O paciente psiquiátrico   Van Den Berg
46 pág.

O paciente psiquiátrico Van Den Berg


DisciplinaPsicanálise18.672 materiais293.579 seguidores
Pré-visualização33 páginas
Pelo 
contrário, testa a percepção espontânea, perguntando 
ao paciente o que está acontecendo no desenho; 
procura determinar o significado que os objetos do 
desenho têm para o paciente. Ele consegue 
conhecimento íntimo do sujeito por meio da pesquisa 
dos seus objetos, das coisas sólidas e reais do seu 
mundo. 
 Tudo isto pode ser resumido como segue: a 
relação entre o homem e o mundo é tão íntima que 
seria errado separá-los, num exame psicológico ou 
psiquiátrico. Se forem separados, o paciente deixará 
de ser esse paciente particular e o seu mundo deixará 
de ser o seu mundo. Em primeiro lugar, nosso mundo 
não é somente um conglomerado de objetos que 
podem ser cientificamente descritos. Nosso mundo é 
nosso lar, nosso ambiente, nossa casa, uma realização 
de subjetividade. Se desejarmos compreender a 
existência humana, teremos que prestar ouvidos à 
linguagem dos objetos. Se estivermos descrevendo 
um sujeito, teremos que elaborar a cena na qual o 
sujeito se revela. 
 É conveniente acrescentar novamente aqui 
 
14
uma observação, destinada àqueles que consideram 
essas palavras muito filosóficas. Ninguém deixa de 
ter uma filosofia. Quem se gaba de não ter filosofia 
alguma, está sendo vítima da filosofia que se esconde 
atrás dessa negação. A estrita separação entre o 
homem e o mundo não é natural, nem original. Esta 
separação originou-se de uma filosofia. Foi Descartes 
que, com alguns outros, em obras de natureza 
filosófica, cavou um fosso entre o homem e o mundo, 
entre assuntos humanos e não-humanos e entre res 
cogitantes e res extensae, nas palavras de Descartes. 
Desde então, esta separação lançou raízes, 
avantajando a ciência física, pois, esta é impotente 
em relação aos objetos não completamente objetivos, 
não completamente inumanos. É fácil compreender 
que uma ciência como a psicologia tem sido 
prejudicada por esta separação. Por causa disso a 
psicologia tornou-se a ciência do sujeito, o que 
significa, em última análise, a ciência de um vácuo, 
de um nada; pois, o sujeito, o sujeito puro, o homem 
interior sem nenhuma coisa exterior, não existe. Cada 
um de nós pode confirmar este fato, examinando se 
eventos puramente subjetivos ocorrem alguma vez 
conosco. Ao pensarmos, pensamos alguma coisa, 
localizada, em última análise, aí, acolá, lá fora; ou 
seja, uma coisa, ou algo relacionado com coisas. Ao 
sentir, sentimos simpatia para com pessoas ou coisas, 
aí fora; sente-se a ausência, a falta de alguma coisa, a 
ausência de algo aí fora, exterior à nossa própria 
pessoa. Mesmo a imaginação mais individual e 
abstraía pinta alguma coisa, aí, externa: uma fantasia, 
um castelo de Espanha, uma utopia ou o reino dos 
bem-aventurados; coisas impossíveis de discernir 
pelo toque das mãos, mas assim mesmo imaginadas 
entre, ao lado ou em cima de outras coisas que se 
podem tocar. Nada nos pertence que não esteja ligado 
a algo externo. Isto torna sem sentido qualquer 
psicologia estritamente subjetiva. Não existe tal 
psicologia. Isto foi percebido por muitos psicólogos, 
mas estes, convencidos de que era irrefutável o 
dualismo cartesiano, enveredaram para o campo da 
fisiologia. Por impotência, o psicólogo tornou-se 
fisiólogo ou (o que vem a ser a mesma coisa), 
behaviorista, mensurador, computador e calculador. 
O psicólogo deixou de crer nas realidades mentais, 
mas, para ser psicólogo, ele deve crer nessas 
realidades. Muito bem, pode ele continuar a crer 
nelas. Tão logo se afaste da doutrina cartesiana do 
dualismo, que não é válida na vida de todos os dias, 
ei-lo novamente psicólogo. Mas isto só é possível 
numa discussão filosófica que invalida o argumento 
de Descartes. Aqui vai mais um exemplo., para 
explicar o ponto de vista cartesiano e salientar a 
necessidade de refletirmos filosoficamente sobre ele. 
 A palavra libido encontra-se com grande 
freqüência nas obras psicológicas e psiquiátricas. A 
cadeia de pensamento subjacente que apoia esta 
palavra pode ser descrita como segue: o corpo é 
compito de líquidos e células, estas últimas 
combinadas muitas vezes em grupos ou glândulas. 
As glândulas tem duetos, pelos quais o líquido 
produzido pelas células flui para outro lugar. 
Exemplo disso são as glândulas salivares. As 
glândulas que não têm duetos de drenagem, despejam 
o seu líquido, chamado hormônios, diretamente 
dentro do sangue. As glândulas sexuais são, entre 
todas, as de maior significado. Por intermédio dos 
seus hormônios, elas carregam o corpo com uma 
tensão, que é de natureza primordialmente 
fisiológica. A representação psíquica dessa tensão é 
chamada libido. Traduzida do latim, esta pa-
lavra significa fome, desejo e, particularmente, 
desejo sexual. Supõe-se que a libido fornece a 
verdadeira tensão ou o genuíno impulso para a vida e 
que todas as forças, empenhes e desejos têm sua 
origem nessa tensão. Em conseqüência, a origem de 
toda e qualquer motivação ou desejo situa-se dentro 
do indivíduo, dentro do seu corpo, dentro das células 
do seu corpo, dentro das células das suas glândulas 
sexuais. O esforço de todo indivíduo resulta da sua 
libido, deriva portanto de uma necessidade interna e 
não de uma causa cuja defesa valha a pena assumir. 
Quem deseja, está sendo empurrado, não arrastado. 
Aquilo que arrasta é uma resultante. Não arrastaria 
ou excitaria se não existisse uma .sombra de libido. 
Tudo isto significa que o que está aí fora não tem 
importância porque não nos pertence. Mesmo que a 
natureza filosófica fundamental do conceito de libido 
fosse já bastante clara em conseqüência deste racio-
cínio, tornar-se-ia ainda mais óbvia pela leitura do 
que acontece quando o possuidor desses grupos de 
células não consegue “drenar” completamente a sua 
libido. Fica então doente — doente como resultado 
de demasiada tensão. Isto significa que qualquer um 
que não tenha o seu desabafo sexual, é doente. Quem 
vive em estado de celibato é doente. O viúvo é 
doente. Todos os não-casados são doentes; não se 
pode conceber que eles possam livrar-se da sua 
fisiologia. Verdade é que podem disfarçar a sua 
enfermidade, dirigindo, por exemplo, a sobra da sua 
libido para certos substitutivos. O sujeito poderá 
cuidar de um cachorro, tratar de um jardim ou 
construir casas. Talvez escreva poesias ou se dedique 
a ciências. Tudo isso enquanto durar o excesso de 
libido; quando se esgotar, adeus poesia, ciência, casa, 
jardim e cachorro. Toda essa teoria tem sido 
seriamente defendida em numerosas publicações. Até 
mesmo uma escola de psiquiatria foi construída sobre 
essa suposição; em palavras triviais: quem não dá seu 
pulo está doente. Existe alguma realidade que possa 
sustentar essa teoria? Nem mesmo as aparências 
favorecem essa suposição. Inúmeras pessoas solteiras 
gozam de perfeita saúde. A ciência, a arte e os 
“hobbies” (passatempos), não constituem violação de 
outros desejos, que se supõem autênticos porque 
originários das células. A fisiologia não é certamente 
um fator que se possa ignorar, mas é um fator 
determinado pela própria vida. A quantidade de 
 
15
paixão que possa existir dentro de nós, não é ditada 
por uma glândula, mas pelo próprio contexto da vida. 
(\u2665) As pessoas que estiveram confinadas em campos 
de concentração perderam de repente todo impulso 
sexual, mas não porque os grupos de células ficassem 
imediatamente desnutridos. As necessidades sexuais 
perdiam, então, qualquer sentido, tornando-se mesmo 
perigosas. Tudo isto significa que a teoria da libido é 
uma filosofia, fruto de um pensamento que torna o 
homem e o ambiente mutuamente estranhos. 
Somente outra filosofia pode livrar-nos dessa 
estranha teoria, proporcionando-nos nova penetração 
íntima no significado dos males dos nossos pacientes. 
É o que passamos a ilustrar. 
 Num estudo médico de Weiszácker (\u2663), curto 
mas significativo, intitulado Studien zur 
Pathogenese,