A Psicologia das Cores   Eva Heller
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A Psicologia das Cores Eva Heller


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mais calmante dentre todas as cores, é a cor do sentimento de
estar em segurança. Azul-verde é também o acorde \u2192 da descontração.
Kandinsky, ao contrário, um dos primeiros pintores não figurativos, e que por
causa disso dedicou-se intensamente a distinguir uma das outras as impressões
sugeridas pelas cores, não diz muita coisa de bom acerca da cor verde:
\u201cO verde absoluto é a cor mais tranquila que existe: ela não se
move em direção alguma e não se faz acompanhar por qualquer
tom de alegria, tristeza ou paixão; nada exige ou evoca. Essa
ausência constante de movimento é uma característica que atua de
forma positiva sobre as pessoas e os espíritos que estão cansados;
mas, depois de algum tempo, todo esse sossego vai se tornando
monótono. Os quadros que são pintados em verde harmonia dão
testemunho disso\u2026 o verde passa a agir apenas de forma
monótona, tediosa\u2026 A passividade é a mais característica
propriedade do verde absoluto, e ela vem perfumada de um tipo
de untuosidade, de autossuficiência. Portanto, o verde absoluto é,
no domínio das cores, o que no âmbito humano costumamos
chamar de burguesia: é um tipo de elemento imóvel,
autocomplacente, um elemento limitante em todas as direções.
Esse verde é como uma vaca gorda que está ali deitada, muito
saudável, imóvel, capaz de se preocupar apenas com seu constante
ruminar, contemplando o mundo com um olhar letárgico e
estúpido.\u201d
Ninguém escreveu de forma tão negativa sobre o verde quanto Kandinsky.
De uma forma geral, a cor verde não era muito popular na pintura do século XX.
Temas sobre paisagens não estavam mais em moda, foram ultrapassados pela
fotografia.
Quando a cor se converteu em tema autônomo da pintura, quando não
interessava mais o que estava representado ali e sim a cor em si, o verde passou
a não ser mais procurado, apareceu apenas como uma mistura ambivalente
entre o azul e o amarelo. Mondrian também detestava o verde, considerava-o
uma cor supérflua. A cor verde não é jamais vista nos quadros construtivistas de
Mondrian.
O que a alguns tranquiliza, a outros aborrece \u2013 ao verde, isso pouco importa.
19. A cor da liberdade e da Irlanda
No século XIX, o verde foi a cor dos movimentos burgueses que se ergueram
contra o domínio absolutista. Verde é a liberdade.
Seguindo o modelo da bandeira tricolor francesa, surgiu a bandeira italiana
verde-branca-vermelha. O vermelho e o branco representavam as antigas cores
da Itália; já o verde simbolizava \u201co direito dos homens à liberdade e à
igualdade\u201d.
Na Irlanda, o verde tem um significado especial. Ele é a cor nacional da
\u201cIlha Verde\u201d. Além disso, na Irlanda, verde é a cor do catolicismo, desde que o
rei inglês Guilherme de Orange colocou a Irlanda sob seu domínio. Guilherme de
Orange era protestante; a cor da casa dos Orange era laranja e, dessa forma, os
católicos irlandeses declararam o laranja a cor dos protestantes, e o verde a cor
nacional irlandesa, a cor do catolicismo. O símbolo da Irlanda é o trevo de três
folhas, instrumento com o qual São Patrício explicou aos irlandeses a trindade de
Pai, Filho e Espírito Santo.
O dia 17 de março é o dia de São Patrício, feriado nacional na Irlanda. Em
Chicago, onde vivem muitos imigrantes irlandeses, o rio Chicago \u2013 tipicamente
americano \u2013 é artificialmente tingido de verde.
20. Os naipes se aprendem na mesa verde
\u201cReconhecer as cores\u201d, se diz em alemão. Aqui dizemos \u201caprender os
naipes\u201d. A expressão vem do jogo de cartas. Copas, ouros, paus e espadas são,
nas cartas dos jogos, os assim chamados \u201cnaipes franceses\u201d; os naipes, em
alemão, se chamam: corações, sinos, bolotas e verdes \u2013 também chamados de
folhas \u2013 correspondendo, respectivamente, a nossos naipes, citados acima (na
Alemanha: Herzen, Schellen, Eicheln und Grün/Laub).
\u201cVerde\u201d \u2013 ou folhas \u2013 corresponde ao naipe francês espadas. O ditado \u201co
mesmo em verde\u201d (dasselbe in Grün) refere-se à diferença entre a designação
de naipes alemã e francesa \u2013 uma diferença que não muda nada. \u201cAch, du grüne
Neune!\u201d (Ah! Você, nove verde!) \u2013 também essa antiga expressão, indicadora de
surpresa, provém do jogo de cartas.
Quando ainda não existia televisão, a mesa de jogos fazia parte da decoração
de toda boa casa burguesa. Essa mesa de jogos, em torno da qual as pessoas se
sentavam juntas para jogar cartas e dados, era forrada com feltro verde, pois o
verde é agradável para os olhos, faz um bom contraste com as cartas e com os
dados. As mesas de bilhar também são, tradicionalmente, revestidas de feltro
verde. A alegação \u201cter tido que decidir alguma coisa na mesa verde\u201d (etwas am
grünen Tisch entschieden zu haben) indica que toda decisão tem, eventualmente,
alguma conotação de jogo.
Também nos auditórios e nas bibliotecas, os tampos das mesas ganharam
revestimento verde. Nos ambientes nobres usava-se couro verde, nos mais
modestos usava-se feltro ou linóleo verde. Eis o ambiente burocrático das mesas
verdes: os que \u201csó fazem planos sentados às mesas verdes\u201d jamais viram a
realidade de perto.
21. O verde funcional
A credibilidade / a segurança: verde 27% · azul 22% · branco 10% ·
marrom 9% · ouro 9%
Os semáforos desempenham um papel importante na vida moderna;
consequentemente, essa simbologia foi universalizada. Também nos edifícios
cartazes verdes sinalizam acesso livre, saídas de emergência são iluminadas de
verde. Em geral os caminhos para socorro são demarcados com setas brancas
sobre um fundo verde.
A simbologia dos semáforos foi adotada no dia a dia. Quando alguém \u201cdá
sinal verde a alguém\u201d, simboliza que está apoiando a intenção da outra. Os que
estão passando por \u201cuma onda verde\u201d, quer dizer que estão vivendo sucesso após
sucesso na vida. \u201cIsso está em área verde\u201d, costuma-se dizer, quando alguma
coisa está em ordem.
O green card norte-americano dá ao turista \u201csinal verde\u201d para visitar os
Estados Unidos, é a permissão para permanência por tempo ilimitado e também
para o trabalho.
A cor \u201cverde padrão\u201d é um verde-escuro, cinzento. É tido como a mais
agradável das cores para ser observada por períodos longos, por isso é adotado
como cor padrão para as lousas escolares. Muitas máquinas também são
laqueadas em verde padrão. A padronização da cor garante que peças de
substituição e novas aquisições serão incorporadas a ela sem problemas.
Garrafas de vinho são, em sua maioria, verdes. O motivo: o verde-garrafa é a
espécie mais em conta de vidro. O vidro âmbar fornece melhor proteção, por
isso ele é obrigatório para vidros de remédio.
Os uniformes dos cirurgiões são também, por uma questão de funcionalidade,
verdes. Além da ação calmante que confere aos olhos do cirurgião, os uniformes
verdes têm a vantagem de que o sangue, caindo sobre um tecido verde, fica
marrom, assustando menos. Aqui o verde atua também como cor
complementária ao vermelho: se alguém se concentrar em alguma coisa
vermelha, como um ferimento, e depois olhar para uma superfície branca, verá
um quadro fantasma esverdeado que poderá exercer um efeito irritante. Porém,
ao olhar para o verde dos uniformes cirúrgicos, considerará a formação
fantasma ilusória.
22. As cores das estações de Itten. Impressões cromáticas individuais e
compreensão universal
A primavera: verde 62% · amarelo 18% · azul 6% · rosa 5%
O verão: amarelo 38% · verde 28% · laranja 9% · vermelho 9%
O outono: marrom 48% · ouro 22% · laranja 12% · amarelo 10%
O inverno: branco 60% · cinza 16% · prata 10% · azul 10%
O artista, professor de arte e teórico das cores Johannes Itten tomou as cores
das estações do ano como exemplo \u201cde que as sensações transmitidas pelas cores
e a vivência que temos delas podem ser compreendidas de maneira bastante
objetiva, embora cada pessoa veja, sinta e considere as cores de modo
absolutamente pessoal\u201d.
Itten viveu isso na prática, de forma frequente, pois seus alunos fizeram com
que visse quão individualmente as cores atuavam sobre eles, que a percepção
que