A Psicologia das Cores   Eva Heller
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A Psicologia das Cores Eva Heller


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falar em \u201cazul veneno\u201d, em que pese
o fato de não nos alimentarmos com nada que seja dessa cor. Se nos
oferecessem macarrão tingido de azul ou chantilly azul, com certeza acharíamos
esses itens repulsivos.
O verde se tornou a cor do veneno em função da tinta usada para pinturas
artísticas. Desde a Antiguidade se conhecia um verde luminoso, que era obtido a
partir de chapas de cobre que, tratadas com vinagre, produziam azinhavre. Esse
azinhavre era raspado e misturado com cola ou gema de ovo, ou ainda com óleo,
como aglutinantes \u2013 desse modo era produzida a tinta. Esse é o verde intenso que
vemos nos telhados de cobre, que é também chamado de \u201cverde cobre\u201d, e que
tem efeito tóxico.
Em 1814, uma empresa fabricante de corantes de Schweinfurt obteve êxito
na produção de um verde ainda mais intenso, a partir da dissolução das chapas de
cobre em arsênico. Esse novo verde recebeu o nome de \u201cverde de Schweinfurt\u201d.
Porém ele logo chegou aos mercados sob muitas outras designações, como
\u201cverde imperial\u201d; contudo, o verde era, em geral, batizado com o nome do lugar
em que era fabricado, \u201cverde de Leipzig\u201d, \u201cverde suíço\u201d \u2013 todos esses nomes
pareciam querer dissimular o fato de que esse verde ainda era venenoso. Aliás, o
arsênico é um dos venenos mais fortes. Não era apenas sua fabricação que
causava malefícios à saúde \u2013 mesmo depois de processado, esse verde
continuava perigoso, pois o veneno se dissolvia com a umidade e o arsênico,
invisível, evaporava.
Verde era a cor predileta de Napoleão, e foi a cor que o levou à ruína. Seu
exílio em Santa Helena era todo atapetado de verde. Há algumas décadas,
químicos franceses examinaram o que sobrou dos restos mortais de Napoleão,
para investigar se ele havia efetivamente morrido por causas naturais, em 1821,
aos 52 anos. O que eles descobriram foi uma grande quantidade de arsênico em
seus cabelos e nas unhas. Mas Napoleão não foi envenenado por seus guardas.
No clima úmido de Santa Helena, o arsênico contido na tapeçaria verde das
paredes, na forração dos móveis e nos couros verdes foi se dissolvendo.
Napoleão morreu insidiosamente envenenado por arsênico.
Napoleão não foi o único a morrer assim. No início do século XX o verde à
base de arsênico foi proibido em todo lugar. O schweinfurter grün ainda existe
como cor de aquarela, uma imitação atóxica. Somente os restauradores
conseguem ainda comprar o verdadeiro schweinfurter grün \u2013 só para os que
dispõem de licença especial para lidar com venenos.
14. O verde horripilante
Qual é a cor de um dragão, de um demônio ou de um monstro? \u201cVerde\u201d,
responde a maioria, de modo espontâneo. Por quê? Porque essa é mais \u201canti-
humana\u201d das cores. Qualquer coisa cuja pele seja verde não pode ser humana,
não pode nem ser um mamífero, pois não existem mamíferos verdes. Pele verde
nos remete a serpentes e lagartos, animais repulsivos para muitos, e a dragões e
outras criaturas míticas que amedrontam. Até mesmo o sapo da fábula, que vira
príncipe, é um bicho nojento. Os seres das fábulas modernas também são verdes.
Os extraterrestres de Marte, por exemplo, parecem ser criaturinhas verdes.
O diabo é frequentemente descrito como uma mistura de serpente e dragão.
Um dos diabos mais criativos na pintura é verde venenoso, e tem, no verdadeiro
sentido da palavra, uma \u201cass-face\u201d (tem um rosto desenhado no traseiro) \u2192 Fig.
40. Quando acontece de o diabo aparecer em forma humana, ele está
frequentemente vestido de verde, como um caçador; pois ele é o caçador das
almas. E em nossa fantasia, todos os seres demoníacos têm olhos verdes.
Os demônios da Europa são, em sua maioria, verdes e pretos. Pela
simbologia antiga, o preto transforma toda e qualquer cor que a ele se associe em
seu oposto. Verde, a cor da vida, quando se combina com o preto, forma o
acorde da aniquilação.
Amarelo e verde são as cores da bile \u2013 consequentemente da mágoa eterna.
Em inglês, o verde está intimamente associado à inveja. A expressão a look with
green eyes não está se referindo à cor dos olhos, e sim a um olhar cheio de raiva.
Um perfume masculino Gucci, chamado \u201cEnvy\u201d (inveja), é verde-claro.
Aqui se separam as culturas: no Islã, a conexão entre o mal e a cor verde é
simplesmente inimaginável. O mesmo vale para a China. Lá também não
existem dragões malvados, pois lá o dragão é símbolo da humanidade e do
imperador. Aos dragões estão incorporadas muitas características boas: um
dragão verde é o símbolo da primavera e da fertilidade.
Na França acontece o oposto: lá, para os supersticiosos, o verde é inclusive a
cor da infelicidade. Muitos franceses jamais dirigiriam um carro verde. Se um
francês disser: \u201cJe suis vert\u201d (estou verde), isso significa que ele está furioso. Os
franceses ficam \u201cverdes de raiva\u201d. Inclusive entre os alemães é frequente o
verde ser citado como cor de raiva.
15. A cor da burguesia
Com folhas frescas de bétula, de amieiro e da macieira, e com a casca
dessas árvores, pode-se fazer tintura para tecidos. Também com milefólio, urze,
musgos, líquenes e samambaias. O tingimento é simples: a lã é lavada com uma
lixívia para que possa receber a cor, e então é colocada ali de molho junto com
as plantas, durante algumas horas, às vezes até por dias. Essas cores eram mais
baratas e não eram venenosas, embora infelizmente os tons de verde assim
obtidos fossem apenas de um verde pálido ou pardacento. E eles desbotavam
com facilidade, na lavagem ou quando expostos à luz. Em virtude dessa
instabilidade, o verde também se tornou a cor simbólica da infidelidade. Numa
canção folclórica francesa, um cavaleiro se queixa de sua amada: \u201cem vez de
azul, ela só usa verde\u201d \u2013 ou seja, ela lhe era infiel.
O verde mais intenso exigia um tingimento em duas etapas: primeiramente se
tingia de amarelo, com açafrão, flor de cardo ou erva amarela \u2192 Amarelo 11, e
em seguida de azul, com glasto ou índigo. Somente assim era possível tingir-se
tecidos em tons fortes de verde. Quanto mais luminoso o verde, mais
aristocrático.
Na tela As núpcias dos Arnolfini, de Jan van Ey ck (1434) \u2192 Fig. 37, a noiva
veste um manto verde luminoso. Todos sabiam que ela era muito rica. O senhor
Arnolfini, o noivo, traja um manto de pele nobre, marrom escuro; ele era
banqueiro, porém não era nobre \u2013 se não fosse por isso, ambos os nubentes
estariam vestidos de vermelho. Sua riqueza pode ser apreciada também pelos
fartos mantos: pregas em abundância, cauda e, nas amplas mangas, uma
sequência de plissados \u2013 isso numa época em que os tecidos eram tão caros que
\u201cser rico\u201d era sinônimo de \u201cestofar-se\u201d. Apesar de que, já ao primeiro olhar, a
riqueza era perceptível pelo verde luminoso do quadro.
Um decreto de Brunswick, de 1653, faz com que tenhamos noção de quão
regulamentadas e de quantas prescrições havia com relação às cores das
vestimentas \u2013 e isso durante séculos a fio; esse decreto estabelecia, inclusive,
sobre as cores das arcas de madeira nas quais as mulheres guardavam seus
dotes: \u201cpara as de primeiro escalão, arcas vermelhas; segundo escalão, verde e
vermelho; terceiro, verde-claro e escuro, e para o quarto escalão de colorido
discreto.\u201d O vermelho é a cor da nobreza; verde, a cor da burguesia, e aí existe
ainda uma subdivisão: um verde mais fraco, como o verde-claro ou o verde-
escuro para os burgueses mais pobres; o verde puro para a alta burguesia.
Nos retratos antigos, caso houvesse um fundo verde, isso demonstrava que os
retratados eram burgueses. O verde é a cor característica da burguesia.
Também a Mona Lisa de Leonardo da Vinci (1503) trajava um vestido verde.
Até os nossos dias não se sabe quem foi Mona Lisa \u2013 só do que se tem certeza é
que ela não pertencia à nobreza.
Na Câmara dos Comuns, na Grã-Bretanha, o parlamento eleito pelo povo, as
cadeiras são verdes. Na Câmara dos Lordes, à qual apenas os nobres têm acesso,
as cadeiras são vermelhas.
16. Por que o verde e o azul não combinam?
O verde e o azul \u201cse mordem\u201d \u2013 isso