeitos sinérgicos ou antagônicos) como 
farmacocinéticos (melhor ou pior absorção etc.), para se projetar uma boa associação, que, por 
sua vez, gera novos fenômenos farmacodinâmicos e farmacocinéticos e que igualmente terão 
que ser conhecidos. 
Para escolher a forma farmacêutica e/ou apresentação, considera-se a planta em si e seu 
extrato, a indicação em questão e até mesmo a categoria de insumo disponível em cada rede de 
saúde (Quadro 2). São várias as opções possíveis, devendo o prescritor se adequar às necessidades 
do caso e à sua realidade. Infusões, decocções, banhos e compressas são obtidos a partir da planta 
fresca ou droga vegetal. No caso de se contar com uma farmácia de manipulação no serviço ou 
na rede, é possível dispor também de tinturas e extratos em geral, que, por sua vez, poderão ser 
prescritos puros ou ainda compor formulações como xaropes, cremes, géis, pomadas, cápsulas ou 
comprimidos. Os fitoterápicos industrializados fornecem extratos previamente padronizados e 
constância de ativos em suas apresentações. 
Quanto à dose ou posologia, há grande peculiaridade na prescrição fitoterápica, conforme 
podemos deduzir a partir do que se falou anteriormente: é irrelevante simplesmente informarmos 
a massa desejada para as doses de extrato (miligramas, milicentigramas etc.). É fundamental que, 
ao elaborar a receita, o prescritor indique: o nome botânico da droga vegetal; o tipo de extrato 
61
PLANTAS MEDICINAIS E FITOTERAPIA NA SAÚDE DA FAMÍLIA
(seco, fluido etc.), sua padronização e forma de apresentação; a dose\u2013posologia; e o modo de 
usar. Só assim se garantirá boa comunicação entre o médico e o farmacêutico que manipulará 
ou dispensará o produto, poupando assim o usuário de se expor a produtos de baixa qualidade 
ou equivocados, como vemos não raramente acontecer. Por vezes, faz-se necessário conversar 
previamente com o profissional farmacêutico para saber que produtos estão disponíveis, e 
decidir em conjunto a melhor forma farmacêutica e apresentação para cada caso. A quantificação 
da posologia, portanto, é mais complexa na fitoterapia, e aqui mais uma vez os fitoterápicos 
industrializados trazem alguma vantagem, por antecipar esse planejamento posológico em seu 
desenvolvimento, embutindo os cálculos já sistematizados na bula, além das outras informações 
obrigatórias referentes à segurança. 
No que se refere ao seguimento clínico e à evolução de cada caso, independentemente de 
como é fornecida a planta medicinal ou fitoterápico, valem as mesmas etapas mínimas de todo 
fazer clínico, recomendando-se a elaboração de protocolos clínicos para o tratamento de doenças 
definidas, com respaldo científico em