Antropologia e Nutrição - um diálogo possível
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Antropologia e Nutrição - um diálogo possível


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de antropólogos e de alguns profissionais da saúde, ainda que seja 
relativamente exígua a bibliografia nacional disponível, quando cotejada com a 
internacional, segundo apontam algumas revisões bastante completas sobre a 
alimentação (Messer, 1984; Murcott, 1986; Mintz, 2001). 
A antropologia, desde os seus clássicos, no decorrer de sua trajetória, 
preocupou-se, sob distintas perspectivas, com a alimentação. Sir James Frazer, 
um antropólogo de gabinete, afirmava que \u201co selvagem acredita comumente 
que, comendo a carne de um animal ou de um homem, ele adquire as qualidades 
 
COMENTÁRIOS SOBRE OS ESTUDOS ANTROPOLÓGICOS... 
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não somente físicas mas também morais e intelectuais que são características deste 
animal ou deste homem\u201d (Frazer, 1911:65). Trata-se de reafirmar o princípio da 
incorporação que, para Fishler (1979), é uma das invariantes do comportamento 
alimentar. 
Outras abordagens podem ser rapidamente lembradas, como o materialismo 
cultural de Harris (1985), que acentuou o peso das ordens ecológica e sanitária nas 
escolhas alimentares e não da ordem simbólica; ou o funcionalismo de Richards (1932), 
discípula de Malinowski, para quem a alimentação preenche necessidades emocionais, 
biológicas e culturais, ou ainda a perspectiva histórica de autores anglo-saxões, como 
Goody (1982), que simultaneamente enfatizou as condições materiais e simbólicas da 
alimentação ao longo do tempo. Para esse grupo de autores, os alimentos são \u2018bons para 
comer\u2019, frase que marca a oposição à tese estruturalista de que os alimentos \u2018são bons 
para pensar\u2019, como disse Lévi-Strauss (1965, 1968), tese em que o simbolismo da 
cozinha e das maneiras à mesa se desconecta das razões práticas e das dimensões 
materiais. 
As contribuições nacionais examinadas foram relevantes na compreensão das 
lógicas que presidem os hábitos alimentares, demonstrando que elas não se prendem 
exclusivamente ao sentido da alimentação para a economia e trazem a marca da cultura, 
da aprendizagem e da socialização, assim como são permeadas pelo simbolismo, pelas 
crenças, pelas identidades sociais, pelas condições materiais e pelo acesso. Alguns 
estudos contribuíram para elucidar o universo de classificações alimentares, não como 
sistemas fechados em si mesmos, mas nos seus usos, ainda que outros procurassem os 
princípios ordenadores das formas de pensar os alimentos. 
Apesar das diferentes perspectivas teóricas adotadas e de suas divergências 
analíticas, a produção acadêmica examinada reafirma que o ato de alimentar se insere 
em uma ordem cultural que se expressa no sistema de classificações alimentares na 
seleção do que é ou não comestível, e que toda cultura dispõe de um conjunto de 
categorias e de regras alimentares, de prescrições e proibições relativas ao que deve ou 
não ser comido. Os estudos se preocuparam em compreender os hábitos ou os 
comportamentos alimentares, os modos de consumo e de sobrevivência, as 
representações e práticas sobre a alimentação, tendo se voltado principalmente para as 
classes populares urbanas. 
Vale observar que os estudos sobre o consumo alimentar não conquistaram, 
no contexto brasileiro, um estatuto especializado, como na França, onde geraram 
análises sociológicas importantes (a sociologia dos gostos e do consumo 
inspiradas em Pierre Bourdieu); algumas etnografias feitas na década de 1970 se 
inspiraram nesses estudos para compreender os hábitos alimentares. As pesquisas 
 
 
ANTROPOLOGIA E NUTRIÇÃO 
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examinadas se marcaram pela sincronia e como etnografias localizadas, exceto os 
estudos de Cândido (1971) e Brandão (1981), que compreenderam as mudanças e 
transformações das práticas e representações alimentares, que ainda são 
sinalizadores bastante sensíveis das permanências ou das alterações mais profundas 
nos modos de vida. 
Vimos também a continuidade de preocupações com temas clássicos da 
antropologia social, como as religiões e, no seu âmbito, as \u2018comidas sagradas\u2019, 
traçando os elos dos homens com as divindades, como também entre os próprios 
homens e extrapolando dos rituais para a sociedade, para caracterizar muitas 
comidas e pratos regionais. O renovado interesse pela gastronomia e a abertura da 
antropologia para novos objetos, desde o fim do milênio passado, parecem motivar 
o deslocamento de olhares antropológicos para as cozinhas, como elementos 
emblemáticos de identidades grupais, regionais. Também as alterações na 
comensalidade nos espaços urbanizados metropolitanos, movidas não só pelas 
novas formas de produção/consumo de alimentos, mas pelas redefinições do tempo 
e do espaço na sociedade moderna, têm convocado os olhares antropológicos para 
os novos lugares. 
Ao lado de estudos dessa natureza, que podem fazer interlocução com a 
nutrição, há outros que convocam olhares multidisciplinares, como as \u2018doenças 
alimentares\u2019 (obesidade, bulimia, anorexia) e a alimentação de grupos específicos 
religiosos ou não, entre outros assuntos. Observa-se também que os estudos 
antropológicos, disciplinarmente orientados, tendem a privilegiar a carga 
simbólica da alimentação, descurando-se freqüentemente da sua dimensão 
material. A comida, disse a antropóloga Maciel (1996:8), 
não é apenas boa para comer, mas também boa para pensar. Pensar em 
comida é pensar em simbolismo, pois ao comermos, além de ingerirmos 
nutrientes (que permitem a sobrevivência), ingerimos também símbolos, 
idéias, imagens e sonhos (que permitem uma vivência). 
Compartilharmos das idéias dessa autora quando ela acrescenta que \u201ca 
alimentação responde não apenas à ordem biológica (à nutrição), mas se impregna 
pela cultura e a sociedade, sendo que a sua compreensão convoca um jogo 
complexo de fatores: desde os ecológicos, os históricos, culturais, econômicos e 
sociais\u201d (Maciel, 1996:8), cujo equacionamento requer a conjugação dos distintos 
olhares disciplinares. 
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