O paciente psiquiátrico   Van Den Berg
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O paciente psiquiátrico Van Den Berg


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nossas 
leituras. Não estamos a falar da sua imagem, que se 
formou em nossas mentes — esta imagem é o legado 
de um sujeito sem objeto — mas consideramos a 
Islândia como é realmente, isto é, estamos falando de 
um país real. Quando meu amigo fala desse país, 
procuro “entrar” nas coisas que diz. Por mais errada 
que possa ser nossa opinião (estivemos apenas lendo 
a respeito da Islândia), esforço-me em estar naquele 
país. Quando é a vez do meu amigo falar, ele procura 
estar comigo no país em discussão. Este nosso “estar 
aí”, juntos, é a nossa amizade, pois, se estivesse 
conversando com outra pessoa menos simpática, 
minhas palavras, mesmo sendo as mesmas, seriam 
incapazes de nos levar juntos para a Islândia, da 
mesma forma que as palavras dele, se não fosse meu 
amigo, seriam incapazes de encontrar em mim 
qualquer ressonância relativamente àquela ilha. 
Haveria mesmo certa relutância em se estabelecer um 
interesse comum, o qual, no caso presente, seria a 
Islândia real. O aspecto irreal e não compartilhado 
seria então (nesse momento), nossa mútua 
desafeição; pois a desafeição e a amizade significam: 
concreção das coisas. Na conversa com meu amigo, 
a Islândia passa a existir realmente; mesmo sem 
conhecê-la, vejo-a diante dos meus olhos. Ela nasceu 
das suas palavras e das minhas. Mas, ao mesmo 
tempo, vejo-o, vejo meu amigo. Vejo as suas 
expressões entusiásticas. Meus olhos perpassam pelo 
seu rosto, cuja expressão se harmoniza com essa 
 
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Islândia, que evocou em minha mente. Num só 
relance vejo seu corpo, aprecio seu olhar, seu sorriso, 
suas mãos. Demonstro o apreço que lhe tenho, 
embora expressando-o vagamente. Meu apreço dá-
lhe a liberdade de me falar como me fala, de me olhar 
como me olha e de mover-se como se está movendo. 
 Minha presença não é uma crítica das suas 
expressões, mas uma apreciação. No meu olhar, 
sente-se ele como deseja ser. O fato de eu falar, ouvir 
e ver como ele, provoca a adesão entre ele e o seu 
corpo. Esta adesão entre ele e seu corpo é 
literalmente a adesão entre ele e mim: é a nossa 
amizade. — O mesmo se dá comigo. Estou falando 
sobre a Islândia, estou evocando esse país com as 
minhas palavras, talvez como o vejo em minha mente 
— embora nunca tenha estado ali. Não estou vendo 
uma imagem, meus conceitos atingem a verdadeira 
ilha, lá ao Norte. A suposição de que estes conceitos 
visam a uma imagem e não à realidade é — mais 
uma vez — o produto de uma psicologia que separa o 
homem e o mundo. A imagem é de propriedade 
solitária de um indivíduo, ao passo que essa Islândia, 
atingida e visualizada pelas minhas palavras, é uma 
possessão nossa, de mim e de meu amigo. É por isso 
que estou falando tão facilmente; é por isso que estou 
enxergando tanto; porque meu amigo está me 
ouvindo. Penetro nessa Islândia sem 
constrangimento, porque a amizade com meu amigo 
não conhece barreiras. A remoção das barreiras entre 
mim e os objetos é a amizade entre mim e ele. Ao 
mesmo tempo, sei que ele está olhando para mim. Ele 
me vê gesticular, falar, olhar. Estou movendo meu 
corpo livremente; sem qualquer obstrução estou 
fluindo para dentro dos meus braços, das minhas 
mãos, da minha garganta e boca, dos meus olhos. 
Estou de posse do meu corpo; sou este corpo — o 
que implica que estou em bons termos com meu 
amigo. 
 No parágrafo sobre a relação entre homem e 
corpo, deixei entender que a separação entre o corpo 
e o mundo não deve ser compreendida tão 
estritamente. O corpo e o mundo estão ligados um ao 
outro. Os objetos convidam o corpo a assumir uma 
forma; o corpo forma os objetos. Por conseguinte, as 
mudanças do mundo e do corpo, como estão ocor-
rendo na conversa, não são dois acontecimentos 
independentes um do outro. Que o meu amigo e eu 
possamos conversar sobre a Islândia significa que ele 
e eu somos capazes de mover nossos corpos mais 
livremente — e vice-versa. Ambos são um só. 
Agora vejamos: que significa tudo isto para o 
paciente de que trata este livro? Ele diz que os 
objetos ao redor dele tornaram-se estranhos. Significa 
isto que ele não tem contato apropriado com as outras 
pessoas. E acrescenta que o seu corpo mudou, já não 
tem confiança em seu corpo e receia que seu coração 
(o centro do seu corpo) entre em colapso. Desta 
maneira, confirma mais uma vez que não está em 
bons termos com as pessoas que o rodeiam. As outras 
pessoas serão um obstáculo à posse do seu próprio 
corpo, da mesma forma que são obstáculo entre ele e 
o mundo. Quando declara, finalmente, que a gente 
lhe parece hostil, que as feições das pessoas lhe 
parecem duras, semelhantes a bonecos de madeira, 
— está expressando pela terceira vez, que o distúrbio 
que o levou a procurar o terapeuta é o seguinte: ele 
está seriamente perturbado em seu contato com as 
outras pessoas. 
 O paciente é bastante claro. O que não se 
tornou claro é o modo como o paciente chegou a 
esses distúrbios de contato. Que aconteceu em sua 
vida, que transformou todas as pessoas em seus 
inimigos? O próximo parágrafo será dedicado a esta 
questão. Será então necessário que o leitor preste 
atenção à relação entre homem e tempo.Que é o 
tempo? 
 
4. Homem e tempo: — História vivencial. 
 
 Em suas Confissões, Santo Agostinho faz a si 
mesmo igual pergunta, a mais difícil que um 
pensador possa enfrentar: que é o tempo? Assim que 
procura formular a resposta, encontra-se num 
impasse. “Quando alguém me pergunta o que é o 
tempo”, escreve Agostinho, “eu sei o que é, mas 
quando procuro explicar, já não sei o que é”. O 
tempo é uma coisa toda natural. Sem hesitação, 
vemos no relógio que horas são. Sem dificuldade, 
localizamos um acontecimento que se deu faz muito 
tempo. Marcar um encontro para um dia próximo não 
requer esforço algum. Estamos de posse do tempo. 
Fluímos com ele: pois o tempo flui, compreendemos 
isto perfeitamente, mesmo quando estivemos 
dormindo: tornou-se mais tarde. Todos os dias temos 
confirmação de que o tempo passa depressa ou 
devagar, sem esforço, sem estudo ou dificuldade. O 
tempo é óbvio, evidente por si mesmo. Mas quando 
queremos saber o que é o tempo, o que está fluindo e 
como está fluindo, não há explicação. 
 Isto, aliás, não se refere unicamente ao 
tempo. A mesma dificuldade, embora talvez em grau 
menor, surge quando perguntamos: que é o espaço? 
Ou: que é nosso corpo? Ou: que vem a ser, 
realmente, o contato entre os homens? Nenhuma 
dessas perguntas provoca qualquer dificuldade na 
vida diária. Tomamos posse do espaço: viajamos, 
voamos, entramos ou saímos de um lugar. Usamos do 
nosso corpo como se fôssemos este corpo: 
caminhamos, tomamos banho de mar ou de sol. Sem 
muito pensar, apertamos outras mãos, conversamos, 
casamos. Pode-se dizer que não encontramos 
dificuldade alguma em viver as respostas a estas 
perguntas. Logo, porém, que começamos a pensar 
sobre elas, assim que procuramos examinar essas 
questões, as dificuldades são incalculáveis. Assuntos 
que eram, pré-reflexivamente, muito claros, tornam-
se muito obscuros depois de alguma reflexão. A 
fenomenologia é esta ciência extraordinária e 
 
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pretensiosa que procura resolver esses problemas pré-
reflexivamente. Pretensiosa, sim, pois como podemos 
pensar sobre, refletir sobre aquilo que, por definição, 
acontece antes de pensar e antes de refletir? Parece 
que a impossibilidade é óbvia. 
 O fenomenologista não deixa de confessar 
essa dificuldade. Esta perfeitamente cônscio dessa 
dificuldade — talvez como resultado dos seus 
esforços e mais do que qualquer outra pessoa — mas 
não deseja dizer que isto seja uma dificuldade. Para 
se chegara uma explicação dos assuntos pré-
reflexivos, dirá ele, é necessário abandonar o sistema 
habitual de pensamento. Em vez de propor uma 
teoria reflexiva e, — como a história do pensamento 
o ilustra — sempre ligeiramente estranha, artificial e, 
portanto,