O paciente psiquiátrico   Van Den Berg
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O paciente psiquiátrico Van Den Berg


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podemos encontrar a descrição de uma 
paciente que sofre de diabetes insipidus. Padece de 
sede, ou seja, de forte e elementar desejo pela água 
mais ou menos comparável àquele outro desejo 
compulsório chamado libido. A paciente descreve o 
seu anseio como segue: “Sinto-me vinculada à água. 
Gosto de nadar e aproveito todas as ocasiões em que 
isto é possível. Sempre imagino como é delicioso 
receber um forte jato de água em meu pescoço. Gosto 
de cascatas e correntezas e por isso adoro a Floresta 
Negra, na Baviera. Quando ali estou, procuro uma 
vereda que acompanhe uma corrente. A água ali é tão 
clara”. O fato de estar doente, diferente, e de sofrer 
de sede ressalta principalmente do desvio das suas 
percepções. A água desempenha papel predominante 
em suas observações. Assim, ela procura mais vezes 
a água, ouve mais vezes correntezas e goza mais 
intensamente do banho nos rios e fontes do que uma 
pessoa normal. É exato que ela se sente (conforme 
diz) vinculada à água, expressando assim uma 
condição subjetiva. Contudo, esta condição subjetiva 
permanecerá vazia se não for exemplificada 
objetivamente. Continua a nadar sempre que é 
possível. Gosta de riachos ao longo das veredas dos 
bosques. Teria fornecido medíocre relatório dos seus 
males, se tivesse apenas descrito as suas dores 
subjetivas, mas não se limitou a isso; permitiu o 
exame das suas condições íntimas, ao descrever a 
aparência que os objetos tinham para ela. 
 Desta maneira, vem à luz nova patologia, que 
não se restringe ao resumo do que o paciente observa 
introspectivamente “em si mesmo”, mas consiste na 
descrição da fisionomia patológica das coisas. (1) Ou 
seja, na descrição da qualidade das coisas, que — 
também para o próprio paciente — sejam mais reais e 
convincentes. 
 Depois de uma noite agitada, se uma pessoa 
 
\u2665 Que eu saiba, foi Alfred Adler, o primeiro a fazer tal afirmação (Zur Kritik 
der Freudschen Sexuallheorie des Seelenlebens, 1911). Adler também de-
senvolveu originais raciocínios sobre outros aspectos que somente agora 
estão sendo plenamente apreciados. 
 
\u2663 V. Von Weizsàcker. Studicn zur Pnthogpnese, Wiesbaden, 1946. 
1 Essa expressão é de Erwin Straus. 
 
sentir-se mal e resolver ficar na cama, poderá — se a 
isso for convidada — descrever a sua situação, 
contando como se sente subjetivamente: cansada, 
nauseada, sem apetite e com dor de cabeça — dados 
estes que parecem subjetivos mas que, na realidade, 
dificilmente podem ser chamados assim. Essa pessoa 
sente canseira nas pernas e na cabeça, náusea na 
garganta, nenhum apetite para o café com biscoitos 
etc. Está completamente fora da nossa capacidade 
descrever um mal estritamente subjetivo, um mal-
estar que pertença ao sujeito, mas não ao corpo e ao 
seu ambiente. Quem se queixa, queixa-se de coisas 
que estão aí no corpo ou nos objetos. Mesmo quando 
o pensamento falha, é o pensamento sobre coisas 
presentes algures que falha. De sorte que o paciente 
somente chega à descrição real de sua condição 
quando relata que aspecto tem o papel que recobre as 
paredes do seu aposento, o som da campainha do seu 
telefone, e como penetra em seu quarto o ruído dos 
automóveis na rua. 
 De acordo com a senhora Pastorelli (2) que, 
por causa do estado do seu coração, acha-se presa à 
cama onde está para morrer, estar doente significa, 
sobretudo e em primeiro lugar, uma modificação do 
ambiente em que o enfermo se encontra. Significa 
que até os amigos mais íntimos se tornaram distantes. 
Significa que as coisas mudaram - as mesmíssimas 
coisas que eram prova de saúde para as pessoas com 
saúde. “Desde que eu o sei” (diz Jacqueline Van der 
Waals, que sabe que vai morrer), (!) “a abundância, 
a beleza e a doçura das coisas que me cercam são 
duas vezes mais doces e amorosas”. Estar doente, 
quer se trate de doença comum ou de doença mortal, 
significa, antes de mais nada, sentir as coisas de 
modo diferente, ver de modo diferente, viver num 
outro mundo parcial ou completamente diferente. 
 Quem assim fala, espontaneamente, mais do 
que qualquer outra pessoa, é o paciente psiquiátrico. 
O paciente deprimido descreve um mundo que se 
tornou escuro e sinistro. As flores perderam a cor. o 
sol perdeu o brilho, tudo parece sombrio e morto. Um 
dos meus pacientes chegou ao ponto de comprar 
lâmpadas mais fortes, porque a luz em seu quarto lhe 
parecia menos brilhante. Por outro lado, o paciente 
que sofre de mania, acha as coisas cheias de cor e de 
beleza, belas como jamais vira antes. O paciente 
esquizofrênico enxerga, ouve e cheira indícios de um 
desastre mundial, observa, nos objetos, a queda da 
sua existência. Nas vozes do povo, nos murmúrios do 
vento, percebe que uma revolução se aproxima. Até 
no gosto do seu pão percebe o mal, a penetrar nas 
coisas deste mundo. — Será que o psiquiatra faz 
justiça a essas observações e também ao paciente, 
quando declara que o sujeito está doente e que as 
observações dele estão sofrendo do uso exagerado 
das metáforas, ou seja, das projeções? O paciente 
 
2 F. Pastorelli, Servltude et grandenr de U maladle. Paris, 1933. 
 
! Jacqueline E van der Waals, leniste verr.en. Rotterdam, 1950. 
 
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está doente; isto significa que o seu mundo está 
doente ou, mais literalmente (embora isto pareça 
estranho), que os seus objetos estão doentes. Quando 
o paciente psiquiátrico conta como seu mundo lhe 
parece, está a descrever, sem rodeios e sem en-
ganos, o que ele mesmo é. 
 Voltemos ao paciente do primeiro 
capítulo. Diz que as casas parecem velhas e 
estragadas. Observa que estão a ponto de ruir; as 
paredes se inclinam e ameaçam esmagá-lo. A 
sua queixa deve ser aceita seriamente. É assim 
que a rua em que caminha se apresenta para ele. 
Verdade é que não se parece com a rua como nós 
a conhecemos, mas isto apenas significa que o 
paciente está doente e que nós não estamos. 
Nada nos autoriza a afirmar que a nossa observa-
ção é mais verdadeira que a do paciente. 
Também nossa própria observação prova apenas 
o que parecemos e o que somos. Se encontramos 
unanimidade entre a nossa opinião e a de 
inumeráveis outras pessoas, isto apenas significa 
que a gente que nos cerca é mentalmente sã e 
cresceu dentro da mesma cultura; pois se um 
tibetano ou um pigmeu for chamado a caminhar 
pelas ruas que conhecemos, ele verá, apesar da 
sua sadia condição mental, uma rua bem 
diferente. Não precisamos ir tão longe. O homem 
do campo, o pescador de alto mar e o operário de 
fábrica do nosso próprio país percebem ruas 
diferentes, quando caminham pela mesma rua. A 
mulher, o homem, a criança, o adolescente e o 
velho também observam ruas diferentes. Eles 
vêem a sua idade. a paisagem do seu passado, a 
educação que tiveram, seu próprio sexo, 
ocupação ou inteligência; enxergam todas as 
suas próprias qualidades e características na 
feição da rua em volta deles. As qualidades do 
sujeito sãos os aspectos do mundo e as 
fisionomias das coisas da existência de todos os 
dias. Examinarei adiante o aspecto unilateral 
dessa conclusão, que jamais foi suficientemente 
posta em relevo. O paciente, personagem deste 
livro, conta como as coisas se passam com ele. 
Sua existência está prestes a desintegrar-se; tudo 
em volta dele, tudo acerca dele está velho e 
estragado. Está vivendo com as relíquias de um 
tempo passado e ele mesmo é um anacronismo 
vivo. Que as ruas e praças lhe pareçam 
temivelmente largas e vazias, isto é a expressão li-
teral da sua condição “subjetiva”, ou seja, pessoal. É 
um indivíduo solitário, e os objetos estão afastados e 
hostis. Não dispõe de maneira mais adequada para 
descrever a sua condição: ele conta a verdade da sua 
doença mental. Ele está certo. 
 Isto significa o seguinte: não é necessário 
nem indicado que