Livro   I Congresso Ibero Americano ABOP   Rev04 (com marcadores)
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Nosso objetivo é apresentar uma proposta psicossocial para a compreensão 
do sucesso na transição universidade-trabalho que possa servir de inspiração 
para intervenções na área e futuras investigações. Antes de descrevê-la faz-se 
necessário a apresentação de alguns conceitos que, articulados, formaram a 
base para a formulação dessa proposta. 
Transição universidade-trabalho: definições e características do 
processo
Em decorrência das velozes transformações no contexto socioeconômico 
mais amplo, a construção da carreira e as trajetórias profissionais no início 
a O termo em inglês \u201ccareer transition\u201d foi traduzido para o português como \u201ctransição na carreira\u201d. Optou-se por essa tradução, 
pois ela reflete diferentes possibilidades de transição que ocorrem entre as carreiras e as que ocorrem na própria carreira.
Trabalho apresentado no I Congresso Ibero-Americano de Orientação de Carreira da ABOP / XII Simpósio Brasileiro de
Orientação Vocacional & Ocupacional, realizado de 16 a 19 de setembro de 2015 em Bento Gonçalves-RS, Brasil
Marina Cardoso de Oliveira, Lucy Leal Melo-Silva, Maria do Céu Taveira
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do século XXI têm sido caracterizadas pela instabilidade e pela imprevisibi-
lidade, como apontado pela literatura. Passa a existir um consenso de que 
não há um padrão linear para o desenvolvimento e a construção da carreira, 
por isso o indivíduo deverá ser capaz de se adaptar periodicamente às tran-
sições e construir novos sentidos para suas experiências de vida e trabalho 
(Oliveira, Melo-Silva, & Dela Coleta, 2012).
Nesse cenário de incertezas e instabilidade, o interesse dos pesquisadores 
e orientadores profissionais direciona-se tanto para a compreensão das tran-
sições que ocorrem entre os diferentes estágios do desenvolvimento, quanto 
às transições associadas às mudanças entre as carreiras e as que ocorrem na 
própria carreira (McQuarrie & Jackson, 2002). Independente de qual seja o 
tipo de transição, elas possuem como característica comum as mudanças que 
ocorrem na vida pessoal e profissional e que transformam os relacionamen-
tos, as rotinas, as crenças, os papéis e a identidade.
Entre os diferentes tipos de transição na carreira destaca-se a transição 
escola-trabalhob (school-to-work transition). Em um nível elementar, tem sido 
definida como o período no qual o indivíduo se desvincula do sistema educa-
cional (ensino médio, técnico ou superior) e inicia suas atividades de traba-
lho (Ng & Feldman, 2007; Swanson & Fouad, 1999). 
Integrando o conjunto de possibilidades de transição escola-trabalho en-
contra-se a transição universidade-trabalho, objeto dessa comunicação. De 
modo geral, essa transição tem sido apontada na literatura como uma tran-
sição antecipada, de entrada no mercado de trabalho e com grandes impli-
cações para o desenvolvimento psicossocial e para a construção da carreira.
Para a maioria das pessoas que concluem o ensino superior, a transição 
universidade-trabalho é a primeira grande tarefa no processo de adaptação 
ao trabalho. Por isso, é um momento significativo e com repercussões im-
portantes no desenvolvimento psicossocial dos indivíduos. Frequentemente 
são criadas expectativas de que os recém-formados encontrem um trabalho 
relacionado com a área de formação e com os objetivos individuais, além de 
se adaptarem ao papel de trabalhador (Wendlandt & Rochlen, 2008). 
Por ser um momento de antecipação mais do que de realização de proje-
tos, uma grande parcela dos recém-formados, ainda que seja pequena con-
siderando a sociedade em geral, encontra dificuldades de vivenciar de modo 
funcional a transição universidade-trabalho. Entre os principais problemas 
vivenciados, destacam-se as expectativas irrealistas sobre o futuro profissio-
nal e a discrepância entre as competências adquiridas durante a formação e 
aquelas exigidas pelo mercado de trabalho. Grande parte dessas dificuldades 
decorre da falta de preparação. Em muitos casos, os jovens profissionais des-
conhecem os desafios que terão que enfrentar depois da graduação (Graham 
& McKenzie, 1995; Perrone & Vickers, 2003).
Pelos motivos mencionados, a transição universidade-trabalho é uma 
etapa da vida pessoal, profissional e familiar com repercussões importantes 
b A expressão em inglês \u201cschool-to-work transition\u201d foi traduzida para o português como \u201ctransição escola-trabalho\u201d e retrata as 
transições do sistema educacional para o mundo do trabalho.
Sucesso na transição universidade-trabalho | 91-97
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para o desenvolvimento de carreira subsequente. Em um cenário em que a 
educação superior se torna cada vez mais acessível, faz-se necessário inves-
tigar em que medida ela é capaz de oferecer uma formação que capacite os 
recém-formados para enfrentarem os desafios do mundo contemporâneo e 
serem bem sucedidos no processo de transição universidade-trabalho (Koen, 
Klehe, & Van Vianen, 2012).
Sucesso na transição universidade-trabalho 
O sucesso na carreira é um conceito que possui uma multiplicidade de 
sentidos, visto que o que é considerado sucesso para uma pessoa pode não 
ser para outra, fazendo esse termo ter um caráter subjetivo e contextual 
(Gunz & Heslin, 2005). Nessa direção, Dries (2011) pontua que as mu-
danças socioeconômicas vivenciadas pelas sociedades ocidentais \u2013 de uma 
sociedade baseada na agricultura para uma sociedade industrial e pós-in-
dustrial \u2013 afetaram o modo como as carreiras e o sucesso tem sido defini-
dos ao longo do tempo. Por exemplo, na sociedade feudal, o sucesso estava 
associado à segurança, à saúde física e à formação do caráter associado à 
ética protestante. Posteriormente, na sociedade industrial, o sucesso na 
carreira passa a ser mensurado por meio de indicadores observáveis tais 
como salário, posição hierárquica e status. Atualmente, nas sociedades 
pós-industriais a definição de sucesso na carreira expandiu-se, buscando 
incorporar resultados mais amplos e subjetivos do que apenas a progressão 
na hierarquia organizacional (Dries, 2011). Hoje, o sucesso na carreira tem 
sido definido na literatura da área como as conquistas (reais ou percebidas) 
acumuladas pelos indivíduos resultantes das suas experiências de trabalho 
(Judge, Higgins, Thoresen & Barrick, 1999) ou como a conquista de resul-
tados desejados em qualquer experiência de trabalho (Arthur, Khapova, & 
Wilderom, 2005). 
Acompanhando a evolução nas definições de sucesso na carreira, o su-
cesso na transição universidade-trabalho tem sido descrito por meio de 
uma multiplicidade de sentidos que refletem resultados de natureza objeti-
va e subjetiva. O sucesso subjetivo/pessoal traduz a avaliação subjetiva que 
cada recém-formado faz das conquistas alcançadas depois da graduação 
e indicam a confiança no futuro de carreira (superação dos medos e das 
incertezas), a conquista gradativa dos objetivos traçados, a construção da 
identidade profissional, a adaptação ao papel de trabalhador e a satisfação 
com o percurso profissional. Já o sucesso objetivo/social relaciona-se com 
o alcance de resultados que atendem as expectativas sociais, tais como con-
seguir um trabalho na área, remuneração compatível com o mercado e com 
os pares, independência financeira e familiar e reconhecimento social pelo 
desempenho profissional, traduzido em termos de promoções, premiações 
e indicações (Oliveira, 2014).
Diante do exposto, acredita-se que para a compreensão do sucesso na 
transição universidade-trabalho é necessário entendê-lo como um fenômeno 
psicossocial em que a articulação das dimensões individual e contextual ocor-
re de forma integrada. Assumindo esse posicionamento a respeito do tema, a 
Marina Cardoso de Oliveira, Lucy Leal Melo-Silva, Maria do Céu Taveira
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seguir apresentamos uma proposta psicossocial do sucesso na transição uni-
versidade-trabalho que pode ser útil como referência para futuras pesquisas 
e para o planejamento