Livro   I Congresso Ibero Americano ABOP   Rev04 (com marcadores)
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do capital, via exploração do trabalhador. 
É uma relação assimétrica, que estrutura as classes sociais básicas, ou seja, 
os proprietários dos meios e instrumentos de produção e os não-proprietá-
rios \u2013 trabalhadores que, para sobreviver, necessitam vender sua força de 
trabalho. Os trabalhadores assalariados, produtores no mercado de trabalho, 
tornam-se, eles mesmos, uma mercadoria. O que conta é a produção, o lucro 
imediato dos donos do capital que têm como se beneficiar do trabalho do 
outro. Desta forma, os direitos fundamentais da pessoa humana são sempre 
sacrificados em prol do mercado, negando as possibilidades de humanização 
e de vida digna. 
No contexto brasileiro atual, ainda há muitas condições de trabalho que 
em nada dignificam a ação humana. No entanto, segundo Albornoz (2004), o 
trabalho está na base de toda sociedade, estabelecendo as formas de relação 
entre os indivíduos, entre as classes sociais, criando relações de poder de-
terminando o ritmo do cotidiano. Ao analisarmos o que significa trabalhar, 
imediatamente nos remetemos a uma necessidade vital e sua vinculação às 
determinações do poder, das classes, das forças produtivas. Segundo Lessa 
(2005), no emaranhado da conjuntura que vivemos, não ser escravizado pe-
las ideias do mercado, do consumo, é algo profundamente complexo, porque 
a mercadoria (mercado) parece ser a única coisa fixa em nosso mundo mu-
tante. Todas as transformações, sejam elas quais forem, apenas se trans-
formam no e pelo mercado, como que a sublinhar que nada existe fora 
dele, que apenas nele as coisas têm existência. A mercadoria assume, na 
ideologia cotidiana, o estatuto ontológico da transcendentalidade: como 
substrato último e imutável, seria o suporte de toda e qualquer existência 
concebível (Lessa, 2005, p.70). 
 
Nessa perspectiva, a intervenção da escola é indispensável porque, ao as-
sumir o papel de mediadora, na análise dos processos do trabalho, favorece 
também a compreensão sobre quando se trata do trabalho que humaniza, ou 
quando o trabalho é apenas um meio de exploração com o aprofundamento 
das relações de desigualdade da vida humana. 
Escolha profissional na adolescência | 83-90
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O adolescente, nesse universo, ao buscar saber mais, defronta-se com 
uma gama de possibilidades, interpelações e desafios que, não obstante, re-
querem um processo de aprendizagem exigente, disciplinado e coletivo. Esse 
processo é função da escola. A escola é a responsável pela transmissão dos 
conhecimentos historicamente elaborados. No entanto, é preciso reconhecer 
que, nos modos informais de se fazer educação, há aprendizagens que po-
dem, inclusive, superar o que a própria escola propõe. 
Diante desse contexto, quais as possibilidades de um adolescente definir 
sua profissão? Pensar o amanhã, despertar para a formação humana, que 
atenta à dimensão da experiência histórico-social, contribua e fortaleça a in-
tervenção esperançosa de cada um no mundo. Segundo Freire (1996, p. 80) 
\u201ca esperança é um condimento indispensável à experiência histórica. Sem 
ela, não haveria História, mas puro determinismo. Só há história onde há 
tempo problematizado e não pré-datado\u201d. Pensar segundo esta afirmativa 
nos remete à ideia de necessidade da escola e demais espaços sociais contri-
buírem para que a escolha profissional dos adolescentes possa favorecer a 
construção da realização profissional e pessoal.
 O trabalho é uma das questões decisivas e, portanto, crucial para os 
adolescentes. A habilitação para o trabalho sempre se vinculou, mesmo 
que equivocadamente, ao poder da escola, sob a forma de conhecimento e 
aprendizagem. Frigotto (2005, p.12) afirma que \u201co trabalho, em seu sentido 
de produção de bens úteis materiais e simbólicos ou criador de valores de 
uso, é condição constitutiva da vida dos seres humanos em relação aos ou-
tros.\u201d Isto permite afirmar que a discussão sobre o trabalho deveria permear 
os processos educativos formais, ou seja, toda educação básica, indepen-
dentemente do nível de escolarização e/ou da modalidade de ensino que o 
aluno frequenta.
Adolescência e aspectos a considerar
A adolescência é uma etapa de definições o que exige muito do sujei-
to. Sabemos que não se trata apenas da opção profissional, mas também 
de outras questões que interferem na vida. No entanto, são decisões que 
precisam ser feitas e, individualmente. Escolher é uma tarefa intransferí-
vel. Cada passo é importante para definir a história de vida. Ser criterio-
so nas escolhas, perseverante na busca, é desafiador, mas vale uma vida, 
eis o desafio!
 Assim, no intuito de contribuir com a escolha dos adolescentes da nossa 
região, realizamos um trabalho que busca compreender os fatores implicados 
nesse momento da vida, como também aprimorar o conhecimento sobre o 
mundo do trabalho, favorecendo assim uma escolha profissional mais ade-
quada. O trabalho foi realizado com alunos do terceiro ano do ensino médio, 
estudantes do turno da manhã e da noite, com faixa etária de dezesseis a 
dezenove anos de idade e envolveu quatro escolas da rede privada de ensino 
e seis escolas da rede pública estadual. Foram feitas cinco questões objetivas 
e uma opcional dissertativa. As questões versavam sobre a escolha de um 
curso; o que mais sabem sobre esse; o que motivou a escolha; em que lugar 
Hedi Maria Luft, Juliane Mittelstadt Boaventura, Silvia Cristina Segatti Colombo
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mais discute sobre esse assunto e se considera necessário realizar um traba-
lho sobre orientação profissional e por que.
A atividade mostrou que há uma série de situações que interferem na 
escolha e que fatores como: a falta de clareza sobre a carreira, os medos e 
as dúvidas, as exigências para o ingresso no mercado de trabalho, os ideais 
de felicidade que são vinculados, a realização profissional, entre outros, são 
muito constantes. Há muitas opções no campo profissional e, também, são 
vários meios de alcançar os objetivos profissionais. Assim, o desafio está em 
aprofundar os conhecimentos engendrando modos que auxiliem numa esco-
lha que favoreça a realização pessoal e profissional.
Desta forma, entendemos que cada fator citado merece reflexão. A fal-
ta de clareza sobre a profissão revelada pelos adolescentes, indica que ainda 
são tímidas as iniciativas das escolas em relação à discussão sobre o mundo 
do trabalho. Parte-se do princípio de que essa é uma tarefa de outros, ou 
seja, da família e da sociedade. Verificamos que num universo de trezentos 
e quarenta alunos, apenas 12% discutem o tema na escola, 62,56% deba-
tem a temática com a família, 32% com os amigos, e os demais com outras 
pessoas. Verificamos que os amigos e especialmente a família se encarregam 
de aprofundar as discussões sobre a escolha profissional. Isso revela que há 
uma certa limitação por parte dos professores, ou seja, da própria escola. 
Entendemos que a questão do trabalho deva ser discutida em toda educa-
ção básica, porque o trabalho como princípio educativo deve ser, segundo 
Frigotto (2005), entendido como algo que todos os seres humanos desde a 
infância entendem como educativo. Internalizar que trabalhar é educativo 
requer que se entenda que, se sujei algo devo limpar, isso não tem a ver com 
trabalho infantil, mas com educação para o trabalho.
Outros fatores que encontramos na amostra é que há entre os adoles-
centes muitos medos e dúvidas em relação às profissões. O medo e a dúvida 
são uma espécie de linguagem na qual expressamos nossos sentimentos e 
são inerentes ao ser humano. No caso dos adolescentes, em relação à escolha 
profissional esses sentimentos são oriundos das exigências impostas pelo 
contexto em que estão inseridos, no sentido de fazerem a escolha acertada. 
Na tentativa de não fracassar e serem infelizes, uma grande maioria dos ado-
lescentes convive com os medos e as dúvidas.
O fator que envolve as exigências para