A Psicologia das Cores   Eva Heller
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A Psicologia das Cores Eva Heller


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\u201cSe o tecelão mesclar lã branca ao
tecido preto, o hábito será rejeitado. E se a lã preta natural não for decente o
bastante, deverá ser tingida artificialmente.\u201d A lã tingida era muito mais cara do
que a de cor natural. Entretanto, não apenas os monges \u201cnegros\u201d, também os
\u201cpardos\u201d e os \u201ccinzentos\u201d tinham os seus hábitos tingidos. Apesar da modéstia das
cores, os hábitos monásticos, bem confeccionados, contrastavam claramente
com as roupas remendadas e sem tingimento dos pobres. Tingir de preto era
mais caro do que tingir de marrom ou de cinza. Mas o preto se converteu na cor
predileta das ordens monásticas.
Até os nossos dias, o preto é a cor básica do clero. E, em alguns países,
\u201cnegro\u201d é outro designativo para clérigo.
A Igreja é uma força conservadora. A cor do clero transformou-se em cor do
partido dos conservadores. Quem \u201cvotar no preto\u201d, vota nos conservadores. Um
objeto sagrado preto é a Kaaba, em Meca. Nesse edifício de forma cúbica,
encontra-se emparedada a famosa \u201cPedra Negra\u201d. No início, ela era branca; foi
se empretecendo devido aos pecados dos homens. O edifício inteiro está
recoberto com tecidos de seda preta, que são substituídos a cada ano. Já nos
tempos de Maomé, o culto à Kaaba era antiquíssimo; acreditava-se que o próprio
Adão participara do início da construção desse edifício \u2192 Fig. 47.
11. O desaparecimento das cores da Idade Média
Quase que subitamente, em meados do século XV, as cores medievais
desapareceram. O mundo obscureceu-se.
Na estipulação das cores do início da Idade Média, a nobreza reservava para
si as cores luminosas, restando para as classes menos favorecidas as cores
escuras e sem brilho. Cor significava poder.
Porém, a sociedade foi mudando: a nobreza foi se empobrecendo e a
burguesia começou sua ascensão. Sem poder econômico não há poder político.
Os burgueses, que enriqueceram com o comércio, não mais admitiram que os
nobres, de quem eram credores, mandassem em sua maneira de se vestir. As
cores da nobreza passaram a identificar os patrícios. Agora cor significava
riqueza.
Na pintura, o simbolismo das cores perdeu seu caráter normativo. Antes só se
pintavam os santos, em suas cores simbólicas; agora os burgueses também
podiam ser retratados e, com eles, o mundo real. As cores simbólicas foram
substituídas pelas cores da realidade. E a realidade era bem sombria.
O final da Idade Média foi determinado por uma nova visão de mundo, que
alterou a moral. Os antigos cristãos acreditavam que uma idade paradisíaca
estivesse próxima e não cessavam de contar o tempo que faltava para a volta de
Cristo. A cada decepção, crescia a angústia. Na Baixa Idade Média, o mundo já
não parecia redimido por Cristo, e sim condenado por Deus. A \u201cmorte negra\u201d,
que é como ficou sendo chamada a peste, era um castigo divino.
Chegamos à Era dos Descobrimentos; o mundo tornou-se maior e maiores
também se tornaram seus horrores. Notícias de catástrofes em terras distantes
multiplicavam os temores. Começaram então a fazer novamente as contas para
o fim do mundo \u2013 agora era pelo diabo que se esperava. Nas visões do fim do
mundo, descreveu-se que o céu se abriria feito um pergaminho, que o sol
incendiaria o céu e desapareceria para sempre. Recomendava-se que se fizesse
penitência, para se apartar logo das tentações do mundo.
O principal tema dos sermões era a vaidade, que era considerada pecado
mortal \u2013 pois entregar-se às alegrias mundanas significava distanciar-se de Deus.
Onde a vaidade se manifestava mais claramente era nas vestimentas; como
ninguém desejava exibir seu pecado mortal, todos se vestiam de preto.
O colorido medieval desapareceu para sempre. Foi uma mudança dramática,
porque causas diferentes \u2013 até mesmo contraditórias \u2013 eram reciprocamente
reforçadas.
12. Tinturas bonitas e tinturas pretas
Na Idade Média existiam as \u201ctinturas bonitas\u201d, que embelezavam o tecido, e
existia a \u201ctintura preta\u201d. As tinturas bonitas tingiam os tecidos com cores
cromáticas, luminosas, que ao mesmo tempo eram as cores mais caras \u2013 e, por
isso, só eram empregadas para tingir tecidos caros. Mas às vezes se faziam
trapaças: tecidos ordinários recebiam cores caras \u2013 o que entre nós chamamos
de \u201cdourar a pílula\u201d \u2013; surgiu daí o adágio popular \u201cisso está só tingido de bonito\u201d
(das ist nur Schönfärberei) \u2013 era uma manipulação que procurava dissimular a
má qualidade do tecido. As tinturas pretas tingiam, além de na cor preta,
sobretudo em marrom \u2013 e também no azul turvo do glasto (a isatis tinctoria,
também chamada de \u201cpastel dos tintureiros\u201d).
Havia muitas possibilidades para se tingir de preto. Especialmente barata era
a tintura chamada de \u201cpreto dos pobres\u201d. Para tingir um quilo de lã de preto
eram necessários quatro quilos de casca de amieiro. A casca era esmagada,
depois posta de molho durante alguns dias; então ela era cozida junto com o
tecido que se queria tingir. Barato e descomplicado, especialmente para os
procedimentos antigos. Porém, o preto obtido era, na realidade, um cinza escuro.
Era difícil obter-se um preto intenso. Para isso, utilizavam-se as agalhas
(nozes de galha, também chamadas de bugalhos, uma espécie de cecídeo). As
agalhas são formadas pela ação das vespas-de-galha, que picam as folhas das
árvores para ali depositarem seus ovos. Em volta das larvas dos insetos
desenvolvem-se excrescências, que atingem o tamanho de uma noz \u2013 são as
agalhas. Elas são raspadas, secas e então pulverizadas. As melhores agalhas
crescem nas folhas dos carvalhos, e a humanidade aproveitou-as para fazer tinta
por séculos a fio.
Na pintura, jamais existiram problemas para a obtenção de um preto intenso.
Há três mil anos já se conhecia o \u201cpreto de fumo\u201d ou \u201cpreto de lamparina\u201d. Era
a fuligem, uma das variedades mais puras de carvão; a fuligem era produzida
pela queima do óleo que se utilizava nas lamparinas; ele era raspado e misturado
com aglutinantes. O preto de fumo continua sendo usado, hoje em dia, para a
fabricação de lápis, rímel para olhos, cores para tintas de aquarela e a óleo e,
principalmente, tinta preta para impressão. Somente os tecidos não podem ser
tingidos com essa tinta.
Em 1453, os turcos conquistaram Constantinopla, centro das antigas artes de
tinturaria. Alguns tintureiros conseguiram fugir e, desse modo, suas receitas
secretas passaram a ser conhecidas em outros países. Não demorou para que se
disseminasse por toda parte o cobiçado corante \u201cvermelho turco\u201d, à base de
tintura de alizarina, que fornecia um vermelho luminoso. A tinturaria evoluiu de
ciência secreta para ofício; os métodos foram se tornando mais fáceis; a
diferença de preço entre cores luminosas e cores escuras foi desaparecendo.
Apesar disso, a moda burguesa passou a ser o preto, fato que se deveu aos
adeptos da moda colorida, os odiados soldados mercenários ambulantes, os
Landsknechte, que faziam saques por toda parte. Saqueavam tudo, apossavam-se
de qualquer porcaria, incluindo peças de vestuário, que chegavam a rasgar para
repartir entre eles. Depois voltavam a costurá-las, para poder usá-las. Desse
modo, os saqueadores criaram o \u201ctraje de retalhos\u201d: cada manga, cada perna,
cada cintura era de uma cor diferente, e todo o tecido ficava cheio de recortes.
Esses recortes e remendos davam aos trajes liberdade de movimentos, e podiam
sempre ser substituídos por novos retalhos, de outras cores. Os cidadãos
protestaram contra essa \u201ccoloração\u201d dos costumes, exigiram do imperador que
proibisse aos mercenários esse luxo de vestir cores, que contrariava todas as
normas de estratificação do vestuário. Em 1477, o imperador Maximiliano
pronunciou-se a favor dos Landsknechte: \u201cDiante de suas vidas miseráveis e
atribuladas, que lhes seja concedido ao menos um pouco de diversão.\u201d Os
soldados mercenários ficaram mais coloridos ainda; aos burgueses, só restou o
consolo de amaldiçoar as roupas coloridas como imorais; em seguida,
mandaram tingir de preto seus caros tecidos de cor,