Livro   I Congresso Ibero Americano ABOP   Rev04 (com marcadores)
368 pág.

Livro I Congresso Ibero Americano ABOP Rev04 (com marcadores)


DisciplinaOrientação Profissional653 materiais4.250 seguidores
Pré-visualização50 páginas
de programas de preparação para a transição.
Uma proposta psicossocial como referência para futuras pesquisas 
e intervenções 
Sabe-se que as teorias e as intervenções no campo da psicologia voca-
cional e da orientação profissional se desenvolveram e se transformaram ao 
longo do tempo. No decorrer do último século, diferentes enfoques teóricos 
têm sido empregados para a compreensão da carreira e dos seus resultados.
Em uma clássica revisão histórica do campo, Sonnenfeld e Kotter 
(1982) identificaram quatro diferentes perspectivas nas quais os estudos 
sobre a carreira se sustentam, sendo elas: (a) perspectiva sociológica; (b) 
perspectiva das diferenças individuais; (c) perspectiva desenvolvimentista; 
e (d) perspectiva da carreira ao longo da vida. Tradicionalmente, os estudos 
com base na perspectiva sociológica focam os determinantes sociais e seus 
impactos na carreira. A visão psicológica das diferenças individuais dedica-
-se a compreender como as diferenças individuais predizem as escolhas e o 
sucesso na carreira. O enfoque desenvolvimentista foca na compreensão da 
dinâmica dos estágios de carreira. Por sua vez, a perspectiva da carreira ao 
longo da vida leva em consideração o processo dinâmico da construção da 
carreira no desenrolar da vida. 
Apesar da utilidade didática da diferenciação apresentada por Sonnenfeld 
e Kotter (1982) ela evidencia uma das tensões mais tradicionais do campo da 
psicologia vocacional, que pode ser traduzida pelo seguinte questionamento: 
\u201cO sucesso na carreira seria decorrente da agência pessoal ou consequência 
de determinismos sociais\u201d? 
Para responder a essa questão, partiremos do princípio que a construção 
da carreira e o sucesso são fenômenos psicossociais complexos nos quais a 
articulação das dimensões individual e contextual ocorre de forma integrada. 
Em consonância com o posicionamento de Ribeiro (2009; 2011; 2012; 2013) 
pode-se afirmar que a carreira (e o sucesso) é uma construção contínua e com-
partilhada, e não o resultado de um simples ajustamento ou adaptação de um 
indivíduo (processo subjetivo) a uma realidade (processo social). Ambos os 
elementos (individuais e contextuais) passam a ser compreendidos não como 
processos delimitados e separados, mas sim como parte de um único processo, 
visto como elo de continuidade do subjetivo ao social e vice-versa. Nessa visão, 
os aspectos subjetivos e contextuais são compreendidos como polos extremos 
de uma mesma estrutura processual global, que é produzida em relação dialé-
tica. Ou seja, constitui como produto e produtora da própria relação, relação 
de dupla transição: do subjetivo ao social e vice-versa, num processo contínuo.
Sendo assim, tanto em intervenções quanto em pesquisas que focalizam 
a transição universidade-trabalho deveriam ser considerados a articulação 
entre fatores individuais e contextuais. Entretanto, quais seriam as caracte-
rísticas individuais e contextuais que melhor explicariam o sucesso na carrei-
ra depois da graduação?
Sucesso na transição universidade-trabalho | 91-97
95
Para responder a essa questão, foi realizado um estudo longitudinal que 
teve por objetivo testar o poder preditivo de algumas variáveis individuais 
e contextuais na explicação do sucesso na transição universidade-trabalho 
(Oliveira, 2014). No que diz respeito às variáveis individuais, partiu-se do 
princípio que aqueles indivíduos que se engajam ativamente nas atividades 
de planejamento e de exploração de carreira, que se sentem identificados e 
decididos em relação à sua escolha profissional, que se mostram confiantes 
na sua capacidade de executar com sucesso as demandas da profissão e que 
acreditam ser responsáveis pelos acontecimentos da sua carreira, têm maio-
res chances de obter sucesso na transição universidade-trabalho. 
Se, por um lado, essas características individuais influenciam o quanto 
a pessoa se engaja autonomamente na sua formação e no próprio processo 
de transição, por outro lado, existem características de contexto demarcan-
do as possibilidades do processo. Na investigação supracitada, optou-se por 
incluir no modelo uma variável do contexto econômico \u2013 as \u201coportunidades 
do mercado de trabalho\u201d\u2013, e uma variável do contexto relacional \u2013 \u201capoio 
social\u201d. As expectativas são de que melhores condições do mercado de traba-
lho ampliam as chances de obter resultados desejáveis logo após a conclusão 
da graduação. Além disso, o apoio social decorrente da rede social à qual o 
indivíduo pertence tem sido apontado como um aspecto facilitador durante 
a transição, uma vez que auxilia no alcance dos objetivos e na superação das 
dificuldades, servindo como fonte de encorajamento, de orientação, de cons-
trução de crenças de autoeficácia, de expectativas de resultados positivos e 
de gerenciamento da ansiedade (Ng & Feldman, 2007). 
De modo geral, os resultados do estudo longitudinal sinalizaram que 
tanto as percepções do contexto quanto as variáveis psicológicas do desen-
volvimento de carreira foram necessárias para predizer o sucesso na tran-
sição universidade-trabalho. Contudo, a influência das variáveis individuais 
pareceu ser mais significativa do que a influência das percepções do contexto, 
quando ambos os conjuntos de variáveis foram testadas simultaneamente no 
mesmo modelo.
Em síntese, os resultados nos permitem dizer que aqueles universitários 
que durante o último ano da graduação se descreviam como possuidores de 
recursos psicológicos associados à identidade de carreira, à exploração de car-
reira, à decisão de carreira e à autoeficácia profissional conseguiram alcançar, 
após a conclusão da graduação, melhores resultados relacionados à inserção 
e satisfação profissional, à confiança no futuro de carreira, à remuneração e 
independência financeira e à adaptação ao trabalho. Parece que quando esses 
recursos psicológicos estão presentes, as influências do contexto passam a 
ter impacto reduzido nos resultados alcançados após a graduação. Isso não 
quer dizer que fatores contextuais não influenciam os resultados alcança-
dos. Pelo contrário, variáveis contextuais relacionadas ao apoio social e às 
percepções favoráveis do mercado de trabalho também se mostraram bons 
preditores do sucesso na transição universidade-trabalho. 
Pensando os dados a partir de uma concepção psicossocial da carreira, o 
sucesso na transição universidade-trabalho seria decorrente de um processo 
Marina Cardoso de Oliveira, Lucy Leal Melo-Silva, Maria do Céu Taveira
96
contínuo de sínteses entre as características individuais e contextuais. Desse 
modo, os resultados dessa investigação apresentam argumentos empíricos 
que ressaltam a relevância de uma perspectiva psicossocial para a compreen-
são do sucesso na transição universidade-trabalho. Tais resultados trouxe-
ram implicações que podem ser úteis para a prática e para futuras pesquisas, 
destacadas a seguir.
Implicações práticas e para futuras pesquisas
Por meio de intervenções baseadas numa proposta psicossocial, os 
estudantes universitários e recém-formados poderiam ser melhor pre-
parados para vivenciar a transição universidade-trabalho. Os programas 
de preparação funcionariam como facilitadores do desenvolvimento de 
recursos psicológicos necessários para o enfrentamento das demandas 
inerentes aos processos de transição (Koen et al., 2012). Tais programas 
poderiam ser estruturados em disciplinas, workshops e atendimentos in-
dividuais e em grupos. Nesses espaços, os participantes seriam convida-
dos a pensar sobre o futuro profissional, o projeto de vida e de carreira, o 
mercado de trabalho, a rede social de apoio e as competências de carreira 
necessárias para a obtenção de resultados objetivos e subjetivos após a 
conclusão da graduação. 
Para enquadrar esses programas, seria útil considerar abordagens 
narrativas baseadas em perspectivas pós-modernas (p.ex.: