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O negro na Bahia

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escolha; 130$000 para os de segunda; e 110$000 
para os de terceira. Os moleques de l.a escolha a 
120$000, e os de secunda e terceira respectivamente a 
100$000 e 90$000. Os molecotes bons a 85$000 e ordi-
nários 70$000. Moleconas a 70$000 e ordinárias 60|. 
Molequinhas boas a 50|Q00 e ordinárias a 40$000. As 
melhores negras ou molecas a 9OS0O0, e as inferiores 
a 75-$000 e 651000. E as molequinhas "bem feitas" a 
50|000. 
Em 1754, na Bahia, havia se vendido negros a 
170,f000 os de l.a escolha, e a 150$000 os de segunda. 
(22) No fim do século custariam 140$000. (23) 
P&sísara, porém, a época das Companhias desse 
gênero. Sobretudo excluía o Rio de Janeiro,- que já 
(22) Col. Ms. do Arq. Pub. da Bahia. Ordens Regias. 
Carta de D. Manuel Antônio Souto Mayor em 20-10-1754. 
(23) P. Calmo n, O Brasil e a Imigração Negra. Jornal 
do Comércio de 31-12-1933. 
O NEGRO NA BAHIA 3 3 
se tornara um dos grandes empórios nacionais de escra-
vos. E a idéia não vingou. Perdida a oportunidade 
de 1743, os negociantes baianos não mais a puderam en-
contrar em 1757. O tráfico encaminhava-se para uma 
época de livre concorrência. A medida talvez contribuís-
se para o seu desenvolvimento, e no fim do século a posi-
ção do comércio de negros atingiria a tal nível, que o 
Príncipe D . João escreveria ao Governador Francisco da 
Cunha Menezes dizendo "prosperar nela [Bahia] pre-
sentemente o comércio da África e por maneira tal 
que várias Embarcações do Giro da Costa da Mina ti-
nham concluído a sua viagem de ida e volta em pouco 
mais de 4 meses, trazendo quase toda a Escravatura 
em bom estado'*. (24) 
Na história trágica do tráfico uma das primeiras 
demonstrações de piedade pela sorte dos infelizes que 
se amontoavam nos porões dos navios negreíros foi o 
Alvará de 18 de Março de 1684, pelo qual D. Pedro 
limitava a lotação das embarcações de acordo com a 
arqueação de cada qual. "Sendo informado, reza b 
Alvará, que na condução dos negros cativos de Angola 
para o Estado do Brasil usão os carregadores e Mes-
tres dos Navios a violência de os trazerem tão aper-
tados e unidos uns aos outros que não somente lhes 
falta o desafogo necessário para a vida, cuja conser-
vação é comum e natural para todos, ou sejão livres 
ou escravos; mas do aperto com que vem suceder mal-
tratarem-se de maneira que morrendo muitos chegão 
infinitamente lastimosos os que ficão vivos". As nor-
mas mandadas observar eram de 7 cabeças por 2 to-
neladas com portinholas e 5 quando não as houvesse. 
Nas partes superiores iriam 5 moleques por tonelada. 
Deveria além disso haver um capelão a bordo, e serem 
os escravos tratados com caridade. Aos transgresso-
res impunham-se pesadas penalidades. Os Provedo-
res que permitissem a violação da lei perderiam o 
Ofício. Os Mestres e Capitães seriam multados em 
2.000 cruzados e o dobro do valor dos negros, caben-
do metade a quem os denunciasse. E os Senhores e 
(24) Cal. Ms. do Arq. Pub. da Bahia. Ordens Regias. 
V. 88, pag. 77. Carta de 1-12-1800, 
34 LTTIZ VIANNA, PILHO 
carregadores seriam condenados a 10 anos de degredo 
para a índia. (25) 
Não parece, porém, que se tenha tornado efeti-
va a clemência Real, senão para efeito das propinas. 
Pela arqueação percebia o Provedor-Mor 2$, o Procu-
rador 2$ e o Escrivão 2$. Entregue aos cuidados du-
ma burocracia que também negociava e que facilmente 
se deixava seduzir pelas generosidades dos negreiros, 
o Alvará passou a ser apenas uma formalidade a mais, 
oportunidade para a cobrança de novos emolumentos. 
Os navios continuaram superlotados. E nem por is-
so houve notícia de ter sido alguém condenado por ne-
gar aos negros o "desafogo necessário para a vida". 
Não que se descuidasse a Coroa. Esta, .pelo contrário, 
parecia zelosa pela sorte dos desgraçados. Ainda em 
1744 indagava o Rei ao Conde de Galveas o que era feito 
das devassas sobre as arqueações. (26) Este, forrado 
por sutil espírito de ironia, e como a querer dizer 
ao interlocutor que a culpa era menos da Colônia do 
que de Lisboa pelo desrespeito à lei, informava que 
"no ano de 17 para 18 [1717-1718] saiu culpado um Ca-
pitão que navegava para a Costa da Mina chamado 
João Luiz Porto e não me lembra que outro homem 
mais, e forão presos e remetidos para essa Corte [Lis-
boa], e os livramentos correrão com tanta velocidade 
que na mesma frota em que forão tornarão a voltar, 
desde então para cá não me consta que houvesse ou-
tros culpados". (27) Se Lisboa os soltava, por que 
os prender? Como causa outra para que se não pudes-
se processar os culpados, Galveas apontava ainda a 
falta de testemunhas, pois "esses navios da Costa da 
Mina e de Angola, não trazem mais que 10 ou 12 ho-
mens brancos quando muito de que se compõe as suas 
equipagens". Nessas condições, e se todos negavam, 
como apurar responsabilidades? Nem porisso se des-
cuidava a Coroa. Ainda em, 1758 Tome Joaquim da 
(25) Em 23 de Novembro de 1813, D. João VI expediu 
outro alvará, estabelecendo várias medidas para atenuar as 
barbaridades do tráfico. , 
(26) Col. Ms. do Arq. Pub. da Bahia. Ordens Regias. 
Carta de 16-5-1744. 
(27) Gol. Ms. do Arq. Pub. da Bahia. Ordens Regias. 
Carta de 16-5-1744. 
O NEGKO NA BAHIA 35 
Costa Corte Real insistia junto ao Conde dos Arcos 
para que se fizessem as arqueações e indagava do 
"número de escravos que pode e deve sustentar com 
largueza em agoada e mantimentos huma das referidas 
toneladas do Porão". (28) A resposta calculava em 28 
pipas de água para cada 100 escravos vindos de An-
gola, ficando livres os paióis de popa e proa pare 
mantimentos. 
Causas para que morressem os escravos é que ja-
mais faltariam. 
E, além do mais, — d,eviam pensar todos — que 
importava a Portugal que morressem mais ou menos 
negros? Por isso os escravos continuaram empilha-
dos nos porões dos navios, sucumbindo, vítimas das epi-
demias que se manifestavam nesse ambiente sórdido 
que era ao mesmo tempo morada, cama e latrina. B 
os traficantes, fingindo ignorar as causas verdadeiras 
das perdas, atribuíam-nas em grande parte à escala 
nas ilhas de S. Tome ou Príncipe, escala incômoda e 
cuja obrigatoriedade procuraram durante muito tempo 
eliminar. Simples pretexto, pois o próprio Governa-
dor das ilhas, em 1755, pedia que aí não aportassem 
os tumbeiros, que segundo informava a Pomhal, "nada 
levão para aí e só infeccionam a terra com as doenças 
que trazem e que vêm ordinariamente os escravos 
tocados". (29) As enfermidades imputadas ao apor-
tarem nas ilhas já os trazia a escravatura dos portos do 
embarque. Mas nem por isso deixaram os negociantes 
da Bahia de escreverem ao Príncipe Regente afirmando 
serem as duas ilhas "talvez o país mais malsão de 
todos os Domínios de V. M. epidêmico de febres e bexi-
gas". E, para o comprovarem, declaravam que os que 
aí tocavam perdiam metade, dois terços e até mais da 
carga, enquanto chegavam a não ter um morto sequer 
as embarcações que não faziam a escala. (30) D. 
Francisco da Cunha Menezes, aliás, confirmava o depoi-
mento dos traficantes, dizendo concorrer a escala por 
(28) Idem — Carta de 25-1-1758. 
(29) Inventário dos Does. relativos ao Brasil n.° 1845, 
in Anais da Bib. Nacional, vol. 31. 
(30) Gol. Ms. do Arq. Pub. da Bahia. Ordens Regias. 
V. 82, pag. 89. 
3 6 LUIZ VIANNA FILHO 
S. Tome ou Príncipe para a "notável mortandade ou 
infecção de escorbuto na Escravatura". (31) A pas-
sagem pelas ilhas foi extinta em 1800. 
A exigência de capelães a bordo dos "tumbeiros" 
foi outra idéia que sempre incomodou os traficantes. 
Queixavam-se de não suportar o negócio a despesa feita 
com o representante da igreja que, em 1799, ganhava 
450| por viagem. Era, porém, e sobretudo, um incô-
modo companheiro de viagem, nem sempre disposto a 
transigir com os mil ardis dos traficantes para lesarem 
o erário público. Acabaram por conseguir