O paciente psiquiátrico   Van Den Berg
46 pág.

O paciente psiquiátrico Van Den Berg


DisciplinaPsicanálise18.712 materiais293.987 seguidores
Pré-visualização33 páginas
ambos têm um valor atual; futuro e 
passado estão incorporados num presente. O presente 
tem dimensões; às vezes ele contém uma vida toda e, 
excepcionalmente, pode conter um período mais 
longo que uma existência individual. O passado está 
dentro deste presente: é aquilo que era, da maneira 
como está aparecendo agora. E o futuro, o que está 
vindo, da maneira que está nos encontrando agora (1). 
 Este aparecimento e este encontro estão 
intimamente relacionados. O passado aparece no que 
está vindo ao nosso encontro; se não aparece, está 
ausente. Assim pois, realmente, o passado é o que se 
estende atrás de nós, mas somente porque um futuro 
permite que aí se estenda. E o futuro está aí adiante, à 
nossa frente, mas somente porque é alimentado pelo 
passado. O presente é então o convite vindo do futuro 
para ganharmos o domínio dos tempos passados. 
Torna-se agora claro porque o neurótico (e muitas 
vezes o psicótico) se preocupa com seu passado, o 
passado que, para ele, se assemelha a um caos. O 
futuro tornou-se inacessível; pois um futuro acessível 
significa um passado bem ordenado. 
 Para efeito de clareza, a “explicação sem os 
três ismos” foi restrita às experiências individuais. 
Para suprir essa deficiência, apresentarei o próximo 
exemplo.Numa' fábrica, um operário cai da escada e 
quebra a perna. É levado ao hospital, onde a fratura é 
reduzida e, depois de alguns dias, o operário, ainda 
mancando, tem permissão para voltar para casa. 
Algumas semanas mais tarde, é informado de que a 
fratura se consolidou e que pode voltar ao trabalho. 
Nesse mesmo dia, descobre que a perna ainda dói. 
Consulta o médico da fábrica e é aconselhado a 
trabalhar meio período por mais uma semana, mas 
também isto é impossível. O operário fica em casa, é 
censurado pelo controle médico, mas persiste nas 
queixas, mostrando-se incapaz de trabalhar e sendo 
finalmente encaminhado para o hospital para um 
exame completo. Nem os exames, nem as chapas de 
raios X revelam qualquer defeito. Dizem ao paciente 
que tudo está em ordem e que nada o impede de 
voltar ao trabalho. O paciente não se convence. 
Declara estar incapacitado de trabalhar. Fica em casa, 
arrastando a perna e queixando se a todos que lhe dão 
ouvidos. Que aconteceu? 
 Uma investigação na história do paciente 
revela que sofreu de vários conflitos antes do 
acidente. Não estava satisfeito com seu trabalho, 
havia tensões entre ele e seu empregador e em geral 
não sabia bem o que fazer da vida. Não deixava de 
haver relações entre esses aspectos. Quais eram essas 
relações, não interessa saber aqui; o que interessa é o 
 
1 Cf. M. Heidegger. Sein und Zeit, Halle, 1927. 
 
 
32
fato de que, antes do acidente, o paciente tinha estado 
em dificuldades e que essas dificuldades eram 
estreitamente ligadas aos seus contatos com outras 
pessoas. Dificuldades com seu empregador, conflitos 
com seus colegas, dissenções com os membros da 
sua família, complicações com todo o mundo. 
Quando caiu da escada, caiu para fora das suas di-
ficuldades. É certo que fraturou a perna e que isto 
doía. Gemia e suspirava, mas isto não alterava o fato 
de que, ao mesmo tempo, inaudivelmente, ele 
suspirava de alívio. 
 No hospital, a fábrica estava bem longe, 
como também a família; o paciente sentia-se 
perfeitamente confortável no hospital. Mal melhorou, 
começaram a voltar as complicações. Será então de 
admirar que o seu estado melhorasse tão lentamente e 
que continuasse a se queixar? Uma dor ligeira 
transformava-se nele em dor insuportável; pequena 
dificuldade no andar transformava-se em manqueira. 
Cada um de nós já passou, provavelmente, por 
experiência deste gênero. Se acordamos de manhã 
com ligeira dor de cabeça, sentimos essa dor com 
mais intensidade, quando o dia se nos apresenta com 
aspecto pouco promissor; ao contrário, quando as 
expectativas do dia são agradáveis, quase esque-
cemos a dor de cabeça. Não seria certo presumir que, 
no primeiro caso, estejamos fazendo exibição e que, 
no segundo, estejamos fazendo pouco caso de uma 
dor verdadeira. Não existe dor que não contenha algo 
em si. A dor tem um significado, que está 
habitualmente em harmonia com o conjunto da nossa 
vida. Isto não quer dizer que a pessoa feliz não sinta 
dores, mas que as suporta de maneira diferente que a 
criatura infeliz. 
 O que aconteceu ao operário pode ser 
resumido como segue: Quando, depois da redução da 
sua fratura, viu-se numa cama de hospital, o seu 
passado tinha sido enriquecido por um incidente 
significativo: a queda e a fratura. As semanas de 
inação que o aguardavam, tinham sido determinadas 
pelo acidente. Mas como? O paciente tinha que es-
colher. De que maneira iria levar esse acidente para 
seu futuro? E em que forma? — Da forma que 
tornasse seu futuro mais aceitável, o que no seu caso 
(lembremo-nos das suas dificuldades e da sua 
personalidade!) significava na forma de uma situação 
grave: muito sofrimento e muitos tropeços para sua 
locomoção. Pode ser dito que o paciente não fez uma 
escolha feliz. Uma existência com dores e coxeadura 
(pois as dores e a coxeadura não são simuladas, o 
paciente está realmente sofrendo), não possui 
encantos para ninguém. 
 Mas a sua existência antes do acidente 
conhecia outras penas e outras coxeaduras: a dor da 
constante humilhação e a manqueira de uma vida 
escravizada. Estas dores e estes defeitos eram mais 
difíceis de suportar. Assim, devemos reconhecer que 
o operário escolheu certo. Ou melhor, escolheu certo, 
mas de um ponto de vista muito limitado, pois, 
solução muito melhor teria sido resolver os seus 
conflitos no serviço ou, se fosse necessário, procurar 
outro emprego. Poderia também divorciar-se e casar 
de novo e modificar todo seu ambiente, se fosse 
preciso. Tudo isso, porém, é fácil de dizer. O 
operário era uma “pessoa difícil”. Sabemos como 
teria sido difícil para ele uma simples mudança de 
emprego. Procurou então o caminho mais fácil, 
talvez o único caminho. Foi quase obrigado a 
encontrar a espécie de distúrbio que somente a fratura 
lhe poderia proporcionar e que o manteria afastado 
dos conflitos. Obrigado a encontrar: estava (embora 
não completamente) obrigado a fazer uma (também 
não completa) escolha.(1) 
 Reexaminemos toda a situação: na fábrica 
(deixaremos de lado os outros conflitos) o operário 
trabalhava numa atmosfera de conflito. Admitindo 
que a situação, na fábrica, fosse realmente difícil, 
devemos reconhecer que o paciente não reagiu de 
maneira adequada e favorável. Os outros operários 
conseguiam agüentar, sob as mesmas condições. Se a 
relação entre o homem e o seu ambiente humano for 
comparada com um diálogo, o diálogo entre esse 
operário e o seu ambiente transformou-se em disputa, 
mesmo que não tenham sido trocadas palavras duras; 
é até provável que não tenha sido dito número 
suficiente de palavras ásperas. O trauma — a fratura 
— recebeu o seu significado dessa disputa: foi um 
sério trauma, um trauma seríssimo, a dor foi intensa, 
pelo que se via da expressão do rosto da vítima; seu 
desespero tornara-se óbvio para todos. O trauma 
tinha de desempenhar um “papel, como tudo na 
existência humana. O papel desse trauma consistiu na 
eliminação de uma relação conflitante. O trauma 
precisava manter o operário afastado da fábrica, 
afastado da associação conflitante que tinha tomado o 
lugar do seu trabalho. Mas o resultado foi que o 
paciente não melhorou. Do ponto de vista médico, é 
certo que a sua perna sarou mas, enquanto o conflito 
de relações continuava a atuar, a perna tinha que 
manter o seu papel; em outras palavras, como o 
conflito não estava resolvido, a dor e a coxeadura se 
mantiveram. A recuperação do paciente não será 
encontrada apenas na cura da fratura, mas na solução 
do conflito entre ele e a fábrica; pois é