O paciente psiquiátrico   Van Den Berg
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O paciente psiquiátrico Van Den Berg


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passado. Aquilo que não tem função, não tem 
realidade. Está ausente. Está apenas presente como 
fato bruto ou condição. A vida terá que decidir se 
este fato ou esta condição devem transformar-se em 
realidade. A vida também terá que decidir como a 
condição se torna realidade. Não nos é dada a 
recordação pura e simples. As nossas recordações 
têm um motivo. É este motivo que decide a natureza 
da recordação: encantadora, deliciosa, agradável, 
desapontadora ou aborrecida. 
 O motivo é que decide o passado; o leitor é 
convidado a examinar as palavras motivo e passado, 
o que significa que, enquanto até agora esta discussão 
era a respeito do passado, está chegando 
naturalmente ao futuro. O motivo é o futuro. Será que 
é o futuro que decide do passado? Vejamos se isto é 
verdade. Para isso, deixemos de lado a relação entre 
presente e passado e dirijamos nossa atenção para o 
 
1 E. Straus, Urschelmis tind Erlebnis, Beriim, 1930. 
 
 
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significado do futuro. Que significa a palavra futuro? 
Que nos ensina a psicologia, de modo geral, sobre o 
futuro? 
 A primeira coisa a responder é que a 
psicologia pouco tem a dizer sobre o futuro. 
Enquanto cada um de nós pensa muito mais nas 
coisas por vir do que nas coisas já passadas, a 
psicologia consegue dizer muito sobre o passado, e 
pouquíssimo sobre o futuro. Poderá a causa desse 
fato notável ser atribuído a que a (moderna) 
psicologia originou-se parcialmente da experiência 
dos psicoterapeutas? O indivíduo neurótico muito 
tem a dizer sobre o seu passado, e muito pouco sobre 
o seu futuro, embora, ao que parece, a julgar por 
recentes publicações, as coisas estejam mudando. Os 
livros e os artigos representativos do começo deste 
século até o fim da terceira década podem ser 
perscrutados sem que se encontre uma única 
declaração sobre o futuro, a não ser algumas 
referências nas quais o futuro é rejeitado. Certas 
vezes, isto é feito com tamanha ênfase (1) que não se 
sabe quem era mais adversário do futuro, o paciente 
ou o seu terapeuta. A princípio, e até trinta anos atrás, 
o terapeuta procurava com afinco manter-se 
silencioso sobre o futuro (não há outra maneira de 
declarar isto); hoje, as suas objeções parecem ter 
desaparecido, em larga proporção. O paciente tem 
acompanhado esta preferência: a princípio só falava 
sobre as coisas do passado mas, recentemente, tem 
encontrado as palavras para expressar o seu futuro. 
— Forçoso é admitir, porém, que o paciente segue 
geralmente as preferências do seu terapeuta; do 
contrário, não poderia sarar. Se o terapeuta for da 
escola de Jung, o paciente terá sonhos arquetípicos; 
se for um adepto de Sartre, os sonhos do paciente 
serão existencialistas. O paciente procura inserir sua 
doença dentro da linha de preferências do médico, a 
fim de poder curar-se dentro dessa experiência. 
Mesmo o paciente que sofre de séria doença 
psiquiátrica incurável pode às vezes, dentro de certos 
limites, seguir as preferências do seu médico. Todo 
paciente sofre, além da sua enfermidade em si, da 
doença que existe na opinião do seu médico. Sofre da 
doença que existe na teoria do seu médico, embora 
seja esta uma expressão muito estranha. Sofre até 
mesmo das moléstias expostas nos manuais; isto é 
verdadeiro para todas as doenças, mas sobretudo para 
as doenças psiquiátricas. Este fato teve, e ainda tem, 
importantes conseqüências para a história da 
psiquiatria. Sintomas aparecem e desaparecem de 
acordo com a mutável opinião histórica do psiquiatra 
(sua maneira de agir e de falar), embora haja sempre 
um elemento essencial da moléstia que continua 
inalterado. Esta flutuação dos sintomas sobre a 
teoria adotada, torna-se mais aparente nos casos de 
neurose. Os sintomas variam de uma época para 
 
1 Refiro-me à rejeição da teoria de A. Maeder sobre a Interpretação 
prospectiva do sonho. 
 
outra, de um país para outro ou de um para outro 
psiquiatra. Variam conforme as opiniões, de modo 
que se pode presumir que a preferência pelo passado 
não foi, em primeiro lugar, uma preferência do 
paciente mas, principalmente, uma escolha do 
terapeuta; surge então a questão de se saber por que 
motivo o terapeuta adotou essa preferência. A 
resposta é a seguinte: o terapeuta sentiu a preferência 
pelo passado porque se acostumou, de modo geral, a 
acompanhar a linha de 'pensamento da evolução. 
Estamos ainda bastante ligados ao período em que 
triunfou a teoria da evolução; isto facilita a 
compreensão desse modo de pensar. Tudo o que 
existe, veio a existir, é este o princípio básico dessa 
corrente de pensamento. Para poder compreender al-
guma coisa, o indivíduo tem que compreender a 
origem dessa coisa. Ou, em outras palavras, tudo é a 
conseqüência de um desenvolvimento; a fim de 
podermos compreender o presente, precisamos 
investigar a condição que o precedeu. Que o presente 
possa ser compreendido como resultado do presente 
é um conceito que, mesmo para nós, não é óbvio a 
primeira vista. Ainda mais difícil é acreditarmos que 
o presente possa ser feito pelo futuro. Corno se 
poderia conceber isto? A idéia de que o presente seja, 
até agora, a última fase de um processo de 
desenvolvimento, é muito mais fácil de ser entendida. 
 Todavia, aquela idéia inconcebível é 
comprovada pela vida de todos os dias. Quando uma 
pessoa sai de casa, sai para fazer compras; isto é, sai 
para praticar uma ação no futuro. É verdade que 
alguém, em casa, poderá ter dito: “Faça o favor de 
comprar tal e tal coisa para mim”; porém, até o 
momento em que o pedido se torne tarefa claramente 
definida e que tem de ser realizada — como futuro da 
própria pessoa — a pessoa fica em casa. Até uma 
pessoa expulsa da sua casa por um incêndio, tem 
pressa de retirar-se: é assim que ela estará em 
segurança. É duvidoso que exista um ato qualquer 
que seja determinado somente pelo passado. As 
condições da decisão são dadas pelo passado, mas o 
ato, em si, origina-se do futuro, da expectativa, da 
vontade, do medo ou do desejo. Isto é verdadeiro 
para toda a vida; se o passado fornece as condições 
para o que vai acontecer na vida, são os próprios atos 
da vida que estão enraizados no futuro. O mesmo 
pode ser dito para as existências perturbadas. O 
passado fornece as condições para a neurose, mas 
esta se origina das condições inacessíveis ou 
dificilmente acessíveis do futuro. — Os primeiros 
terapeutas (vinculados a Darwin, Spencer e Jackson) 
não acreditaram nisso porque os seus pensamentos 
estavam condicionados pela teoria da evolução. 
 Havia outro motivo, embora relacionado com 
o evolucionismo, para que o terapeuta se interessasse 
pelo passado. O que aconteceu, aquilo que foi, está 
fixado. Não somente como incidente que ocorreu, 
mas também como impressão no cérebro, como 
engrama. O que é, o que está acontecendo, não está 
 
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fixado. O que é está sendo fixado, também como 
impressão no cérebro. O que está por vir, não está 
fixado de modo algum, pelo menos não como 
impressão, nem como engrama. Como, então, pode 
qualquer coisa se originar dele? Nada, só pode 
resultar em outro nada. Onde não há memória, nem 
impressão no cérebro, nem engrama, nem matéria, 
tampouco pode haver o começo de qualquer coisa, 
pois nada há que possa servir de ponto de partida. Se 
a anatomia do cérebro tem que ser nosso guia, não 
podemos encarar o futuro de outra maneira. Aí está o 
cérebro, ou melhor, aí estão as impressões de ontem, 
aí estão as de anteontem, as da infância, como 
também aí está o lugar em que as impressões de hoje 
serão registradas. Os fatores determinantes do futuro, 
mesmo quando se trate de felicidade ou de infortúnio, 
são decididos pelo material que aí já se acha; pelas 
impressões de ontem, pelas recordações da infância e 
por